MEPHISTOPHELES PIONUS MAXIMILIANI
A BÍBLIA DEMON’S [TRADA]
Versão do Diretor
"O Diabo tem pelo menos uma desculpa. A de que só ouvimos um lado da história, afinal Deus escreveu todos os livros".
Samuel Butler
PRÓLOGO NO ÉDEN
Jardim: relva, flores, água corrente e alguns animais.
Em um dia em que o sol era ameno e nenhuma nuvem pairava sobre o abismo, Deus está recostado sem nada prá fazer. Entra o Diabo visivelmente alegre e animado.
Aproxima-se de Deus e a ele se dirige nestes termos:
— Achei!
— Que há contigo cramulhão? Porque tanta euforia, sua besta?
— Sim eu estou eufórico, radiante, e, sinceramente emocionado, pois nessas nossas experiências de criação de inúmeras coisas e de seres animados e inanimados, como estes que estamos criando por este Éden a fora, temos definitivamente descoberto inúmeras novidades, e a cada dia é uma nova aventura a tentativa de fazer aparecer por aqui algumas espécies mais interessantes que as que trouxemos à existência anteriormente, é realmente extraordinário podermos inventar animais que voam, que mergulham na água, plantas comestíveis e ornamentais. Devo mesmo lhe confessar que até ontem eu estava perturbado e com o zelo se apoderando de mim desde que vi aqueles lagartos gigantes que criastes, pois eles são realmente fascinantes! Mas... 'cesse tudo que a antiga musa canta', mestre e amigo, pois nada se compara ao que descobri hoje!
— Ai... ai..ai...ai, Canhoto, você não tem conserto mesmo, hem? Vive me enfadando, não seja tão prolixo, vamos, vê se não enche o meu saco e desembucha logo, antes que eu...
— Está bem, mas tem que me prometer que vai me dar uma parte nos créditos nesta história toda, está bem?
— Está bem, está bem, eu prometo tudo o que você quiser, Nossa-Mãe-de- Deus, esta conversa está mais tediosa do que quando não tínhamos nem esta terra aqui e ficávamos sentados no nada fazendo coisa nenhuma, fala logo Coisa-Ruim!
— Lá vai prepare-se. Eu sei agora, através de muitos cálculos e experimentos variados, que podemos criar sabe o quê?...Sabe o quê? Aposto que não adivinhas nem com sua mente divina!
— O que, Cão?!
— Podemos criar seres como nós! Seres à nossa imagem e à nossa semelhança! À nossa imagem e semelhança, trá, lá, lá, rá, lá! Pensa que estás sonhando? Quer que eu o belisque?
— Ahhh, vá-de-retro!
— Juro por ti e por mim!
— Ta bom. Suponhamos que fosse possível, que fosse verdade. De que nos serviriam tais criaturas? Seriam por acaso... uhummm... Deixe-me ver... nossos escravos?
— Cruz Credo! Mas será o benedictus? Vai me desculpar a franqueza viu Javé, mas tu és um megalomaníaco mesmo, ou sei lá o que! Mas qual escravos qual nada!
— Pois então aí está. Não vejo utilidade em suas intenções.
— Deus... deus...deus....pense um pouco. Use só um pouquinho "assim" da sua onisciência. Não vê como pode ser legal? Não percebe que nós já não estaríamos mais tão solitários neste imenso e magnífico jardim? Os animais são até divertidos e as plantas agradáveis aos olhos e às narinas, mas acaba cansando ficar olhando prá eles, fica só nisso. Passarinhos fazendo ninhos, leões comendo gazelas, formigas cortando folhas e carregando, ah... parece até um documentário eterno. Não acha isso tudo um pouco chato não?
— Quer saber? Não acho não. Acho que os incomodados é que devem se mudar. Eu to achando muito bonito tudo isso aqui.
— É, mas que de vez em quando o amigo aí pisa num monte de bosta de um destes bichos aí e sai soltando raio prá tudo quanto é lado, isso sai porque eu já vi!
— Puxa, mas que merda! Com todos os diabos, não tem nada prá fazer além de me encher?
— Perdão, perdão meu caro, não me leve a mal não, é que eu tenho muitas idéias boas, e acho que se você pensasse um pouquinho, veria que existem inúmeras vantagens no que estou propondo, pois nós poderíamos inventar jogos, organizar festas, conversar até altas horas...
— Ora, ora, já basta destas tolices, desapareça da minha frente Satanás!
—!?
—Você é mesmo uma besta inconseqüente, não percebe que se fizéssemos isso, se é que é possível, e eu não estou dizendo que é, não imaginou que estas novas criaturas poderiam se tornar ambiciosas por se parecerem conosco e depois querer nos espionar para descobrir como criar coisas do nada, hã, hã!?
— Mas Javé, compadre, eu jamais pensei que precisaríamos ocultar-lhes estes poderes. O universo é infinito, e criar 'do nada' não gasta matéria-prima. Que mal existe então que qualquer um possa criar uns patos aqui e uns cangurus acolá?
— Aí, ai, ai, ai, ai!
— Veja, vou lhe explicar o procedimento: pegamos uma forma que deve medir três côvados de comprimento por um côvado e meio de largura de ombro a ombro, e ainda zero oitenta côvados de profundidade. Besuntamos a forma com azeite para que a massa não grude no fundo, derramamos então dentro dela argila úmida e pastosa com um pouco de palha de mistura para dar liga e...
— Não estou ouvindo, não estou ouvindo, não estou ouvindo! [dizia Deus tapando os ouvidos].
— E eu ainda não falei o melhor! Depois que estes primeiros exemplares estivessem prontos, tenho quase certeza que se tomarmos uma parte deles podemos fazer outros de um tipo diferente, sabe? Algo com mais beleza, com formas mais arredondadas, mais agradáveis ao tato que a argila e que cheire melhor também que a lama. Com certeza cheirará melhor que nós mesmos. O amigo aí cheira uma coisa esquisita que é uma mistura de cera de vela, incenso e carne queimada. Quanto a mim, mal consigo agüentar este fedor de enxofre que sai das minhas axilas... arrgh [dizia cheirando as axilas].
— Olha, já basta. Estou cansado deste assunto. Não aprovo suas idéias, não quero mais ouvir nada sobre isso. Vou dormir.
Então o pobre Diabo, um tanto quanto chateado, calou-se.
Os dois seguiram cada um para um lado do jardim e foram dormir em tendas separadas.
Houve tarde, manhã e noite daquele dia.
Deus, todavia, não pegou logo no sono, pois trazia os seus pensamentos turvados pela sombra do medo de perder a autoridade que impunha sobre todas as coisas. Seu cenho se perturbou de forma severa e amedrontadora. Levantou-se então sorrateiramente, armou-se com um porrete enorme, e de maneira furtiva penetrou na tenda do Diabo enquanto este dormia a sono solto. Deitou-lhe então duas porretadas na cabeça, que o fizeram perder totalmente os sentidos e ainda lhe criaram para sempre dois galos pontiagudos na testa. Arrastou então a sua vítima para o jardim, onde depois de transformá-lo em serpente, depositou-o dentro do galho mais grosso da mais grossa árvore que pôde encontrar, fechando o tronco pelo lado de fora, não a sete, mas a setenta vezes sete chaves. Porém, na pressa de não ser apanhado por alguma criatura sua em atitudes pouco ortodoxas, não reparou em um pequeno orifício no alto do caule da árvore, por onde o Diabo viria a escapar mais tarde.
Considerou Deus, no entanto, que a idéia do Diabo não era de todo má, desde que redundasse em benefícios para si, e apoderando-se das minuciosas fórmulas que o Diabo havia anotado, daria início mais tarde, ele mesmo, sozinho e "poderosamente", à criação de um povo inteiro de indivíduos semelhantes aos que o Diabo lhe havia descrito, para que este povo o servisse por toda a eternidade.
Fim do Prólogo no Éden
Livro Primeiro
ORIGENS
[Para oeste, norte, sul e leste ele andava]
Mesmo local. Não se vê a árvore. Um homem anda de um lado para o outro visivelmente entediado.
Não obstante estes eventos anteriores, já agora havia um ser semelhante àquele que o prisioneiro da árvore havia imaginado. Tudo havia corrido exatamente como o previsto por ele em seus cálculos, e, o, agora, senhor exclusivo do universo, conseguiu fazer uma criatura semelhante a ele mesmo e prometeu para este Ser, que logo lhe faria, de uma parte retirada do corpo dele (a criatura), uma daquelas outras mais arredondadas, mais cheirosas e mais macias como o prisioneiro da árvore admitia ser possível. O primeiro Ser criado a partir das fórmulas do “outro”, não tinha rigorosamente nada o que fazer e por isso ficava andando ocioso por todos os lados. Por este motivo havia recebido do seu senhor o nome de ANDÃO. O senhor então, cansado da falta do que fazer de Andão teve uma idéia.
1. Andão, onde estás? Andão!? Ô Andãaao!!
2. Estou aqui senhor. Mas tu já não o devias saber, uma vez que és onisciente?
3. Nada de críticas hoje Andão. O fato é que encontrei um ótimo passatempo para você.
4. Ah Ráh, vai finalmente fazer pra mim aquela criatura?
5. Mulher, Andão, o nome que daremos é mulher, já te disse. Não, não, mas ainda não.
6. Mas não é possível!
7. Tem tempo para isso Andão.
8. Disso não há a menor dúvida, pois não vivemos em uma eternidade?
9. Então, por isso mesmo achei por bem dar lhe uma atividade antes que se transforme em funcionário público.
10. O que é então? Revele-me senhor qual é este passatempo que se te agradar eu o farei.
11. Bem é o seguinte. Eu pensei cá comigo, que você poderia se sentar ali embaixo daquelas árvores e enquanto eu que sou o Eu Sou, faço desfilar diante de ti, que é o Não É, todos os outros seres vivos de todas as outras espécies para que você os vá nomeando, criando nomes para cada um deles, não é legal?!
12. Oh, Burro!
13. Boa, Andão! Está se referindo àquele animal orelhudo que está pastando ali, né? Vejo que tem talento para a coisa!
14. ?
15. Bem, então vamos começar. Eu darei a ordem para que se inicie o desfile e você fica ali sentado colocando os nomes nos bichos.
16. Mas, meu Deus...
17. Não tem mais meu Deus nem meio Deus, vamos, anda logo Andão, isso é uma ordem!
18. Mas senhor, uma dúvida paira sobre o meu semblante.
19. Ta, o que é agora?
20. Todos os animais da terra virão até aqui para que eu lhes dê um nome?
21. Pois não é isso mesmo que eu estou dizendo, lerdeza!
22. Mas senhor, o senhor não acha que alguns poderão levar muitos anos para chegar aqui? E que outros talvez nem mesmo consigam vir devido às águas dos oceanos? Ou por acaso estamos na época da Pangéia?
23. Sei lá o que é isso que está dizendo? Ora vamos ao que interessa.
24. E os animais aquáticos, senhor, vou mergulhar para dar nomes a eles, ou eles evoluirão para respiração pulmonar?
25. Não me fale em evolução, Andão! Eu já te disse que não tolero este assunto!!
26. Tudo bem, tudo bem, me perdoe senhor. O senhor é que é o Eu Sou, viu? Só o senhor, ninguém mais. Não fique bravo comigo.
27. Hummm... assim ta melhor. Então vai lá, vai, senta lá, pra nomear os bichos.
E então o senhor Deus começou a fazer desfilar diante de Andão todos os bichos que tinha à mão por ali no momento, pois embora não quisesse admitir, sabia que Andão (mesmo sem ter provado ainda do fruto da árvore do conhecimento) estava coberto de razão, pois não seria possível e nem prático que todos os animais da terra viessem ter ali naquelas paragens paradisíacas apenas para ganhar um nome.
[Andão sozinho, recostado à sombra de algumas árvores, observa o desfile dos bichos e vai nomeando-os com visível dificuldade].
Começou, pois, Andão, a nomear os animais um por um, como Deus havia determinado que ele fizesse, apesar de não compreender porque Ele mesmo (Deus), com um simples estalar de dedos não o poupava de tamanho trabalho. E como eram por demais os bichos, Andão teve sono e dormiu. Sonhou então que estava em um outro Reino, mas que era muito parecido com o jardim do seu Deus. Viu, no entanto, que neste outro paraíso havia algo muito melhor para se fazer do que ficar andando de um lado para o outro ou dando nomes a bichos. Andão percebeu que ali naquele jardim já existia inúmeros Seres iguais ao tipo que o senhor seu Deus já havia lhe descrito e prometido que faria um pra ele, para fazer-lhe companhia. Eram exemplares magníficos! Tinham uns corpos muito belos, alguns corpos eram claros, outros morenos, negros, uma grande variedade de tons. Os cabelos eram lindos, dos mais variados estilos e exalavam um perfume inebriante. Havia também preponderantes elevações na altura do tórax que pareciam pequenos vulcões terminando estes em uns bicos muito interessantes e atraentes. Eram as criaturas mais extraordinárias que Andão já havia botado os olhos em cima. Ainda não era tudo. Os Seres traziam também uma cintura fina com uns quadris largos e os traseiros eram de uma inclinação estupenda! Todas estas criaturas estavam acariciando e servindo um ser igualzinho a ele, que estava confortavelmente deitado numa rede de cipó entrelaçado. Andão resolveu se aproximar mais, e percebeu que além de bonitas, as criaturas eram alegres, agradáveis e simpáticas, pois sorriam e piscavam para ele, acenando com o dedo como se o chamassem a aproximar mais. Andão então se sentindo encorajado, chegou mais perto e estendendo uma das suas mãos, tocou uma delas em uma parte próxima à virilha. Era algo muito diferente de tudo que já havia tocado, algo muito macio e acolchoado, com uma leve penugem muito agradável de acariciar. Porém, enquanto Andão sentia aquela textura tenra e suavemente inusitada com a ponta de seus dedos sentiu de repente umas fortes pancadas no seu flanco esquerdo. (Era Deus que o acordava aos pontapés).
1. Aí, aí, aí! Porque me chutas meu senhor?
2. Você dormiu em serviço idiota, dormiu enquanto nomeava os animais sua Lesma! Lesma... Lesma... ah...olha ali Andão, este é um bom nome para aquele vermezinho asqueroso e molenga que já vai rastejando ali, olha!
3. Não vem não que eu já coloquei nome nisso aí de Escargot.
4. Escargot? ...hummm, é, tem razão, é um bom nome pra ele. Mais elegante até. Afinal o coitadinho só vai ter de bonito o nome mesmo.
5. Mas senhor deixa eu te contar um sonho que eu tive ainda agorinha!
6. Ah, Andão, este negocio de interpretação de sonhos é bem mais lá adiante que vai começar. Se eu não me engano, lá na história de José no Egito é que ela vai ser mais importante. Depois vai aparecer um monte de charlatão por aí com esta mania... Ah... pera aí. Parece que a coisa volta a ter alguma seriedade lá bem mais na frente, no século... Hummm... xii sou ruim para datas viu. Bem, um tal de Doutor Freud vai cismar com isso aí. Aliás, gente nossa Andão, gente nossa! Ou não?
7. Mas senhor, Deus meu, não precisa interpretação não. Foi um sonho muito claro e maravilhoso! Havia um montão daquelas criaturas iguais as que o senhor já me prometeu tantas vezes que vai fazer uma pra mim.
8. Mulher, Andão, mulher... Lembra? Você homem e ela mulher.
9. Ta, ta bom, é isso mesmo, mulher. Mas o nome naquilo ali é o que menos importa! Mas este nome ficou muito bom mesmo para aquela criatura. Foi o senhor mesmo que escolheu?
10. Mas é evidente não é Andão? Quem mais poderia ser?
11. Uai, o senhor tem jeito pra dar nomes, hem? Não quer dar uma mão com a bicharada aqui não? Isso aqui é uma trabalheira do Cão! Ah, pensei mais um! Podemos chamar assim aquele bicho ali que fica abanando a cauda, cheirando tudo que encontra e latindo sem dar trégua! Ô bicho impertinente viu!
12. É, ta bom, mas cuidado com este nome aí, pois ele é também o nome do meu arquiinimigo e tem que ser o seu inimigo também. Procura inventar um apelido pra chamar este bicho aí mais pela alcunha. Que tal cachorro?
13. É, é bom também. Só não entendo porque é que eu tenho que ser inimigo de alguém que eu nem conheço só porque o senhor não gosta dele.
14. Andão, Andão! Pra quem ainda não comeu da árvore do conhecimento você ta bem espertinho e questionador.
15. Comer, comer. Javé, eu não sei por que, mas esta palavra me faz lembrar da tal da mulher lá. Então. Deixa eu te contar o sonho, vai O senhor precisa saber como elas eram.
16. Eu sei muito bem como elas são, Andão.
17. Mas tinha um monte lá senhor. Eram, eram, ah... Deixa ver... mais ou menos umas sessenta!
18. Setenta e duas.
19. Ora, que isso? Como o senhor sabe? Ta informado, hem? Mas pro senhor é fácil saber, o senhor é Deus, né? Mas meu senhor, meu senhorzinho querido, será que eu não posso ter setenta e duas também não?
20. Isso não.
21. Ah, mas por que, senhor?
22. Porque não pode, não é certo na nossa religião.
23. Por quê?
24. Andão, o negócio é o seguinte. Aquele jardim que você viu no seu sonho é o paraíso dos muçulmanos.
25. Quê!?
26. Olha, deixa isso pra lá. Visto que tens sido um servo obediente e segue todas as minhas orientações, e não te esqueces de me adorar, hoje, depois que você dormir, eu vou lhe fazer uma mulher para que você não esteja mais sozinho neste maravilhoso jardim que eu fiz.
27. Ta brincando, né? Jura?
28. Juro. Mas já vou te avisando que quando chegar à hora de comer a fruta que ela vai te dar, você não come não viu?
29. Aí o diabo da palavra de novo... comer.
30. Já te falei pra não mencionar este nome.
31. Comer?
32. Não, o outro.
33. Ah, diabo?
34. Não fala, não fala!
35. Epa, perdão senhor, mas espera aí, não vem com essa não. Como assim eu não vou poder comer a fruta que ela me der? Que sacanagem é essa? Vai dar a rapadura e tirar os dentes? Vem com essa não, veio!
36. Não, não. Não é nada disso não. To falando de outra coisa, de outra fruta. Está vendo aquela árvore lá longe? Ah mas deixa isso pra lá por enquanto, pois eu tenho que explicar isso pra vocês dois juntos. Anda, vai dormir, que quando acordar já terá uma mulher.
37. Oba! O senhor é um deus tão bonzinho pra mim! O senhor é o melhor deus que tem, com certeza! Vou fazer um cartaz bem grande para pregar na porta da minha tenda, escrito assim, ó: “Como Deus é bom”! Mas senhor será que eu não podia ganhar pelo menos umas quatro mulheres? Puxa vida, o tal do muçulmano lá tem setenta e duas, meu. É mulher a dar com o pau!
38. Andão, não ofendas o Senhor teu Deus!
39. Está bem senhor, está bem, não está mais aqui quem falou. Mas o senhor poderia me dar uma ajudinha pra eu dormir hoje? Logo hoje eu estou sem sono, e quero descansar bastante, pois eu tenho a impressão que amanhã à noite eu não vou pregar o olho.
E então Deus fez cair pesado sono sobre Andão e tirando dele uma costela (que ele escolheu por já estar quebrada, por causa dos chutes que ele havia aplicado no homem, quando este dormiu ao nomear os bichos), partida fez para ele uma mulher.
E DEUS CRIOU A MULHER
[No jardim. Deus, Andão e a Mulher].
Vê-se a mulher deitada, nua, bem perto de Andão, que contorna suas curvas com movimentos das mãos, porém sem a tocar, visivelmente extasiado com o que via.
Quando Andão acordou do sono que o senhor seu Deus o havia feito
Dormir e viu pela primeira vez, acordado, uma mulher de pertinho, de forma que a poderia tocar com suas mãos, e ao saber que Deus a havia feito de uma costela sua, não podendo conter a sua emoção, prostrou-se com os joelhos na terra e bradou:
1. Verdadeiramente tu és Deus entre os deuses e nenhum outro deus se iguala a ti em sabedoria, engenho e arte, pois fazer uma maravilha destas de uma costela e ainda por cima quebrada, Pelamordedeus veio, tu é largo mesmo, hem!?
Andão então, esticando o braço tocou pela primeira vez no corpo da mulher e viu que isso era muito bom.
1. Aí está Andão, a mulher que eu havia lhe prometido, para que ela seja tua companheira. Tu a chamarás EVASIVA, uma vez que jamais poderás determinar de fato o que ela realmente deseja, ou qual é verdadeiramente a sua vontade; e quando pareceres a ti que a agradas e faz justamente o que ela esperava que tu fizesses, perceberás que na realidade é o contrário do que imaginavas. E o que pensavas ser certo é o que era errado. Todavia mudando tu de atitude, e então te julgares tranqüilo e que enfim estás agradando a tua mulher por estar fazendo justamente o oposto do que antes fazias e não a agradavas; mais uma vez perceberás que estás errado, e que o que de fato ela desejava, era que não fizesses o que vinhas fazendo até então (o que a esta altura tu já não te lembrarás mais o que era), mas que fizesse aquilo que tu inocentemente julgavas estar praticando desde o princípio, mas segundo ela, tu não estavas e brigará com você e azucrinará sua cabeça, até que desejes que eu não a tivesse feito para ti, embora tu doravante não possa viver sem ela.
2. Puxa, mas que criatura complicada, né?
3. Andão e Evasiva, eis que vos coloco...
4. Senhor.
5. Eis que vos coloco diante deste...
6. Ôo, sennhoor!
7. Que é Andão, que droga, não pára de interromper!
8. Perdão senhor, mas é que se o senhor vai começar um sermão agora, será que não dá pra deixar pra outra hora não? É que eu tava afim de primeiro dar uma chegadinha com a Evasiva ali onde a relva é mais alta. Sabe como é, né? Não é de hoje que to na seca, só no cinco contra um, me entende? (gesticulando).
9. Cala a boca Andão. Não acabei ainda, e se tens ouvidos para ouvir ouça!
10. Ta, bom, ta bom...
11. Como eu ia dizendo, coloquei diante de vós este jardim, e de tudo que tem nele ou nele vive ou nasce vocês podem provar ou governar, porém...
12. Sempre tem um porém [Andão para si mesmo baixinho].
13. Porém, nunca, nunca comam dos frutos daquela árvore ali.
14. Qual? A macieira?
15. Sei lá o nome dela, aquela ali, ó, perto daquelas duas pequeninas e daquela pedra ali.
16. Ah, aquela ali com o tronco mais grosso e que todas as outras e que fica bem no meio do jardim?
17. É Andão, esta mesma. Pois dela não comereis, entendeu? Aliás dela não é bom nem que vocês se aproximem.
18. É uma bela árvore não é senhor?
19. Pois é, é bonita sim, mas vocês entenderam então não é? Dela não podem comer, viu? Podem comer de todas as outras, são donos de tudo que existe neste Jardim!
20. Depois do senhor, né?
21. Não, eu não quero jardim nenhum, fiz para vocês, eu não preciso de jardim. Vocês mandam em tudo por aqui, são donos de tudo!
22. Bem, menos daquela árvore, né? Dela não somos dono.
23. São donos dela também.
24. Mas se somos donos dela, porque não podemos comer do seu fruto?
25. Andão, isso é muito complicado pra te falar agora. Você não estava com pressa de ir lá pra relva alta com a Evasiva? Vai lá, vai!
26. Bem lembrado senhor! Podemos ir agora?
27. Se entenderem que não podem comer daquela árvore.
28. A macieira?
29. É, é aquela ali, mas que saco!
30. Credo, senhor [disse Evasiva] por acaso são os frutos dela venenosos?
31. Andão, disse Deus, deves instruir tua esposa que o homem é o senhor da mulher, e que esta lhe deve ser obediente, e que não lhe é permitido falar em público.
32. Escutou, né, Evasiva?
33. Mas não tem ninguém aqui a não ser nós três.
34. Você ouviu o homem, Evasiva, eu é que mando, deixa de conversa e vamos logo para a relva alta!
35. O que está dito, dito está, e lhes digo que nem uma vírgula mudará nestas palavras. Fiquem espertos e lembrem-se que o senhor teu Deus avisou pra não comerdes da árvore, pois se o fizeres, certamente morrerão! Morrerão viu?
E dizendo isso, afastou-se Deus dos olhos de Andão e Evasiva. Andão, então, piscando para Evasiva (da maneira que aprendera com as mulheres no sonho do paraíso muçulmano), e pegando a pela mão a conduziu em direção àquela parte do jardim onde a relva crescia bem mais alta e abundante. Houve tarde, noite, manhã, tarde de novo, outra vez noite, e mais uma tarde e ainda outra noite, e mais uma manhã, tarde e noite, e mais outro dia inteirinho com sua respectiva noite, e os dois ainda não haviam retornado do mato.
UM DIÁLOGO INÉDITO ENTRE EVASIVA E A SERPENTE
Tendo se passado estas coisas, estavam Andão e Evasiva de volta parte do jardim onde costumavam passar mais tempo, morando em sua tenda, e descansavam, pois Evasiva estava muito esgotada devido os muitos dias que Andão havia a ‘conhecido’ no local de relva alta, e parecia mesmo ter dificuldades para andar. Andão, por sua vez, tinha os olhos fundos e perdera muito de sua cor, empalidecendo como o leite das cabras. Alguns dias após ter se refeito do dia em que Andão a ‘conhecera’ tão bem e por tanto tempo, Evasiva por estar muito mais irritada por aqueles dias não podendo ver Andão na sua frente, pois enquanto ela cuidava da tenda e de todos os afazeres domésticos, Andão ficava à toa, ela resolveu dar um passeio pelo jardim para espairecer um pouco. Evasiva estando, então, cansada de sua caminhada, recostou-se sobre a relva à sombra da árvore proibida. Enquanto repousava olhou para cima e viu os frutos desta, e notou que eles eram verdadeiramente muito atraentes aos olhos e agradáveis ao olfato, mas não se atrevia tocá-los por se lembrar das recomendações de Deus.
Entrementes, o Diabo, que era muito astuto, e que fora transformada em serpente, sob esta forma saiu pelo buraco do alto do tronco da árvore, e vendo que Evasiva admirava os frutos, falou-lhe:
1. Não estás com fome mulher? Se forem tão belos a teus olhos e tão agradáveis às tuas narinas estes frutos, imagine como não serão apetitosos ao teu paladar?
2. Quem és tu? Uma cobra que fala?
3. Nem sempre fui cobra, em verdade vos digo.
4. Claro que não, pois um dia deve ter sido um ovo de cobra. Mas pra mim é cobra agora, e cobra feia!
5. Acaso entendes tu de cobras, mulher?
6. Pois já que perguntas, passei a entender algo nos últimos dias. Bem, pelo menos passei a entender de algo semelhante à cobra. [falou Evasiva com entoação e olhar maliciosos].
7. kA, kA, kA, kA! Vejo que tens espírito Evasiva, não é como aquele chato e mal humorado do teu senhor!
8. Conhece Andão, meu marido?
9. Que o que, não é do teu marido que eu falo, ele é um mero mordomo, refiro-me ao teu Deus.
10. É, realmente, se em algo, o senhor meu Deus teve muito mau gosto, foi em fazer uma criatura feiosa como você!
11. Alto lá! Não sou cria dele!
12. Tudo que existe foi criado por Ele!
13. Aí e que tu te enganas mulher. Se te interessa mesmo saber, nem tudo o que vês ao teu redor foi obra do seu Deus, mas afirmo-te que ele teve um ajudante nestas criações, na criação deste próprio jardim em que tu vives e em tudo que nele há.
14. Ajudante? Você mente cobra perversa!
15. Asseguro que te falo a verdade. Houve sim um criador adjunto. Mais precisamente falando, poderíamos dizer que o senhor teu Deus forneceu os meios, foi uma espécie de produtor, mas teve de contar com um talento criativo maior que o dele, digamos, um diretor de arte!
16. Se for verdade, me diga quem foi este?
17. Modéstia à parte, esta humilde cobra que vos fala.
18. Você?!? Ah, ah, ah... Era só o que faltava, mal pode andar com estas tuas perninhas minúsculas, é um animal quase rastejante, como poderia ser criador de algo?
19. Já te falei mulher que nem sempre fui cobra. E digo-lhe mais. Não só fui este outro criador, como também, se agora você e seu marido vivem, conversamos aqui neste jardim, e tu me insultas e “conhece” Andão, e ultimamente estás às voltas com coisa semelhante às cobras, é, antes de ninguém, a mim que tu o deves.
20. Conta outra minhocão. Vai dizer então que criastes Andão e a mim também?
21. Quase.
22. Como assim?
23. Deixa quieto, Evasiva, esta é uma longa história. Digamos que eu tornei possível com a minha ciência que seu marido fosse criado e depois dele você. Mas tu poderás saber de tudo nos mínimos detalhes se comer destes frutos aí desta árvore. Pois se o fizeres, os teus olhos se abrirão para todos os mistérios da natureza, e entenderás não só de coisas semelhantes às cobras, mas de qualquer outra coisa também; compreenderás o motivo por trás de tudo em qualquer situação. Saberás tudo da vida de todos os animas e de outras pessoas que virem a existir depois de vocês; e também saberá combinar as cores umas com as outras, entenderá de cortes de cabelos e do vestiário da moda quando vieres a usar roupas. Enfim, não haverá curiosidade que você não poderá satisfazer!
24. Jura? Nossa seria ótimo mesmo! [à parte: tudo nos mínimos detalhes].
25. Sim Evasiva, nos mínimos detalhes!
26. Nossa você ouviu sua danadinha, eu falei tão baixinho. Mas o senhor meu Deus disse que se nós comêssemos do fruto desta árvore aí nos iremos morrer.
27. Bobagem Evasiva, besteira da grossa, falácia teológica! Todos vão morrer um dia. Tudo tem o seu tempo, e um dia acabará por perecer. Até o senhor teu deus morrerá um dia!
28. Até ele?
29. Sim Evasiva, até ele. O tempo, mulher, é a única coisa imortal. Outros deuses já morreram. O tempo, só o tempo permanece e tudo ele modifica. O que hoje é mistério amanhã é ciência. O que é árvore, em milhões de anos, se tornará em pedra e as pedras se tornarão pó e vento. O tempo muda oceanos em desertos e transforma deuses em lendas!
30. Achas então que eu posso comer a fruta desta árvore sem nenhum risco?
31. Nada é sem risco, mulher. Tu podes morrer hoje engasgada com um grão de milho, mas deixará de se alimentar com eles por causa disso? Tudo é uma questão de custo-benefício. O que quer que te aconteças ao provar este fruto, e que certamente não é a morte, pois esta virá quer o prove ou não, será mínimo se comparada a tua independência à tua liberdade! Vamos lá pode provar, experimenta!
32. Evasiva então, apanhou um dos frutos e ele era tão agradável ao tato como era aos outros sentidos. Deu então uma grande mordida. E tão suculenta era a fruta que o seu néctar escorria-lhe pelos lábios. Evasiva o saboreava extasiada, enquanto ia limpando com a língua e com as costas da mão o suco que lhe descia da boca, e sua língua tinha movimentos libidinosos e ela sorria e seu olhar se tornara mais malicioso. Percebendo, então, que a serpente notava as suas atitudes, tentou disfarçar, dizendo:
33. Credo, não fica me encarando assim não, seu bicho feio. Estes teus chifrinhos aí são um horror, eles me dão calafrios.
34. Pois faço hoje uma previsão, mulher. As descendentes do teu sexo colocarão cornos idênticos a estes que vês em mim nos descendentes do sexo do teu marido.
35. Ah é? Puxa, mas então no futuro os homens serão bem mais feios!
36. Quanto à aparência dos homens deixo que tu descidas. Mas posso adiantar-lhe, no entanto, que as pontas serão invisíveis. Principalmente não saberão da sua existência os portadores dela. Embora, em alguns casos, estes saberão e apreciarão ostenta-las.
37. Misteriosas são estas palavras, quem as poderá entender? Mas dona cobra, achas então que Andão poderá ainda vir a portar chifres?
38. Senhor serpente, por favor.
39. Ah, ta, desculpes, és então uma cobra macho?
40. Muito macho!
41. Tudo bem então. Mas me responda o que perguntei. Acha possível Andão ainda vir a ter chifres?
42. Por enquanto não. Pelo menos não neste jardim, onde só tem vocês dois de humanos. Se bem que...
43. O que o que?
44. Nada não, só uma idéia que me ocorreu aqui, assim enquanto eu olhava pra você.
45. Ah que isso, fala aí vai. Conta-me o que você pensou.
46. Não, não, nada importante mesmo. Só pensei numa possibilidade aqui, mas... Não, acho que não... talvez se você fosse a Cleópatra...
47. Quem?
48. Ninguém. Deixa pra lá. O tempo urge Evasiva. Por hora é necessário que eu retorne para dentro da árvore. Vai ter com o teu marido e dá-lhe para comer deste fruto, para que o encanto seja completo e vocês dois possam saber tudo sobre todas as coisas. Tem que fazer isso viu? Esqueci de lhe dizer que se ele também não comer você não adquire os poderes.
49. Humm, isso não estava nos meus planos, porque não me avisou. Mas tudo bem, se é necessário eu o faço comer também.
50. Boa menina. Bem vou nessa Evasiva, até mais.
E dizendo isso a serpente se esgueirou para dentro da árvore, enquanto Evasiva correu ao encontro de Andão para lhe contar o que lhe havia sucedido e dar lhe o fruto para comer.
Evasiva está de volta à parte do jardim onde ela e Andão moram. Andão está cuidando de umas plantinhas nuns canteiros. Ao ver Andão, Evasiva correu até ele chamando e dizendo:
1. Andão, Andão meu marido, tenho algo para lhe contar!
2. Xii, lá vem merda.
3. Sabe aquela árvore que o senhor nosso Deus disse para que dela nós não comêssemos os frutos?
4. A macieira?
5. Sei lá, só Deus sabe, aquela que ele mostrou pra gente e disse “desta árvore não comerás” [imitando voz grave e sobrancelhas arqueadas pra demonstrar autoridade].
6. Ele não sabe também não, não lembra? Até me xingou por causa disso. Mas o que tem a árvore?
7. Ah, se eu contar você vai brigar comigo.
8. Eta, fala logo mulher!
9. Promete que não te zangas? Eu não quero brigar hoje que é dia de “nhânhá”! [dizia piscando para Andão e o beliscando].
10. Ai, ai! Ta bom eu prometo, mas fala logo!
11. Eu comi.
12. Comeu o que?
13. Ora, a fruta daquela árvore lá.
14. Pôrra, Evasiva, eu não acredito que fez isso, mas que merda! E agora, o que é que eu vou falar pro velho?! O barbudo vai acabar com a nossa raça! Você é mesmo uma criatura muito irresponsável!
15. Talvez ele não descubra meu bem.
16. Meu bem o cacete! Como não descobre? O homem é Deus, você esqueceu deste detalhe?
17. Ah, mas ele vive esquecendo tudo, não sabia o nome da árvore, e sempre ta aí procurando a gente; “Andão, onde estas?” “o que é feito de ti e de tua mulher”? “Evasiva, onde estás, o que é feito de Andão, teu esposo”?
18. Lá isso é verdade. Mas não interessa. O fato é que você não devia ter comido, ele vai acabar descobrindo. Porque você foi fazer uma coisa destas? Você foi muito teimosa.
19. Mas não foi culpa minha meu bem.
20. Que meu bem, que meu bem, foi culpa de quem então? Suponho que tenha sido minha não é, como sempre você diz!
21. Não, não, foi culpa da serpente.
22. Mas que serpente mulher, do que você está falando agora?
23. Aquela serpente que mora dentro do tronco daquela árvore lá. Você nunca a viu? Ela falou pra eu comer, então eu comi.
24. Facinho assim, né? O ‘Senhor’ teu Deus diz: “não comas”; aí aparece uma cobra, que você nunca viu, fala pra você comer e você vai lá e manda a fruta pro bucho sem pensar duas vezes.
25. Não foi bem assim não. Eu não queria comer, não cedi logo, foi a cobra que me seduziu com a sua conversa mansa.
26. Seduziu-te? Uma cobra?!?
27. É, caso não tenha reparado ainda, eu tenho uma quedinha por cobras, culpa sua seu danadinho [disse,beliscando os pelos pubianos de Andão].
28. Ai, ai, isso dói Evasiva, que saco!
29. Mas é verdade Andão. A cobra me convenceu. Ou melhor, o Sr. Cobra, pois ele é macho, disse que umas coisas que tem aqui no Éden foi ele que ajudou criar. Falou que muita coisa não foi o nosso Deus que fez não, que foi ele. Disse que fez muitas criaturas e que devemos a ele estarmos aqui hoje, e que se eu comesse e também desse uma fruta pra você comer, os nossos olhos se abririam e saberíamos de tudo o que aconteceu de verdade, antes de nós existirmos e que também conheceríamos a explicação para todas as coisas ou perguntas que tenhamos agora, ou que venhamos a ter no futuro.
30. Trouxe uma aí?
31. Ta aqui, ó!
32. Passa pra cá.
Então Andão, pegando a fruta da mão de Evasiva cravou lhe os dentes com gosto e seus olhos se abriram mais, e então, ficando com uma visão mais aguçada e podendo discernir melhor o que via, entendendo a dimensão das coisas a sua volta, olhando para Evasiva diante dele e notando ainda melhor do que antes a nudez dela, disse: Ta loco meu! Mas você é gostosa mesmo, hem? Evasiva, então, toda cheia de si, fazia trejeitos que demonstravam sua satisfação com este elogio, deixando evidente que passara, após a ingestão da fruta, a se orgulhar e se envaidecer mais de seus atributos físicos.
Entrementes, Deus se aproximou, saindo de trás de algumas folhagens e perguntou:
1. Andão, Evasiva, onde estão vocês?
2. “Aqui”! –responderam simultaneamente, [Demonstrando enfado na voz].
3. Por qual motivo escondem-se e fogem da minha presença?
4. Aí, ai, ai. Mas que mania, senhor! Quem é que está se escondendo? Acaso temos culpa se andas ficando míope?
5. Mas o que fazias Andão, ainda há pouco?
6. Estava apanhando umas folhas aqui, pois estou pensando em fazer algum tipo de vestimenta para nos cobrir. Mas se o senhor mesmo quiser providenciar isso pra nós, eu agradeço.
7. Mas porque queres cobrir a ti e a tua mulher?
8. Cara olha só. To achando meio esquisito isso de ficar com as “partes” balançando por aí, sabe? Acho meio arriscado, ainda mais agora que eu tenho uma mulher. Não quero ganhar asas e ter os pés atados ao chão. Vai que acontece um acidente, ou algum animal dá uma mordida aí enquanto durmo, aí, “inhac”. Já era [fazendo gesto com a mão indicando a amputação da genitália]. Mas, além disso, estou também preocupado é com a Evasiva. Mesmo sendo o único macho da nossa espécie por aqui, não to a fim de deixar este mulherão, que é minha esposa, dando sopa por aí não. Aqui ó. Não confio nem um pouco naqueles bichos peludos um tanto parecidos com a gente que o senhor fez. Eles parecem ser bem sem vergonhas. Porque o senhor foi fazer aqueles trecos?
9. Não fui eu que os fiz.
10. O que?!?
11. Hã, hã, quero dizer, eles foram umas experiências que não deram certo. Mas espere aí Andão, não desconversa não. Como passastes a reparar tanto na sua nudez e na nudez da tua mulher? Acaso comestes do fruto da árvore da qual eu havia lhes ordenado que não comessem?
12. O senhor já sabe né? Então porque pergunta?
13. Para seguir o roteiro. Comestes ou não?
14. Ta, comi, vai. Mas foi a mulher que me destes para companheira que me deu o fruto.
15. Dedo-duro! Papelão hem? Vai ficar conhecido como o primeiro dedo-duro da história da humanidade, que coisa feia em Andão!
16. Calados os dois!
17. É, mas a culpa não foi minha não. A culpa é daquela serpente que mora lá no tronco daquela árvore.
18. O que!? Ele saiu?
19. ?
20. ?
21. Quero dizer hã, hã, que serpente?
22. Bem, Senhor, caso o não saiba [piscando para Andão e cutucando o com o cotovelo], lá dentro do tronco daquela árvore que o senhor nos mostrou, dizendo: “desta árvore não comereis” [novamente imitando voz grave e com sobrancelhas arqueadas, para parecer autoritário], mora uma cobra muito astuta!
23. Desgraça!!
24. Nossa, relaxa Javé, porque blasfemas? O bicho não é tão perigoso assim falou Evasiva.
JAVÉ DÁ CARTÃO VERMELHO
E gritou então o senhor Deus de Andão e Evasiva, com os olhos esbugalhados e o semblante transfigurado pelo ódio, apontando a quase enfiar-lhes o dedo nas caras.
1. Visto que foram desobedientes e contrariaram a minha vontade, Comendo da fruta que eu lhes havia dito que não comessem, estão agora expulsos deste maravilhoso jardim e a ele não mais poderão retornar até que seja expiado o vosso pecado.
2. ?
3. Por causa de duas frutinhas?!
4. Olha senhor [disse Evasiva] não era isso o combinado não. O senhor tinha dito que se comêssemos a fruta nós morreríamos, mas estamos vivinhos aqui. Isso é despeito porque sobrevivemos à ingestão da fruta. O senhor não tinha dito nada sobre despejo.
5. Cale a boca!! Andão faça sua mulher ficar quieta, eu já não te disse que ela não pode falar em público?!! Tu mulher, por ter te deixado tentar e comido do fruto, farei que sofras muito na gravidez, e entre dores terríveis dará à luz os teus filhos! E tem mais. A paixão vai arrastar você para o seu marido, e querendo por qualquer preço arranjar casamento, suas descendentes farão as coisas mais absurdas a fim de conseguir isso!
6. Mas que que tem isso haver? Este negócio de dor na gravidez? Pega leve, Javé, dá um castigo coerente com o delito [desafiava Evasiva].
7. E tu, Andão [continuou ignorando Evasiva], por ter dado ouvidos à conversa fiada da tua mulher, verás que maldita será a terra por tua causa. Enquanto viver se alimentará dela e ela produzirá espinhos e ervas daninhas. Você comerá a erva do campo e com o suor do seu rosto ganharás o teu pão!
8. O que quer dizer isso precisamente, senhor?
9. Que terás de trabalhar, Andão, terás de trabalhar!
10. Não, não! Isso não meu senhor, por favor, por amor de ti mesmo, me dá outro castigo, arranca-me uma perna se desejares, mas trabalhar não, por misericórdia!
11. Não tem refresco não! Não gostaste de comer a fruta? Agora trabalharás sim. Cinco dias da semana, e desde já, para que a expiação do teu pecado seja mais fácil, eu instituo a “Segunda-feira-brava”, que lhe será pesada aos teus ombros, causando-lhe apatia psicológica e profunda melancolia toda vez que chegares a sua véspera, por te lembrar que deverás madrugar no dia seguinte e trabalhar, e isso ordeno para todas as semanas, para sempre, até o final dos tempos!
12. Eta frutinha cara viu.
E virando as costas para Andão e Evasiva, Deus apontou o portão de saída do jardim, e afastou-se deles, entrando outra vez nas folhagens de onde havia saído.
Os dois então saíram pelo portão do Éden, no qual mais tarde Deus colocaria um anjo com uma espada para não permitir que entrassem novamente. Ao passarem pelo portão, Andão olhou para Evasiva balançando a cabeça em sinal de reprovação e lhe disse:
1. Você me mete em cada uma, hem?
2. Ah, não esquenta não amor. Até que enfim vamos fazer uma viagenzinha, você nunca me levou a lugar nenhum mesmo. Minha vida neste jardim aí era cozinhar, limpar e lavar as tigelas de barro.
3. Ora cala esta boca, já não basta o prejuízo que nos causastes?
4. Eu to achando bem legal! Não agüentava mais este tal de Éden aí, que lugar chato, viu!
E dizendo isso, já ia tomando o rumo oeste, Mas Andão travou-lhe de um pulso e com um puxão forte a fez mudar de direção, tomando o caminho do Leste, dizendo:
1. Mas não é possível, já não basta toda a confusão que causastes?
2. Garanto que por este caminho aí só deve ter porcaria. Além disso, você ouviu o barbudo aquele dia não foi? Eu é que mando, sou o teu senhor e deves me obedecer!
3. Ah coitado! [falou baixinho Evasiva, para consigo].
O MONÓLOGO DE ANDÃO
[Campo. Andão trabalhando com a enxada].
Muito estranho realmente. Muito esquisito. Aquela cobra é mesmo
uma mentirosa; ainda será conhecida como o pai da mentira, pois o único benefício que a ingestão daquela fruta trouxe foi a não aceitação das coisas sem questionamento. Mas será isso um benefício mesmo? Esta mania de pensar que herdei pela ingestão de uma fruta tem me trazido muitos aborrecimentos e estou mesmo inclinado a achar que a felicidade deve estar mesmo é na ignorância. A gente não pára de se encasquetar com tudo, de tentar descobrir a razão das coisas. Isso dá até dor de cabeça. Passei o dia todo trabalhando aqui na roça e estas dúvidas ficam martelando na minha cabeça. Recordando agora do tempo que estava lá no jardim com Deus, antes mesmo dele criar Evasiva, percebo agora que Ele me disse muita coisa contraditória. Por exemplo: afiançava-me Ele que fizera surgir a luz assim que criou os céus e a terra, logo depois de tê-los feito. Mas também me disse que só fez o sol algum tempo depois. Ora, sinceramente, eu não vi outra luz lá que não fosse à do sol, a não ser a da lua de noite, em noite de lua cheia, mas esta não conta, pois ela foi feita junto com o sol, segundo me disse Deus. Outra dificuldade que encontro ao pensar nestas coisas é sobre o que Ele me disse da relva. Ele falou que a fez para servir de alimento aos primeiros animais que criou, mas ao mesmo tempo, disse-me que antes de me criar e de eu cultivar o solo não havia brotado nenhuma relva no campo e que também não tinha chovido ainda. Outra coisa de difícil compreensão é o fato de que Ele disse que depois que fez chover e a relva nasceu (embora já tivesse sido criada antes de chover para alimentar os bichos), ao me criar, Ele teria me colocado no meio do jardim para que eu o guardasse e o cultivasse. Pois o que não entra na minha cachola é que, se eu já cultivava o jardim antes de comer a fruta proibida, porque que Deus me deu como castigo fazer algo que eu já fazia. Algo que já era minha atividade normal? Realmente isso tudo é muito estranho. Fico imaginando o que Ele terá feito ou irá fazer com aquela cobra mentirosa quando a encontrar. Pode tê-la castigado, quem sabe, arrancando as perninhas minúsculas que Evasiva me disse que ela tem, ou tinha, ih, ih, ih. Aí ia fazê-la rastejar pra sempre, ih, ih, ih e ainda comendo pó a vida inteira. E como ele gosta de fazer as coisas bem estendidas deve ter castigado toda a descendência das cobras até o final dos tempos! Não, não, mas espera aí. Isto não pode ser. Não teria o menor sentido e seria mais uma contradição do senhor Javé. Apesar de que em matéria de contradições ele não faz economias. Mas vejamos: Ele me disse que havia criado répteis e animais que rastejam sobre a superfície da terra, então não poderia fazer do fato de rastejar um castigo para punir a cobra, e a descendência dela, pois se isso for um castigo, porque ele infligiria isto a animais inocentes recém criados? Não seria justo, como ele sempre diz que gosta de ser. Mas pensando bem, isto não seria muito ou nada diferente do que ele fez comigo que estou sendo castigado com algo que eu já fazia antes de comer a fruta proibida. Ah, mas espera aí. Tem o pó que as serpentes então seriam obrigadas a comer até o fim dos seus dias! Hum, mas e as cobras que só vivem na água? Até onde posso imaginar me parece que na água não pode ter pó, ou pode? Bem, se a luz pôde conviver com as trevas antes de ser feita a separação delas, e se Deus mesmo já disse que Luz e trevas não podem existir juntas, então talvez exista pó que pode coexistir com a água! Ah, quer saber? Sei lá, deixa isso tudo pra lá [largando a enxada]. Já está escurecendo; deixa-me dar um jeito de voltar para casa que a esta altura Evasiva já deve estar de banhinho tomadinho e cheirosinha me esperando!
Retornando então para sua casa, Andão, ao entrar, viu que realmente tudo se passava como ele havia imaginado. Evasiva o aguardava nuazinha em pêlo deitada em na esteira de casal. Vendo aquela imagem maravilhosa, Andão se lavou rapidinho dos suores que trazia do seu dia de trabalho e pulando na esteira ao lado da sua mulher dizia: “Ih, ih, ih uma coisa destas cala qualquer filosofia! Adeus metafísica vamos à física!”.
Coabitou então Andão com sua mulher e ela concebeu, e no devido tempo deu à luz a um filho varão que foi chamado de CAINDO [pois que ele caía de cansaço de tanto lavrar o solo como o seu pai]. E novamente engravidou e lhe nasceu outro filho varão ao qual deram o nome de ABELHUDO [pois que este vivia dando palpite em tudo].
O DIÁLOGO ENTRE CAINDO E ABELHUDO
Caindo e Abelhudo no campo. Caindo Trabalhando o solo com a enxada e Abelhudo sentado perto dele, recostado em uma árvore, com um raminho de capim na boca, observando umas ovelhas que estão pastando a alguma distância dali.
1. Caindo!
2. O que é?
3. Já reparou que o seu trabalho é bem mais penoso do que o meu?
4. Já.
5. Acho que nosso pai, Andão, se agrada mais de mim do que de ti.
6. Humm, e daí?
7. Ah, sei lá, sabe, é bom ser o predileto, dá uma sensação gostosa. Você não gostaria de ser o predileto só por um dia, ou por, digamos, uma semana? Que tal!?
8. Não me interessa.
9. Também eu não ia deixar! Ih, ih, ih, seu idiota. E olha lá viu, vê se capina direitinho aí, e é bom que esta plantação de bons frutos, bons legumes e verduras, para que eu tenha bastante comida boa e variada lá em casa, você sabe que a mamãe gosta que eu me alimente muito bem, e uma alimentação balanceada é bom pra minha pele [examinando os braços virando-os de um lado para o outro], não quero que ela fique ressecada.
De vez em quando Abelhudo se levantava e chamava alguma ovelhinha, que estava se desviando do bando, para fazê-la retornar para perto das outras.
10. Psiu, psiu, amorzinha, não, não, volta pra lá, volta já! Aí, aí, estou pensando em pedir pra alguém treinar um cachorro pra me ajudar a pastorear estas ovelhas, isso é tão cansativo, tão trabalhoso! [dizia bocejando e espreguiçando].
11. É faça isso.
12. Caindo!
13. O que é agora Abelhudo? [perguntava seu irmão, limpando o rapidamente o suor que lhe escorria pelas faces, para logo em seguida retornar ao trabalho em ritmo acelerado].
14. Você se lembra daquelas nossas oferendas que fizemos um dia destes para o Deus de nossos pais? Aquele deus que ele nos ensina a adorar, respeitar e amar, sem ao menos o conhecermos, para que Ele não se desagrade de nós, e, então, possamos um dia ir morar lá naquele paraíso que ele nos disse que este deus o expulsou de lá por culpa da mamãe?
15. Sei, sei. Mas escuta uma coisa, Abelhudo. Você não quer ir ali brincar com as suas ovelhinhas, não hem? Vai lá, vai!
16. Daqui a pouco eu vou, espera aí. Mas como eu ia dizendo Caindo, eu soube pelo papai que pelo que ele conhece do Deus dele, Ele nem deu bola para aquela tua ofertazinha mixuruca de “ortifrutis”, pois do que ele gosta mesmo e de carne! Então, maninho, mais uma vez eu me dei bem, porque eu sacrifiquei pra ele um cordeirinho novinho e tenro! E você, como sempre, se deu mal. Você não acerta uma mesmo, hem? Ih, ih, ih, ih, ih!
E continuando a gargalhar de maneira insolente, levantou-se virando as costas para o irmão para se retirar da sua presença. Caindo, então, não podendo mais suportar, perdeu o controle e gritou:
17. Ah é? Não acerto uma, né?! Que tal esta!
E antes que Abelhudo pudesse se virar, Caindo deu lhe uma enxadada com todas as forças que pode ajuntar, e o matou.
A GRANDE NARRAÇÃO
Aqui seria o fim de toda a história dos homens na face da terra, pois depois que Caindo mata seu irmão Abelhudo, ele tem uma alucinação onde Deus fala com ele e o amaldiçoa. Logo após isto ele parte e vai habitar em outras terras. A continuação do drama humano fica comprometida, uma vez que Andão e Evasiva tiveram dois filhos, a saber: Caindo e Abelhudo. Eram, pois em número de quatro os habitantes humanos da terra. Eis que Caindo vai e me mata o irmão, diminuindo drasticamente este número para três indivíduos apenas. Vejamos quais seriam os prognósticos para o povoamento da terra com este número limitado de seres humanos.
Imaginemos por um momento que Caindo não abandonasse a sua terra natal, mas antes, permanecesse junto aos seus progenitores. Se Andão e Evasiva tivessem procriado mais e lhe nascessem crianças do sexo feminino, Caindo poderia unir-se a elas (o que seria totalmente justificável dado à escassez de mulheres). Ele também poderia morrer virgem e seus próprios pais continuariam sozinhos a povoar o planeta. Embora para Andão, que já ia avançado em anos, isso poderia ser um tanto penoso, não se pode afirmar que fosse impossível por desconhecermos as condições fisiológicas de exemplares tão primitivos de nossa raça. Mais remota é a possibilidade de Caindo copular com a sua própria mãe, o que parece um horror incestuoso para os padrões divinos, ou para a moral humana pura e simples (embora mais para frente nesta história da humanidade, se observará filhas fazendo sexo com o próprio pai, que era homem com status de santo). Mas felizmente nada disso se verificou aqui no início dos tempos. O que aconteceu mesmo foi que Caindo foi pra outras bandas após matar o seu impertinente irmãozinho. E é aí que ocorre algo surpreendentemente inesperado! Caindo se casa! E pasmem: com uma mulher! Uma mulher que aparece por aquelas paragens pra onde ele fora morar. De onde ela vem, quem é, ou filha de quem é esta misteriosa mulher? Como, e de onde surgiu a senhora Caindo? Eis aí uma questão homérica, um desafio intransponível ao intelecto humano. Posto que o enigma não pareça ser de fácil solução, ocupemos-nos de outros detalhes, e deixemos de questionar estes argumentos com uma possível lógica intrínseca somente ensinada em livros antigos e sagrados. Caindo casa-se, pois, com a senhora X, copula com ela (ou co-habita, ou a conhece) e ela tem um filho homem que é denominado INHOQUE, o qual por sua vez gera (sem mulher ou com a própria mãe), outro filho, homem, que por sua vez gera outro homem, e que , adivinhem, gera outro indivíduo do sexo masculino! Bem, é claro que naqueles tempos machistas nem se preocupavam em registrar os nascimentos das meninas, mas o mínimo que isso acarreta é que as pessoas eram todas umas incestuosas e viviam numa suruba danada: irmão com irmã, filha com pai, tio com sobrinha etc. Nada demais se não estivéssemos falando do livro santo que ensina que estas coisas são erradas, ou, pelo menos, o ensina os seus interpretes mais autorizados. Mas deixemos de lado as questões morais e sigamos um pouco mais a genealogia. Aí acontece o impensável, nasce um homem, (não, não o impensável não é o fato de nascer uma criança do sexo masculino, pois vimos que isso acontecia em 100% dos casos), nasce um homem que toma para si duas mulheres! Exatamente. Ignorando todas as normas de etiqueta e de camaradagem para com os seus companheiros, este homem, não se sensibilizando com a falta de mulher na área, tem o descaramento de tomar para si duas mulheres! Isso mesmo, ele pega para ele duas mulheres novinhas em folha (não perguntem de onde elas vieram). Uma delas dá à luz nada mais nada menos do que ao primeiro tocador de flauta e a outra ao primeiro que sabia forjar o bronze! Dos quais é dito que foram, respectivamente, os antepassados de todos que vieram a tocar flautas ou a forjar o bronze, o que, certamente não é desnecessário informarem, já que, seguramente, estas profissões devem ser, ou pelo menos terem sido as mais importantes do mundo, já que não se relata em livro de tal envergadura, quais foram os antepassados, por exemplo, do bancário, do taxista, do engraxate ou da secretária de consultório médico. Que coisa extraordinária!
Mas eis que Andão, demonstrando que ele também é extraordinário, mais uma vez, “chega junto” e Evasiva concebe novamente, e desta vez gera, SETE! Não sete filhos de uma só vez, mas um menino ao qual dão o nome de sete, não sete nomes diferentes, mas o menino é que foi denominado SETE. Evasiva fica muito feliz quando o garoto nasce e diz:
1. Andão, Deus me deu outro filho,
2. Para colocar no lugar de Abelhudo, que Caindo matou!
3. Homem ou mulher?
4. Homem.
5. Xi, ta difícil de encarar esta tarefa de levar a humanidade pra frente sozinho.
E Sete também gera um filho (sabe lá Deus com que mulher), mas na melhor das hipóteses, com alguma irmã sua (não catalogada). Todavia, Andão ainda "deu no couro" por bastante tempo e nasceram-lhe muitos filhos e (pasmem) filhas! E esta lengalenga deve ter continuado por aí: quando um irmão via uma irmã era Pimba! Não tinha erro. Mas o que fazer contra a luta imperiosa da natureza pela sobrevivência da espécie? E assim foram se arranjando até que...
A BÍBLIA DEMON’S [TRADA]
Versão do Diretor
"O Diabo tem pelo menos uma desculpa. A de que só ouvimos um lado da história, afinal Deus escreveu todos os livros".
Samuel Butler
PRÓLOGO NO ÉDEN
Jardim: relva, flores, água corrente e alguns animais.
Em um dia em que o sol era ameno e nenhuma nuvem pairava sobre o abismo, Deus está recostado sem nada prá fazer. Entra o Diabo visivelmente alegre e animado.
Aproxima-se de Deus e a ele se dirige nestes termos:
— Achei!
— Que há contigo cramulhão? Porque tanta euforia, sua besta?
— Sim eu estou eufórico, radiante, e, sinceramente emocionado, pois nessas nossas experiências de criação de inúmeras coisas e de seres animados e inanimados, como estes que estamos criando por este Éden a fora, temos definitivamente descoberto inúmeras novidades, e a cada dia é uma nova aventura a tentativa de fazer aparecer por aqui algumas espécies mais interessantes que as que trouxemos à existência anteriormente, é realmente extraordinário podermos inventar animais que voam, que mergulham na água, plantas comestíveis e ornamentais. Devo mesmo lhe confessar que até ontem eu estava perturbado e com o zelo se apoderando de mim desde que vi aqueles lagartos gigantes que criastes, pois eles são realmente fascinantes! Mas... 'cesse tudo que a antiga musa canta', mestre e amigo, pois nada se compara ao que descobri hoje!
— Ai... ai..ai...ai, Canhoto, você não tem conserto mesmo, hem? Vive me enfadando, não seja tão prolixo, vamos, vê se não enche o meu saco e desembucha logo, antes que eu...
— Está bem, mas tem que me prometer que vai me dar uma parte nos créditos nesta história toda, está bem?
— Está bem, está bem, eu prometo tudo o que você quiser, Nossa-Mãe-de- Deus, esta conversa está mais tediosa do que quando não tínhamos nem esta terra aqui e ficávamos sentados no nada fazendo coisa nenhuma, fala logo Coisa-Ruim!
— Lá vai prepare-se. Eu sei agora, através de muitos cálculos e experimentos variados, que podemos criar sabe o quê?...Sabe o quê? Aposto que não adivinhas nem com sua mente divina!
— O que, Cão?!
— Podemos criar seres como nós! Seres à nossa imagem e à nossa semelhança! À nossa imagem e semelhança, trá, lá, lá, rá, lá! Pensa que estás sonhando? Quer que eu o belisque?
— Ahhh, vá-de-retro!
— Juro por ti e por mim!
— Ta bom. Suponhamos que fosse possível, que fosse verdade. De que nos serviriam tais criaturas? Seriam por acaso... uhummm... Deixe-me ver... nossos escravos?
— Cruz Credo! Mas será o benedictus? Vai me desculpar a franqueza viu Javé, mas tu és um megalomaníaco mesmo, ou sei lá o que! Mas qual escravos qual nada!
— Pois então aí está. Não vejo utilidade em suas intenções.
— Deus... deus...deus....pense um pouco. Use só um pouquinho "assim" da sua onisciência. Não vê como pode ser legal? Não percebe que nós já não estaríamos mais tão solitários neste imenso e magnífico jardim? Os animais são até divertidos e as plantas agradáveis aos olhos e às narinas, mas acaba cansando ficar olhando prá eles, fica só nisso. Passarinhos fazendo ninhos, leões comendo gazelas, formigas cortando folhas e carregando, ah... parece até um documentário eterno. Não acha isso tudo um pouco chato não?
— Quer saber? Não acho não. Acho que os incomodados é que devem se mudar. Eu to achando muito bonito tudo isso aqui.
— É, mas que de vez em quando o amigo aí pisa num monte de bosta de um destes bichos aí e sai soltando raio prá tudo quanto é lado, isso sai porque eu já vi!
— Puxa, mas que merda! Com todos os diabos, não tem nada prá fazer além de me encher?
— Perdão, perdão meu caro, não me leve a mal não, é que eu tenho muitas idéias boas, e acho que se você pensasse um pouquinho, veria que existem inúmeras vantagens no que estou propondo, pois nós poderíamos inventar jogos, organizar festas, conversar até altas horas...
— Ora, ora, já basta destas tolices, desapareça da minha frente Satanás!
—!?
—Você é mesmo uma besta inconseqüente, não percebe que se fizéssemos isso, se é que é possível, e eu não estou dizendo que é, não imaginou que estas novas criaturas poderiam se tornar ambiciosas por se parecerem conosco e depois querer nos espionar para descobrir como criar coisas do nada, hã, hã!?
— Mas Javé, compadre, eu jamais pensei que precisaríamos ocultar-lhes estes poderes. O universo é infinito, e criar 'do nada' não gasta matéria-prima. Que mal existe então que qualquer um possa criar uns patos aqui e uns cangurus acolá?
— Aí, ai, ai, ai, ai!
— Veja, vou lhe explicar o procedimento: pegamos uma forma que deve medir três côvados de comprimento por um côvado e meio de largura de ombro a ombro, e ainda zero oitenta côvados de profundidade. Besuntamos a forma com azeite para que a massa não grude no fundo, derramamos então dentro dela argila úmida e pastosa com um pouco de palha de mistura para dar liga e...
— Não estou ouvindo, não estou ouvindo, não estou ouvindo! [dizia Deus tapando os ouvidos].
— E eu ainda não falei o melhor! Depois que estes primeiros exemplares estivessem prontos, tenho quase certeza que se tomarmos uma parte deles podemos fazer outros de um tipo diferente, sabe? Algo com mais beleza, com formas mais arredondadas, mais agradáveis ao tato que a argila e que cheire melhor também que a lama. Com certeza cheirará melhor que nós mesmos. O amigo aí cheira uma coisa esquisita que é uma mistura de cera de vela, incenso e carne queimada. Quanto a mim, mal consigo agüentar este fedor de enxofre que sai das minhas axilas... arrgh [dizia cheirando as axilas].
— Olha, já basta. Estou cansado deste assunto. Não aprovo suas idéias, não quero mais ouvir nada sobre isso. Vou dormir.
Então o pobre Diabo, um tanto quanto chateado, calou-se.
Os dois seguiram cada um para um lado do jardim e foram dormir em tendas separadas.
Houve tarde, manhã e noite daquele dia.
Deus, todavia, não pegou logo no sono, pois trazia os seus pensamentos turvados pela sombra do medo de perder a autoridade que impunha sobre todas as coisas. Seu cenho se perturbou de forma severa e amedrontadora. Levantou-se então sorrateiramente, armou-se com um porrete enorme, e de maneira furtiva penetrou na tenda do Diabo enquanto este dormia a sono solto. Deitou-lhe então duas porretadas na cabeça, que o fizeram perder totalmente os sentidos e ainda lhe criaram para sempre dois galos pontiagudos na testa. Arrastou então a sua vítima para o jardim, onde depois de transformá-lo em serpente, depositou-o dentro do galho mais grosso da mais grossa árvore que pôde encontrar, fechando o tronco pelo lado de fora, não a sete, mas a setenta vezes sete chaves. Porém, na pressa de não ser apanhado por alguma criatura sua em atitudes pouco ortodoxas, não reparou em um pequeno orifício no alto do caule da árvore, por onde o Diabo viria a escapar mais tarde.
Considerou Deus, no entanto, que a idéia do Diabo não era de todo má, desde que redundasse em benefícios para si, e apoderando-se das minuciosas fórmulas que o Diabo havia anotado, daria início mais tarde, ele mesmo, sozinho e "poderosamente", à criação de um povo inteiro de indivíduos semelhantes aos que o Diabo lhe havia descrito, para que este povo o servisse por toda a eternidade.
Fim do Prólogo no Éden
Livro Primeiro
ORIGENS
[Para oeste, norte, sul e leste ele andava]
Mesmo local. Não se vê a árvore. Um homem anda de um lado para o outro visivelmente entediado.
Não obstante estes eventos anteriores, já agora havia um ser semelhante àquele que o prisioneiro da árvore havia imaginado. Tudo havia corrido exatamente como o previsto por ele em seus cálculos, e, o, agora, senhor exclusivo do universo, conseguiu fazer uma criatura semelhante a ele mesmo e prometeu para este Ser, que logo lhe faria, de uma parte retirada do corpo dele (a criatura), uma daquelas outras mais arredondadas, mais cheirosas e mais macias como o prisioneiro da árvore admitia ser possível. O primeiro Ser criado a partir das fórmulas do “outro”, não tinha rigorosamente nada o que fazer e por isso ficava andando ocioso por todos os lados. Por este motivo havia recebido do seu senhor o nome de ANDÃO. O senhor então, cansado da falta do que fazer de Andão teve uma idéia.
1. Andão, onde estás? Andão!? Ô Andãaao!!
2. Estou aqui senhor. Mas tu já não o devias saber, uma vez que és onisciente?
3. Nada de críticas hoje Andão. O fato é que encontrei um ótimo passatempo para você.
4. Ah Ráh, vai finalmente fazer pra mim aquela criatura?
5. Mulher, Andão, o nome que daremos é mulher, já te disse. Não, não, mas ainda não.
6. Mas não é possível!
7. Tem tempo para isso Andão.
8. Disso não há a menor dúvida, pois não vivemos em uma eternidade?
9. Então, por isso mesmo achei por bem dar lhe uma atividade antes que se transforme em funcionário público.
10. O que é então? Revele-me senhor qual é este passatempo que se te agradar eu o farei.
11. Bem é o seguinte. Eu pensei cá comigo, que você poderia se sentar ali embaixo daquelas árvores e enquanto eu que sou o Eu Sou, faço desfilar diante de ti, que é o Não É, todos os outros seres vivos de todas as outras espécies para que você os vá nomeando, criando nomes para cada um deles, não é legal?!
12. Oh, Burro!
13. Boa, Andão! Está se referindo àquele animal orelhudo que está pastando ali, né? Vejo que tem talento para a coisa!
14. ?
15. Bem, então vamos começar. Eu darei a ordem para que se inicie o desfile e você fica ali sentado colocando os nomes nos bichos.
16. Mas, meu Deus...
17. Não tem mais meu Deus nem meio Deus, vamos, anda logo Andão, isso é uma ordem!
18. Mas senhor, uma dúvida paira sobre o meu semblante.
19. Ta, o que é agora?
20. Todos os animais da terra virão até aqui para que eu lhes dê um nome?
21. Pois não é isso mesmo que eu estou dizendo, lerdeza!
22. Mas senhor, o senhor não acha que alguns poderão levar muitos anos para chegar aqui? E que outros talvez nem mesmo consigam vir devido às águas dos oceanos? Ou por acaso estamos na época da Pangéia?
23. Sei lá o que é isso que está dizendo? Ora vamos ao que interessa.
24. E os animais aquáticos, senhor, vou mergulhar para dar nomes a eles, ou eles evoluirão para respiração pulmonar?
25. Não me fale em evolução, Andão! Eu já te disse que não tolero este assunto!!
26. Tudo bem, tudo bem, me perdoe senhor. O senhor é que é o Eu Sou, viu? Só o senhor, ninguém mais. Não fique bravo comigo.
27. Hummm... assim ta melhor. Então vai lá, vai, senta lá, pra nomear os bichos.
E então o senhor Deus começou a fazer desfilar diante de Andão todos os bichos que tinha à mão por ali no momento, pois embora não quisesse admitir, sabia que Andão (mesmo sem ter provado ainda do fruto da árvore do conhecimento) estava coberto de razão, pois não seria possível e nem prático que todos os animais da terra viessem ter ali naquelas paragens paradisíacas apenas para ganhar um nome.
[Andão sozinho, recostado à sombra de algumas árvores, observa o desfile dos bichos e vai nomeando-os com visível dificuldade].
Começou, pois, Andão, a nomear os animais um por um, como Deus havia determinado que ele fizesse, apesar de não compreender porque Ele mesmo (Deus), com um simples estalar de dedos não o poupava de tamanho trabalho. E como eram por demais os bichos, Andão teve sono e dormiu. Sonhou então que estava em um outro Reino, mas que era muito parecido com o jardim do seu Deus. Viu, no entanto, que neste outro paraíso havia algo muito melhor para se fazer do que ficar andando de um lado para o outro ou dando nomes a bichos. Andão percebeu que ali naquele jardim já existia inúmeros Seres iguais ao tipo que o senhor seu Deus já havia lhe descrito e prometido que faria um pra ele, para fazer-lhe companhia. Eram exemplares magníficos! Tinham uns corpos muito belos, alguns corpos eram claros, outros morenos, negros, uma grande variedade de tons. Os cabelos eram lindos, dos mais variados estilos e exalavam um perfume inebriante. Havia também preponderantes elevações na altura do tórax que pareciam pequenos vulcões terminando estes em uns bicos muito interessantes e atraentes. Eram as criaturas mais extraordinárias que Andão já havia botado os olhos em cima. Ainda não era tudo. Os Seres traziam também uma cintura fina com uns quadris largos e os traseiros eram de uma inclinação estupenda! Todas estas criaturas estavam acariciando e servindo um ser igualzinho a ele, que estava confortavelmente deitado numa rede de cipó entrelaçado. Andão resolveu se aproximar mais, e percebeu que além de bonitas, as criaturas eram alegres, agradáveis e simpáticas, pois sorriam e piscavam para ele, acenando com o dedo como se o chamassem a aproximar mais. Andão então se sentindo encorajado, chegou mais perto e estendendo uma das suas mãos, tocou uma delas em uma parte próxima à virilha. Era algo muito diferente de tudo que já havia tocado, algo muito macio e acolchoado, com uma leve penugem muito agradável de acariciar. Porém, enquanto Andão sentia aquela textura tenra e suavemente inusitada com a ponta de seus dedos sentiu de repente umas fortes pancadas no seu flanco esquerdo. (Era Deus que o acordava aos pontapés).
1. Aí, aí, aí! Porque me chutas meu senhor?
2. Você dormiu em serviço idiota, dormiu enquanto nomeava os animais sua Lesma! Lesma... Lesma... ah...olha ali Andão, este é um bom nome para aquele vermezinho asqueroso e molenga que já vai rastejando ali, olha!
3. Não vem não que eu já coloquei nome nisso aí de Escargot.
4. Escargot? ...hummm, é, tem razão, é um bom nome pra ele. Mais elegante até. Afinal o coitadinho só vai ter de bonito o nome mesmo.
5. Mas senhor deixa eu te contar um sonho que eu tive ainda agorinha!
6. Ah, Andão, este negocio de interpretação de sonhos é bem mais lá adiante que vai começar. Se eu não me engano, lá na história de José no Egito é que ela vai ser mais importante. Depois vai aparecer um monte de charlatão por aí com esta mania... Ah... pera aí. Parece que a coisa volta a ter alguma seriedade lá bem mais na frente, no século... Hummm... xii sou ruim para datas viu. Bem, um tal de Doutor Freud vai cismar com isso aí. Aliás, gente nossa Andão, gente nossa! Ou não?
7. Mas senhor, Deus meu, não precisa interpretação não. Foi um sonho muito claro e maravilhoso! Havia um montão daquelas criaturas iguais as que o senhor já me prometeu tantas vezes que vai fazer uma pra mim.
8. Mulher, Andão, mulher... Lembra? Você homem e ela mulher.
9. Ta, ta bom, é isso mesmo, mulher. Mas o nome naquilo ali é o que menos importa! Mas este nome ficou muito bom mesmo para aquela criatura. Foi o senhor mesmo que escolheu?
10. Mas é evidente não é Andão? Quem mais poderia ser?
11. Uai, o senhor tem jeito pra dar nomes, hem? Não quer dar uma mão com a bicharada aqui não? Isso aqui é uma trabalheira do Cão! Ah, pensei mais um! Podemos chamar assim aquele bicho ali que fica abanando a cauda, cheirando tudo que encontra e latindo sem dar trégua! Ô bicho impertinente viu!
12. É, ta bom, mas cuidado com este nome aí, pois ele é também o nome do meu arquiinimigo e tem que ser o seu inimigo também. Procura inventar um apelido pra chamar este bicho aí mais pela alcunha. Que tal cachorro?
13. É, é bom também. Só não entendo porque é que eu tenho que ser inimigo de alguém que eu nem conheço só porque o senhor não gosta dele.
14. Andão, Andão! Pra quem ainda não comeu da árvore do conhecimento você ta bem espertinho e questionador.
15. Comer, comer. Javé, eu não sei por que, mas esta palavra me faz lembrar da tal da mulher lá. Então. Deixa eu te contar o sonho, vai O senhor precisa saber como elas eram.
16. Eu sei muito bem como elas são, Andão.
17. Mas tinha um monte lá senhor. Eram, eram, ah... Deixa ver... mais ou menos umas sessenta!
18. Setenta e duas.
19. Ora, que isso? Como o senhor sabe? Ta informado, hem? Mas pro senhor é fácil saber, o senhor é Deus, né? Mas meu senhor, meu senhorzinho querido, será que eu não posso ter setenta e duas também não?
20. Isso não.
21. Ah, mas por que, senhor?
22. Porque não pode, não é certo na nossa religião.
23. Por quê?
24. Andão, o negócio é o seguinte. Aquele jardim que você viu no seu sonho é o paraíso dos muçulmanos.
25. Quê!?
26. Olha, deixa isso pra lá. Visto que tens sido um servo obediente e segue todas as minhas orientações, e não te esqueces de me adorar, hoje, depois que você dormir, eu vou lhe fazer uma mulher para que você não esteja mais sozinho neste maravilhoso jardim que eu fiz.
27. Ta brincando, né? Jura?
28. Juro. Mas já vou te avisando que quando chegar à hora de comer a fruta que ela vai te dar, você não come não viu?
29. Aí o diabo da palavra de novo... comer.
30. Já te falei pra não mencionar este nome.
31. Comer?
32. Não, o outro.
33. Ah, diabo?
34. Não fala, não fala!
35. Epa, perdão senhor, mas espera aí, não vem com essa não. Como assim eu não vou poder comer a fruta que ela me der? Que sacanagem é essa? Vai dar a rapadura e tirar os dentes? Vem com essa não, veio!
36. Não, não. Não é nada disso não. To falando de outra coisa, de outra fruta. Está vendo aquela árvore lá longe? Ah mas deixa isso pra lá por enquanto, pois eu tenho que explicar isso pra vocês dois juntos. Anda, vai dormir, que quando acordar já terá uma mulher.
37. Oba! O senhor é um deus tão bonzinho pra mim! O senhor é o melhor deus que tem, com certeza! Vou fazer um cartaz bem grande para pregar na porta da minha tenda, escrito assim, ó: “Como Deus é bom”! Mas senhor será que eu não podia ganhar pelo menos umas quatro mulheres? Puxa vida, o tal do muçulmano lá tem setenta e duas, meu. É mulher a dar com o pau!
38. Andão, não ofendas o Senhor teu Deus!
39. Está bem senhor, está bem, não está mais aqui quem falou. Mas o senhor poderia me dar uma ajudinha pra eu dormir hoje? Logo hoje eu estou sem sono, e quero descansar bastante, pois eu tenho a impressão que amanhã à noite eu não vou pregar o olho.
E então Deus fez cair pesado sono sobre Andão e tirando dele uma costela (que ele escolheu por já estar quebrada, por causa dos chutes que ele havia aplicado no homem, quando este dormiu ao nomear os bichos), partida fez para ele uma mulher.
E DEUS CRIOU A MULHER
[No jardim. Deus, Andão e a Mulher].
Vê-se a mulher deitada, nua, bem perto de Andão, que contorna suas curvas com movimentos das mãos, porém sem a tocar, visivelmente extasiado com o que via.
Quando Andão acordou do sono que o senhor seu Deus o havia feito
Dormir e viu pela primeira vez, acordado, uma mulher de pertinho, de forma que a poderia tocar com suas mãos, e ao saber que Deus a havia feito de uma costela sua, não podendo conter a sua emoção, prostrou-se com os joelhos na terra e bradou:
1. Verdadeiramente tu és Deus entre os deuses e nenhum outro deus se iguala a ti em sabedoria, engenho e arte, pois fazer uma maravilha destas de uma costela e ainda por cima quebrada, Pelamordedeus veio, tu é largo mesmo, hem!?
Andão então, esticando o braço tocou pela primeira vez no corpo da mulher e viu que isso era muito bom.
1. Aí está Andão, a mulher que eu havia lhe prometido, para que ela seja tua companheira. Tu a chamarás EVASIVA, uma vez que jamais poderás determinar de fato o que ela realmente deseja, ou qual é verdadeiramente a sua vontade; e quando pareceres a ti que a agradas e faz justamente o que ela esperava que tu fizesses, perceberás que na realidade é o contrário do que imaginavas. E o que pensavas ser certo é o que era errado. Todavia mudando tu de atitude, e então te julgares tranqüilo e que enfim estás agradando a tua mulher por estar fazendo justamente o oposto do que antes fazias e não a agradavas; mais uma vez perceberás que estás errado, e que o que de fato ela desejava, era que não fizesses o que vinhas fazendo até então (o que a esta altura tu já não te lembrarás mais o que era), mas que fizesse aquilo que tu inocentemente julgavas estar praticando desde o princípio, mas segundo ela, tu não estavas e brigará com você e azucrinará sua cabeça, até que desejes que eu não a tivesse feito para ti, embora tu doravante não possa viver sem ela.
2. Puxa, mas que criatura complicada, né?
3. Andão e Evasiva, eis que vos coloco...
4. Senhor.
5. Eis que vos coloco diante deste...
6. Ôo, sennhoor!
7. Que é Andão, que droga, não pára de interromper!
8. Perdão senhor, mas é que se o senhor vai começar um sermão agora, será que não dá pra deixar pra outra hora não? É que eu tava afim de primeiro dar uma chegadinha com a Evasiva ali onde a relva é mais alta. Sabe como é, né? Não é de hoje que to na seca, só no cinco contra um, me entende? (gesticulando).
9. Cala a boca Andão. Não acabei ainda, e se tens ouvidos para ouvir ouça!
10. Ta, bom, ta bom...
11. Como eu ia dizendo, coloquei diante de vós este jardim, e de tudo que tem nele ou nele vive ou nasce vocês podem provar ou governar, porém...
12. Sempre tem um porém [Andão para si mesmo baixinho].
13. Porém, nunca, nunca comam dos frutos daquela árvore ali.
14. Qual? A macieira?
15. Sei lá o nome dela, aquela ali, ó, perto daquelas duas pequeninas e daquela pedra ali.
16. Ah, aquela ali com o tronco mais grosso e que todas as outras e que fica bem no meio do jardim?
17. É Andão, esta mesma. Pois dela não comereis, entendeu? Aliás dela não é bom nem que vocês se aproximem.
18. É uma bela árvore não é senhor?
19. Pois é, é bonita sim, mas vocês entenderam então não é? Dela não podem comer, viu? Podem comer de todas as outras, são donos de tudo que existe neste Jardim!
20. Depois do senhor, né?
21. Não, eu não quero jardim nenhum, fiz para vocês, eu não preciso de jardim. Vocês mandam em tudo por aqui, são donos de tudo!
22. Bem, menos daquela árvore, né? Dela não somos dono.
23. São donos dela também.
24. Mas se somos donos dela, porque não podemos comer do seu fruto?
25. Andão, isso é muito complicado pra te falar agora. Você não estava com pressa de ir lá pra relva alta com a Evasiva? Vai lá, vai!
26. Bem lembrado senhor! Podemos ir agora?
27. Se entenderem que não podem comer daquela árvore.
28. A macieira?
29. É, é aquela ali, mas que saco!
30. Credo, senhor [disse Evasiva] por acaso são os frutos dela venenosos?
31. Andão, disse Deus, deves instruir tua esposa que o homem é o senhor da mulher, e que esta lhe deve ser obediente, e que não lhe é permitido falar em público.
32. Escutou, né, Evasiva?
33. Mas não tem ninguém aqui a não ser nós três.
34. Você ouviu o homem, Evasiva, eu é que mando, deixa de conversa e vamos logo para a relva alta!
35. O que está dito, dito está, e lhes digo que nem uma vírgula mudará nestas palavras. Fiquem espertos e lembrem-se que o senhor teu Deus avisou pra não comerdes da árvore, pois se o fizeres, certamente morrerão! Morrerão viu?
E dizendo isso, afastou-se Deus dos olhos de Andão e Evasiva. Andão, então, piscando para Evasiva (da maneira que aprendera com as mulheres no sonho do paraíso muçulmano), e pegando a pela mão a conduziu em direção àquela parte do jardim onde a relva crescia bem mais alta e abundante. Houve tarde, noite, manhã, tarde de novo, outra vez noite, e mais uma tarde e ainda outra noite, e mais uma manhã, tarde e noite, e mais outro dia inteirinho com sua respectiva noite, e os dois ainda não haviam retornado do mato.
UM DIÁLOGO INÉDITO ENTRE EVASIVA E A SERPENTE
Tendo se passado estas coisas, estavam Andão e Evasiva de volta parte do jardim onde costumavam passar mais tempo, morando em sua tenda, e descansavam, pois Evasiva estava muito esgotada devido os muitos dias que Andão havia a ‘conhecido’ no local de relva alta, e parecia mesmo ter dificuldades para andar. Andão, por sua vez, tinha os olhos fundos e perdera muito de sua cor, empalidecendo como o leite das cabras. Alguns dias após ter se refeito do dia em que Andão a ‘conhecera’ tão bem e por tanto tempo, Evasiva por estar muito mais irritada por aqueles dias não podendo ver Andão na sua frente, pois enquanto ela cuidava da tenda e de todos os afazeres domésticos, Andão ficava à toa, ela resolveu dar um passeio pelo jardim para espairecer um pouco. Evasiva estando, então, cansada de sua caminhada, recostou-se sobre a relva à sombra da árvore proibida. Enquanto repousava olhou para cima e viu os frutos desta, e notou que eles eram verdadeiramente muito atraentes aos olhos e agradáveis ao olfato, mas não se atrevia tocá-los por se lembrar das recomendações de Deus.
Entrementes, o Diabo, que era muito astuto, e que fora transformada em serpente, sob esta forma saiu pelo buraco do alto do tronco da árvore, e vendo que Evasiva admirava os frutos, falou-lhe:
1. Não estás com fome mulher? Se forem tão belos a teus olhos e tão agradáveis às tuas narinas estes frutos, imagine como não serão apetitosos ao teu paladar?
2. Quem és tu? Uma cobra que fala?
3. Nem sempre fui cobra, em verdade vos digo.
4. Claro que não, pois um dia deve ter sido um ovo de cobra. Mas pra mim é cobra agora, e cobra feia!
5. Acaso entendes tu de cobras, mulher?
6. Pois já que perguntas, passei a entender algo nos últimos dias. Bem, pelo menos passei a entender de algo semelhante à cobra. [falou Evasiva com entoação e olhar maliciosos].
7. kA, kA, kA, kA! Vejo que tens espírito Evasiva, não é como aquele chato e mal humorado do teu senhor!
8. Conhece Andão, meu marido?
9. Que o que, não é do teu marido que eu falo, ele é um mero mordomo, refiro-me ao teu Deus.
10. É, realmente, se em algo, o senhor meu Deus teve muito mau gosto, foi em fazer uma criatura feiosa como você!
11. Alto lá! Não sou cria dele!
12. Tudo que existe foi criado por Ele!
13. Aí e que tu te enganas mulher. Se te interessa mesmo saber, nem tudo o que vês ao teu redor foi obra do seu Deus, mas afirmo-te que ele teve um ajudante nestas criações, na criação deste próprio jardim em que tu vives e em tudo que nele há.
14. Ajudante? Você mente cobra perversa!
15. Asseguro que te falo a verdade. Houve sim um criador adjunto. Mais precisamente falando, poderíamos dizer que o senhor teu Deus forneceu os meios, foi uma espécie de produtor, mas teve de contar com um talento criativo maior que o dele, digamos, um diretor de arte!
16. Se for verdade, me diga quem foi este?
17. Modéstia à parte, esta humilde cobra que vos fala.
18. Você?!? Ah, ah, ah... Era só o que faltava, mal pode andar com estas tuas perninhas minúsculas, é um animal quase rastejante, como poderia ser criador de algo?
19. Já te falei mulher que nem sempre fui cobra. E digo-lhe mais. Não só fui este outro criador, como também, se agora você e seu marido vivem, conversamos aqui neste jardim, e tu me insultas e “conhece” Andão, e ultimamente estás às voltas com coisa semelhante às cobras, é, antes de ninguém, a mim que tu o deves.
20. Conta outra minhocão. Vai dizer então que criastes Andão e a mim também?
21. Quase.
22. Como assim?
23. Deixa quieto, Evasiva, esta é uma longa história. Digamos que eu tornei possível com a minha ciência que seu marido fosse criado e depois dele você. Mas tu poderás saber de tudo nos mínimos detalhes se comer destes frutos aí desta árvore. Pois se o fizeres, os teus olhos se abrirão para todos os mistérios da natureza, e entenderás não só de coisas semelhantes às cobras, mas de qualquer outra coisa também; compreenderás o motivo por trás de tudo em qualquer situação. Saberás tudo da vida de todos os animas e de outras pessoas que virem a existir depois de vocês; e também saberá combinar as cores umas com as outras, entenderá de cortes de cabelos e do vestiário da moda quando vieres a usar roupas. Enfim, não haverá curiosidade que você não poderá satisfazer!
24. Jura? Nossa seria ótimo mesmo! [à parte: tudo nos mínimos detalhes].
25. Sim Evasiva, nos mínimos detalhes!
26. Nossa você ouviu sua danadinha, eu falei tão baixinho. Mas o senhor meu Deus disse que se nós comêssemos do fruto desta árvore aí nos iremos morrer.
27. Bobagem Evasiva, besteira da grossa, falácia teológica! Todos vão morrer um dia. Tudo tem o seu tempo, e um dia acabará por perecer. Até o senhor teu deus morrerá um dia!
28. Até ele?
29. Sim Evasiva, até ele. O tempo, mulher, é a única coisa imortal. Outros deuses já morreram. O tempo, só o tempo permanece e tudo ele modifica. O que hoje é mistério amanhã é ciência. O que é árvore, em milhões de anos, se tornará em pedra e as pedras se tornarão pó e vento. O tempo muda oceanos em desertos e transforma deuses em lendas!
30. Achas então que eu posso comer a fruta desta árvore sem nenhum risco?
31. Nada é sem risco, mulher. Tu podes morrer hoje engasgada com um grão de milho, mas deixará de se alimentar com eles por causa disso? Tudo é uma questão de custo-benefício. O que quer que te aconteças ao provar este fruto, e que certamente não é a morte, pois esta virá quer o prove ou não, será mínimo se comparada a tua independência à tua liberdade! Vamos lá pode provar, experimenta!
32. Evasiva então, apanhou um dos frutos e ele era tão agradável ao tato como era aos outros sentidos. Deu então uma grande mordida. E tão suculenta era a fruta que o seu néctar escorria-lhe pelos lábios. Evasiva o saboreava extasiada, enquanto ia limpando com a língua e com as costas da mão o suco que lhe descia da boca, e sua língua tinha movimentos libidinosos e ela sorria e seu olhar se tornara mais malicioso. Percebendo, então, que a serpente notava as suas atitudes, tentou disfarçar, dizendo:
33. Credo, não fica me encarando assim não, seu bicho feio. Estes teus chifrinhos aí são um horror, eles me dão calafrios.
34. Pois faço hoje uma previsão, mulher. As descendentes do teu sexo colocarão cornos idênticos a estes que vês em mim nos descendentes do sexo do teu marido.
35. Ah é? Puxa, mas então no futuro os homens serão bem mais feios!
36. Quanto à aparência dos homens deixo que tu descidas. Mas posso adiantar-lhe, no entanto, que as pontas serão invisíveis. Principalmente não saberão da sua existência os portadores dela. Embora, em alguns casos, estes saberão e apreciarão ostenta-las.
37. Misteriosas são estas palavras, quem as poderá entender? Mas dona cobra, achas então que Andão poderá ainda vir a portar chifres?
38. Senhor serpente, por favor.
39. Ah, ta, desculpes, és então uma cobra macho?
40. Muito macho!
41. Tudo bem então. Mas me responda o que perguntei. Acha possível Andão ainda vir a ter chifres?
42. Por enquanto não. Pelo menos não neste jardim, onde só tem vocês dois de humanos. Se bem que...
43. O que o que?
44. Nada não, só uma idéia que me ocorreu aqui, assim enquanto eu olhava pra você.
45. Ah que isso, fala aí vai. Conta-me o que você pensou.
46. Não, não, nada importante mesmo. Só pensei numa possibilidade aqui, mas... Não, acho que não... talvez se você fosse a Cleópatra...
47. Quem?
48. Ninguém. Deixa pra lá. O tempo urge Evasiva. Por hora é necessário que eu retorne para dentro da árvore. Vai ter com o teu marido e dá-lhe para comer deste fruto, para que o encanto seja completo e vocês dois possam saber tudo sobre todas as coisas. Tem que fazer isso viu? Esqueci de lhe dizer que se ele também não comer você não adquire os poderes.
49. Humm, isso não estava nos meus planos, porque não me avisou. Mas tudo bem, se é necessário eu o faço comer também.
50. Boa menina. Bem vou nessa Evasiva, até mais.
E dizendo isso a serpente se esgueirou para dentro da árvore, enquanto Evasiva correu ao encontro de Andão para lhe contar o que lhe havia sucedido e dar lhe o fruto para comer.
Evasiva está de volta à parte do jardim onde ela e Andão moram. Andão está cuidando de umas plantinhas nuns canteiros. Ao ver Andão, Evasiva correu até ele chamando e dizendo:
1. Andão, Andão meu marido, tenho algo para lhe contar!
2. Xii, lá vem merda.
3. Sabe aquela árvore que o senhor nosso Deus disse para que dela nós não comêssemos os frutos?
4. A macieira?
5. Sei lá, só Deus sabe, aquela que ele mostrou pra gente e disse “desta árvore não comerás” [imitando voz grave e sobrancelhas arqueadas pra demonstrar autoridade].
6. Ele não sabe também não, não lembra? Até me xingou por causa disso. Mas o que tem a árvore?
7. Ah, se eu contar você vai brigar comigo.
8. Eta, fala logo mulher!
9. Promete que não te zangas? Eu não quero brigar hoje que é dia de “nhânhá”! [dizia piscando para Andão e o beliscando].
10. Ai, ai! Ta bom eu prometo, mas fala logo!
11. Eu comi.
12. Comeu o que?
13. Ora, a fruta daquela árvore lá.
14. Pôrra, Evasiva, eu não acredito que fez isso, mas que merda! E agora, o que é que eu vou falar pro velho?! O barbudo vai acabar com a nossa raça! Você é mesmo uma criatura muito irresponsável!
15. Talvez ele não descubra meu bem.
16. Meu bem o cacete! Como não descobre? O homem é Deus, você esqueceu deste detalhe?
17. Ah, mas ele vive esquecendo tudo, não sabia o nome da árvore, e sempre ta aí procurando a gente; “Andão, onde estas?” “o que é feito de ti e de tua mulher”? “Evasiva, onde estás, o que é feito de Andão, teu esposo”?
18. Lá isso é verdade. Mas não interessa. O fato é que você não devia ter comido, ele vai acabar descobrindo. Porque você foi fazer uma coisa destas? Você foi muito teimosa.
19. Mas não foi culpa minha meu bem.
20. Que meu bem, que meu bem, foi culpa de quem então? Suponho que tenha sido minha não é, como sempre você diz!
21. Não, não, foi culpa da serpente.
22. Mas que serpente mulher, do que você está falando agora?
23. Aquela serpente que mora dentro do tronco daquela árvore lá. Você nunca a viu? Ela falou pra eu comer, então eu comi.
24. Facinho assim, né? O ‘Senhor’ teu Deus diz: “não comas”; aí aparece uma cobra, que você nunca viu, fala pra você comer e você vai lá e manda a fruta pro bucho sem pensar duas vezes.
25. Não foi bem assim não. Eu não queria comer, não cedi logo, foi a cobra que me seduziu com a sua conversa mansa.
26. Seduziu-te? Uma cobra?!?
27. É, caso não tenha reparado ainda, eu tenho uma quedinha por cobras, culpa sua seu danadinho [disse,beliscando os pelos pubianos de Andão].
28. Ai, ai, isso dói Evasiva, que saco!
29. Mas é verdade Andão. A cobra me convenceu. Ou melhor, o Sr. Cobra, pois ele é macho, disse que umas coisas que tem aqui no Éden foi ele que ajudou criar. Falou que muita coisa não foi o nosso Deus que fez não, que foi ele. Disse que fez muitas criaturas e que devemos a ele estarmos aqui hoje, e que se eu comesse e também desse uma fruta pra você comer, os nossos olhos se abririam e saberíamos de tudo o que aconteceu de verdade, antes de nós existirmos e que também conheceríamos a explicação para todas as coisas ou perguntas que tenhamos agora, ou que venhamos a ter no futuro.
30. Trouxe uma aí?
31. Ta aqui, ó!
32. Passa pra cá.
Então Andão, pegando a fruta da mão de Evasiva cravou lhe os dentes com gosto e seus olhos se abriram mais, e então, ficando com uma visão mais aguçada e podendo discernir melhor o que via, entendendo a dimensão das coisas a sua volta, olhando para Evasiva diante dele e notando ainda melhor do que antes a nudez dela, disse: Ta loco meu! Mas você é gostosa mesmo, hem? Evasiva, então, toda cheia de si, fazia trejeitos que demonstravam sua satisfação com este elogio, deixando evidente que passara, após a ingestão da fruta, a se orgulhar e se envaidecer mais de seus atributos físicos.
Entrementes, Deus se aproximou, saindo de trás de algumas folhagens e perguntou:
1. Andão, Evasiva, onde estão vocês?
2. “Aqui”! –responderam simultaneamente, [Demonstrando enfado na voz].
3. Por qual motivo escondem-se e fogem da minha presença?
4. Aí, ai, ai. Mas que mania, senhor! Quem é que está se escondendo? Acaso temos culpa se andas ficando míope?
5. Mas o que fazias Andão, ainda há pouco?
6. Estava apanhando umas folhas aqui, pois estou pensando em fazer algum tipo de vestimenta para nos cobrir. Mas se o senhor mesmo quiser providenciar isso pra nós, eu agradeço.
7. Mas porque queres cobrir a ti e a tua mulher?
8. Cara olha só. To achando meio esquisito isso de ficar com as “partes” balançando por aí, sabe? Acho meio arriscado, ainda mais agora que eu tenho uma mulher. Não quero ganhar asas e ter os pés atados ao chão. Vai que acontece um acidente, ou algum animal dá uma mordida aí enquanto durmo, aí, “inhac”. Já era [fazendo gesto com a mão indicando a amputação da genitália]. Mas, além disso, estou também preocupado é com a Evasiva. Mesmo sendo o único macho da nossa espécie por aqui, não to a fim de deixar este mulherão, que é minha esposa, dando sopa por aí não. Aqui ó. Não confio nem um pouco naqueles bichos peludos um tanto parecidos com a gente que o senhor fez. Eles parecem ser bem sem vergonhas. Porque o senhor foi fazer aqueles trecos?
9. Não fui eu que os fiz.
10. O que?!?
11. Hã, hã, quero dizer, eles foram umas experiências que não deram certo. Mas espere aí Andão, não desconversa não. Como passastes a reparar tanto na sua nudez e na nudez da tua mulher? Acaso comestes do fruto da árvore da qual eu havia lhes ordenado que não comessem?
12. O senhor já sabe né? Então porque pergunta?
13. Para seguir o roteiro. Comestes ou não?
14. Ta, comi, vai. Mas foi a mulher que me destes para companheira que me deu o fruto.
15. Dedo-duro! Papelão hem? Vai ficar conhecido como o primeiro dedo-duro da história da humanidade, que coisa feia em Andão!
16. Calados os dois!
17. É, mas a culpa não foi minha não. A culpa é daquela serpente que mora lá no tronco daquela árvore.
18. O que!? Ele saiu?
19. ?
20. ?
21. Quero dizer hã, hã, que serpente?
22. Bem, Senhor, caso o não saiba [piscando para Andão e cutucando o com o cotovelo], lá dentro do tronco daquela árvore que o senhor nos mostrou, dizendo: “desta árvore não comereis” [novamente imitando voz grave e com sobrancelhas arqueadas, para parecer autoritário], mora uma cobra muito astuta!
23. Desgraça!!
24. Nossa, relaxa Javé, porque blasfemas? O bicho não é tão perigoso assim falou Evasiva.
JAVÉ DÁ CARTÃO VERMELHO
E gritou então o senhor Deus de Andão e Evasiva, com os olhos esbugalhados e o semblante transfigurado pelo ódio, apontando a quase enfiar-lhes o dedo nas caras.
1. Visto que foram desobedientes e contrariaram a minha vontade, Comendo da fruta que eu lhes havia dito que não comessem, estão agora expulsos deste maravilhoso jardim e a ele não mais poderão retornar até que seja expiado o vosso pecado.
2. ?
3. Por causa de duas frutinhas?!
4. Olha senhor [disse Evasiva] não era isso o combinado não. O senhor tinha dito que se comêssemos a fruta nós morreríamos, mas estamos vivinhos aqui. Isso é despeito porque sobrevivemos à ingestão da fruta. O senhor não tinha dito nada sobre despejo.
5. Cale a boca!! Andão faça sua mulher ficar quieta, eu já não te disse que ela não pode falar em público?!! Tu mulher, por ter te deixado tentar e comido do fruto, farei que sofras muito na gravidez, e entre dores terríveis dará à luz os teus filhos! E tem mais. A paixão vai arrastar você para o seu marido, e querendo por qualquer preço arranjar casamento, suas descendentes farão as coisas mais absurdas a fim de conseguir isso!
6. Mas que que tem isso haver? Este negócio de dor na gravidez? Pega leve, Javé, dá um castigo coerente com o delito [desafiava Evasiva].
7. E tu, Andão [continuou ignorando Evasiva], por ter dado ouvidos à conversa fiada da tua mulher, verás que maldita será a terra por tua causa. Enquanto viver se alimentará dela e ela produzirá espinhos e ervas daninhas. Você comerá a erva do campo e com o suor do seu rosto ganharás o teu pão!
8. O que quer dizer isso precisamente, senhor?
9. Que terás de trabalhar, Andão, terás de trabalhar!
10. Não, não! Isso não meu senhor, por favor, por amor de ti mesmo, me dá outro castigo, arranca-me uma perna se desejares, mas trabalhar não, por misericórdia!
11. Não tem refresco não! Não gostaste de comer a fruta? Agora trabalharás sim. Cinco dias da semana, e desde já, para que a expiação do teu pecado seja mais fácil, eu instituo a “Segunda-feira-brava”, que lhe será pesada aos teus ombros, causando-lhe apatia psicológica e profunda melancolia toda vez que chegares a sua véspera, por te lembrar que deverás madrugar no dia seguinte e trabalhar, e isso ordeno para todas as semanas, para sempre, até o final dos tempos!
12. Eta frutinha cara viu.
E virando as costas para Andão e Evasiva, Deus apontou o portão de saída do jardim, e afastou-se deles, entrando outra vez nas folhagens de onde havia saído.
Os dois então saíram pelo portão do Éden, no qual mais tarde Deus colocaria um anjo com uma espada para não permitir que entrassem novamente. Ao passarem pelo portão, Andão olhou para Evasiva balançando a cabeça em sinal de reprovação e lhe disse:
1. Você me mete em cada uma, hem?
2. Ah, não esquenta não amor. Até que enfim vamos fazer uma viagenzinha, você nunca me levou a lugar nenhum mesmo. Minha vida neste jardim aí era cozinhar, limpar e lavar as tigelas de barro.
3. Ora cala esta boca, já não basta o prejuízo que nos causastes?
4. Eu to achando bem legal! Não agüentava mais este tal de Éden aí, que lugar chato, viu!
E dizendo isso, já ia tomando o rumo oeste, Mas Andão travou-lhe de um pulso e com um puxão forte a fez mudar de direção, tomando o caminho do Leste, dizendo:
1. Mas não é possível, já não basta toda a confusão que causastes?
2. Garanto que por este caminho aí só deve ter porcaria. Além disso, você ouviu o barbudo aquele dia não foi? Eu é que mando, sou o teu senhor e deves me obedecer!
3. Ah coitado! [falou baixinho Evasiva, para consigo].
O MONÓLOGO DE ANDÃO
[Campo. Andão trabalhando com a enxada].
Muito estranho realmente. Muito esquisito. Aquela cobra é mesmo
uma mentirosa; ainda será conhecida como o pai da mentira, pois o único benefício que a ingestão daquela fruta trouxe foi a não aceitação das coisas sem questionamento. Mas será isso um benefício mesmo? Esta mania de pensar que herdei pela ingestão de uma fruta tem me trazido muitos aborrecimentos e estou mesmo inclinado a achar que a felicidade deve estar mesmo é na ignorância. A gente não pára de se encasquetar com tudo, de tentar descobrir a razão das coisas. Isso dá até dor de cabeça. Passei o dia todo trabalhando aqui na roça e estas dúvidas ficam martelando na minha cabeça. Recordando agora do tempo que estava lá no jardim com Deus, antes mesmo dele criar Evasiva, percebo agora que Ele me disse muita coisa contraditória. Por exemplo: afiançava-me Ele que fizera surgir a luz assim que criou os céus e a terra, logo depois de tê-los feito. Mas também me disse que só fez o sol algum tempo depois. Ora, sinceramente, eu não vi outra luz lá que não fosse à do sol, a não ser a da lua de noite, em noite de lua cheia, mas esta não conta, pois ela foi feita junto com o sol, segundo me disse Deus. Outra dificuldade que encontro ao pensar nestas coisas é sobre o que Ele me disse da relva. Ele falou que a fez para servir de alimento aos primeiros animais que criou, mas ao mesmo tempo, disse-me que antes de me criar e de eu cultivar o solo não havia brotado nenhuma relva no campo e que também não tinha chovido ainda. Outra coisa de difícil compreensão é o fato de que Ele disse que depois que fez chover e a relva nasceu (embora já tivesse sido criada antes de chover para alimentar os bichos), ao me criar, Ele teria me colocado no meio do jardim para que eu o guardasse e o cultivasse. Pois o que não entra na minha cachola é que, se eu já cultivava o jardim antes de comer a fruta proibida, porque que Deus me deu como castigo fazer algo que eu já fazia. Algo que já era minha atividade normal? Realmente isso tudo é muito estranho. Fico imaginando o que Ele terá feito ou irá fazer com aquela cobra mentirosa quando a encontrar. Pode tê-la castigado, quem sabe, arrancando as perninhas minúsculas que Evasiva me disse que ela tem, ou tinha, ih, ih, ih. Aí ia fazê-la rastejar pra sempre, ih, ih, ih e ainda comendo pó a vida inteira. E como ele gosta de fazer as coisas bem estendidas deve ter castigado toda a descendência das cobras até o final dos tempos! Não, não, mas espera aí. Isto não pode ser. Não teria o menor sentido e seria mais uma contradição do senhor Javé. Apesar de que em matéria de contradições ele não faz economias. Mas vejamos: Ele me disse que havia criado répteis e animais que rastejam sobre a superfície da terra, então não poderia fazer do fato de rastejar um castigo para punir a cobra, e a descendência dela, pois se isso for um castigo, porque ele infligiria isto a animais inocentes recém criados? Não seria justo, como ele sempre diz que gosta de ser. Mas pensando bem, isto não seria muito ou nada diferente do que ele fez comigo que estou sendo castigado com algo que eu já fazia antes de comer a fruta proibida. Ah, mas espera aí. Tem o pó que as serpentes então seriam obrigadas a comer até o fim dos seus dias! Hum, mas e as cobras que só vivem na água? Até onde posso imaginar me parece que na água não pode ter pó, ou pode? Bem, se a luz pôde conviver com as trevas antes de ser feita a separação delas, e se Deus mesmo já disse que Luz e trevas não podem existir juntas, então talvez exista pó que pode coexistir com a água! Ah, quer saber? Sei lá, deixa isso tudo pra lá [largando a enxada]. Já está escurecendo; deixa-me dar um jeito de voltar para casa que a esta altura Evasiva já deve estar de banhinho tomadinho e cheirosinha me esperando!
Retornando então para sua casa, Andão, ao entrar, viu que realmente tudo se passava como ele havia imaginado. Evasiva o aguardava nuazinha em pêlo deitada em na esteira de casal. Vendo aquela imagem maravilhosa, Andão se lavou rapidinho dos suores que trazia do seu dia de trabalho e pulando na esteira ao lado da sua mulher dizia: “Ih, ih, ih uma coisa destas cala qualquer filosofia! Adeus metafísica vamos à física!”.
Coabitou então Andão com sua mulher e ela concebeu, e no devido tempo deu à luz a um filho varão que foi chamado de CAINDO [pois que ele caía de cansaço de tanto lavrar o solo como o seu pai]. E novamente engravidou e lhe nasceu outro filho varão ao qual deram o nome de ABELHUDO [pois que este vivia dando palpite em tudo].
O DIÁLOGO ENTRE CAINDO E ABELHUDO
Caindo e Abelhudo no campo. Caindo Trabalhando o solo com a enxada e Abelhudo sentado perto dele, recostado em uma árvore, com um raminho de capim na boca, observando umas ovelhas que estão pastando a alguma distância dali.
1. Caindo!
2. O que é?
3. Já reparou que o seu trabalho é bem mais penoso do que o meu?
4. Já.
5. Acho que nosso pai, Andão, se agrada mais de mim do que de ti.
6. Humm, e daí?
7. Ah, sei lá, sabe, é bom ser o predileto, dá uma sensação gostosa. Você não gostaria de ser o predileto só por um dia, ou por, digamos, uma semana? Que tal!?
8. Não me interessa.
9. Também eu não ia deixar! Ih, ih, ih, seu idiota. E olha lá viu, vê se capina direitinho aí, e é bom que esta plantação de bons frutos, bons legumes e verduras, para que eu tenha bastante comida boa e variada lá em casa, você sabe que a mamãe gosta que eu me alimente muito bem, e uma alimentação balanceada é bom pra minha pele [examinando os braços virando-os de um lado para o outro], não quero que ela fique ressecada.
De vez em quando Abelhudo se levantava e chamava alguma ovelhinha, que estava se desviando do bando, para fazê-la retornar para perto das outras.
10. Psiu, psiu, amorzinha, não, não, volta pra lá, volta já! Aí, aí, estou pensando em pedir pra alguém treinar um cachorro pra me ajudar a pastorear estas ovelhas, isso é tão cansativo, tão trabalhoso! [dizia bocejando e espreguiçando].
11. É faça isso.
12. Caindo!
13. O que é agora Abelhudo? [perguntava seu irmão, limpando o rapidamente o suor que lhe escorria pelas faces, para logo em seguida retornar ao trabalho em ritmo acelerado].
14. Você se lembra daquelas nossas oferendas que fizemos um dia destes para o Deus de nossos pais? Aquele deus que ele nos ensina a adorar, respeitar e amar, sem ao menos o conhecermos, para que Ele não se desagrade de nós, e, então, possamos um dia ir morar lá naquele paraíso que ele nos disse que este deus o expulsou de lá por culpa da mamãe?
15. Sei, sei. Mas escuta uma coisa, Abelhudo. Você não quer ir ali brincar com as suas ovelhinhas, não hem? Vai lá, vai!
16. Daqui a pouco eu vou, espera aí. Mas como eu ia dizendo Caindo, eu soube pelo papai que pelo que ele conhece do Deus dele, Ele nem deu bola para aquela tua ofertazinha mixuruca de “ortifrutis”, pois do que ele gosta mesmo e de carne! Então, maninho, mais uma vez eu me dei bem, porque eu sacrifiquei pra ele um cordeirinho novinho e tenro! E você, como sempre, se deu mal. Você não acerta uma mesmo, hem? Ih, ih, ih, ih, ih!
E continuando a gargalhar de maneira insolente, levantou-se virando as costas para o irmão para se retirar da sua presença. Caindo, então, não podendo mais suportar, perdeu o controle e gritou:
17. Ah é? Não acerto uma, né?! Que tal esta!
E antes que Abelhudo pudesse se virar, Caindo deu lhe uma enxadada com todas as forças que pode ajuntar, e o matou.
A GRANDE NARRAÇÃO
Aqui seria o fim de toda a história dos homens na face da terra, pois depois que Caindo mata seu irmão Abelhudo, ele tem uma alucinação onde Deus fala com ele e o amaldiçoa. Logo após isto ele parte e vai habitar em outras terras. A continuação do drama humano fica comprometida, uma vez que Andão e Evasiva tiveram dois filhos, a saber: Caindo e Abelhudo. Eram, pois em número de quatro os habitantes humanos da terra. Eis que Caindo vai e me mata o irmão, diminuindo drasticamente este número para três indivíduos apenas. Vejamos quais seriam os prognósticos para o povoamento da terra com este número limitado de seres humanos.
Imaginemos por um momento que Caindo não abandonasse a sua terra natal, mas antes, permanecesse junto aos seus progenitores. Se Andão e Evasiva tivessem procriado mais e lhe nascessem crianças do sexo feminino, Caindo poderia unir-se a elas (o que seria totalmente justificável dado à escassez de mulheres). Ele também poderia morrer virgem e seus próprios pais continuariam sozinhos a povoar o planeta. Embora para Andão, que já ia avançado em anos, isso poderia ser um tanto penoso, não se pode afirmar que fosse impossível por desconhecermos as condições fisiológicas de exemplares tão primitivos de nossa raça. Mais remota é a possibilidade de Caindo copular com a sua própria mãe, o que parece um horror incestuoso para os padrões divinos, ou para a moral humana pura e simples (embora mais para frente nesta história da humanidade, se observará filhas fazendo sexo com o próprio pai, que era homem com status de santo). Mas felizmente nada disso se verificou aqui no início dos tempos. O que aconteceu mesmo foi que Caindo foi pra outras bandas após matar o seu impertinente irmãozinho. E é aí que ocorre algo surpreendentemente inesperado! Caindo se casa! E pasmem: com uma mulher! Uma mulher que aparece por aquelas paragens pra onde ele fora morar. De onde ela vem, quem é, ou filha de quem é esta misteriosa mulher? Como, e de onde surgiu a senhora Caindo? Eis aí uma questão homérica, um desafio intransponível ao intelecto humano. Posto que o enigma não pareça ser de fácil solução, ocupemos-nos de outros detalhes, e deixemos de questionar estes argumentos com uma possível lógica intrínseca somente ensinada em livros antigos e sagrados. Caindo casa-se, pois, com a senhora X, copula com ela (ou co-habita, ou a conhece) e ela tem um filho homem que é denominado INHOQUE, o qual por sua vez gera (sem mulher ou com a própria mãe), outro filho, homem, que por sua vez gera outro homem, e que , adivinhem, gera outro indivíduo do sexo masculino! Bem, é claro que naqueles tempos machistas nem se preocupavam em registrar os nascimentos das meninas, mas o mínimo que isso acarreta é que as pessoas eram todas umas incestuosas e viviam numa suruba danada: irmão com irmã, filha com pai, tio com sobrinha etc. Nada demais se não estivéssemos falando do livro santo que ensina que estas coisas são erradas, ou, pelo menos, o ensina os seus interpretes mais autorizados. Mas deixemos de lado as questões morais e sigamos um pouco mais a genealogia. Aí acontece o impensável, nasce um homem, (não, não o impensável não é o fato de nascer uma criança do sexo masculino, pois vimos que isso acontecia em 100% dos casos), nasce um homem que toma para si duas mulheres! Exatamente. Ignorando todas as normas de etiqueta e de camaradagem para com os seus companheiros, este homem, não se sensibilizando com a falta de mulher na área, tem o descaramento de tomar para si duas mulheres! Isso mesmo, ele pega para ele duas mulheres novinhas em folha (não perguntem de onde elas vieram). Uma delas dá à luz nada mais nada menos do que ao primeiro tocador de flauta e a outra ao primeiro que sabia forjar o bronze! Dos quais é dito que foram, respectivamente, os antepassados de todos que vieram a tocar flautas ou a forjar o bronze, o que, certamente não é desnecessário informarem, já que, seguramente, estas profissões devem ser, ou pelo menos terem sido as mais importantes do mundo, já que não se relata em livro de tal envergadura, quais foram os antepassados, por exemplo, do bancário, do taxista, do engraxate ou da secretária de consultório médico. Que coisa extraordinária!
Mas eis que Andão, demonstrando que ele também é extraordinário, mais uma vez, “chega junto” e Evasiva concebe novamente, e desta vez gera, SETE! Não sete filhos de uma só vez, mas um menino ao qual dão o nome de sete, não sete nomes diferentes, mas o menino é que foi denominado SETE. Evasiva fica muito feliz quando o garoto nasce e diz:
1. Andão, Deus me deu outro filho,
2. Para colocar no lugar de Abelhudo, que Caindo matou!
3. Homem ou mulher?
4. Homem.
5. Xi, ta difícil de encarar esta tarefa de levar a humanidade pra frente sozinho.
E Sete também gera um filho (sabe lá Deus com que mulher), mas na melhor das hipóteses, com alguma irmã sua (não catalogada). Todavia, Andão ainda "deu no couro" por bastante tempo e nasceram-lhe muitos filhos e (pasmem) filhas! E esta lengalenga deve ter continuado por aí: quando um irmão via uma irmã era Pimba! Não tinha erro. Mas o que fazer contra a luta imperiosa da natureza pela sobrevivência da espécie? E assim foram se arranjando até que...
O MONÓLOGO DE JAVÉ
[Deus sozinho, entre nuvens].
Eis que me arrependo de ter criado o homem. Ele é mau. Os desígnios do seu coração são ruins. Também pudera. O que é que eu poderia esperar de criaturas feitas a partir daquelas fórmulas do Cramulhão? Aliás, o que será feito dele depois que lhe arranquei as perninhas, ih, ih, ih, por ter dado o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal para Evasiva. Ele fugiu dizendo que ia criar um reino próprio e arregimentar algumas legiões para fundar uma oposição. Não é à toa que um de seus apelidos é “Canhoto”, é de esquerda mesmo a praga! Bem, aí está o resultado de eu ter usado aquelas fórmulas dele: gentalha! Mas fico pensando às vezes. Eu, sendo onisciente, porque não fiquei sabendo antecipadamente o que iria acontecer para evitar tudo isso? Afinal as pobres criaturas não pediram para vir ao mundo, e agora vou ter que destruir todo mundo, e deve ser um pouco desagradável ser aniquilado. Melhor seria nunca terem existido. Mas deixa estas questões para que os teólogos tenham futuramente o que discutir. Agora é decidir a forma de acabar com tudo isso de uma vez. Como vai ser? Deixa ver... Com água? Não, não, acho melhor fogo. O fogo é mais garantido. Mas e se depois, mais tarde, eu me arrepender de novo? E se eu, desta vez, me arrepender de ter destruído tudo, assim como me arrependi agora de ter criado o homem? Uma coisa é certa, já não posso confiar muito na minha memória, acho que ela é que está causando estas falhas na minha onisciência. Então talvez seja melhor eu destruir tudo com água. Pois se amanhã eu me arrependo, fica o feito pelo não feito, pois a água inunda tudo e afoga todas as criaturas, mas depois que escoar, como se diz, ‘lavou ta novo’, aí o mundo vai ta novinho, e se eu quiser começo tudo outra vez. Então está decidido: água! Xii... Mas onde será que foi que eu coloquei as fórmulas daquela Besta?! Ta certo que deu nesta porcaria, mas sem elas eu não sei direito o que fazer, eu tenho que me orientar por elas, aí depois eu vou corrigindo umas coisas, tomo o cuidado de cortar aquela droga de árvore lá do Éden, e deixo este negócio de livre-arbítrio fora do meu projeto, pois já vi que com isso não vai rolar não! E agora, com mil diabos, onde eu botei aqueles pergaminhos? Ah, mas espera aí! E se eu guardar alguém para semente? Eu posso escolher uma família aí que eu não vou deixar afogar. Mas como? Talvez eu possa colocar eles no topo de uma montanha bem alta! É, pode dar certo. Daí depois que a água abaixar eles descem e pronto, é só começar a procriar de novo. Não, montanha não. Aí eu não poderia deixar a água subir totalmente. Um barco então! Isso, um barco bem grande! Aí sim, depois o pessoal desce e começa a procriação. Ih, ih, aliás, digam o que disserem da minha criação, qualquer um tem que admitir que a invenção deste método de procriar, foi coisa de gênio mesmo! Escolher este processo que eu escolhi faz com que a perpetuação da humanidade e de todas as outras criaturas se garanta sozinha até o fim dos tempos. Queria ver quem se animaria a ter filhos se a forma de os fazer fosse, por exemplo, algo doloroso, como arrancar um pedaço da própria pele para confeccionar o seu filhote. Ui, só de pensar eu sinto dor! Realmente a maneira que fiz é mais que genial, é divina! E ainda que uma outra forma não doesse nada, mas fosse algo chato como, deixa ver... Hum... Enfrentar fila! Xii, já era, ninguém ia se animar não. Podia ser que uma meia dúzia de gatos pingados que quisessem muito ter filhos o fizessem, mas não ia pra frente não, ia ser muito difícil. Mas realmente eu fiz da forma certa, ual! Coisa de mestre! Bem ta certo que to pensando mais no sexo masculino, mas afinal eu também sou homem, não é? Bem, na minha constituição existem três pessoas, e uma delas é homem, e nenhuma é mulher. Ta certo que a representação do espírito santo é uma pomba, ih, ih, "pomba", mas isso não vale, é só uma representação. Ah Deixa para os movimentos feministas questionarem depois se a mulher é vista como objeto, afinal alguém tinha de se sacrificar pelo bem da espécie. Não são todas é verdade, algumas parecem que gostam, mas pelo que noto a maior parte gosta mesmo e de adquirir bens materiais, ih, ih! Bem, chega de falar disso, mas que o processo é sensacional mesmo é, a “pedra de toque” da evolução, hã, hã... Quero dizer criação, criação! [olhando para os lados para se certificar que ninguém tinha ouvido]. Mas o tempo urge, toca acabar com essa corja! Então deixa pensar aqui quem que eu vou escolher para se safar desta. Um sorteio! Não, não, acho melhor ver se tem uma familiazinha melhorzinha por aí, para que a próxima humanidade, pós-diluviana, seja melhor que esta. Vamos ver então quem eu escolherei, quais serão os felizardos. Puxa vida, agora é que a porca torce o rabo. Eu fiz muito mal em não manter um registro de todas as ações das pessoas, uma por uma desde que nasciam. Depois que eu começar tudo de novo não posso me esquecer de fazer isso, deixa anotar isso aqui, pois esta minha memória... [pega um rolinho de pergaminho e escreve]. Pronto, agora, se um dia eu resolver detonar tudo outra vez, aí fica fácil saber quem merece se safar e quem merece ir pro sal! É, acho que serei obrigado a criar umas duas repartições para lidar com estes problemas que foram criados por falta destes registros. Primeiro faço um lugar pra enviar todas as pessoas que eu não sei o que fizeram direito, pois não merecem serem condenadas por uma falha minha. Justiça é justiça. E eu faço questão de ser conhecido como “o justo”! Então crio um local neutro para estas pessoas irem depois que morrerem, um lugar sem perspectivas de melhora, mas também sem maiores desconfortos. Deixo pra quando minha Igreja existir ela dar um nome pra este lugar, e também para um outro que será um para eu mandar as pessoas que em vida não foram nem muito boas, nem tão ruins assim, mas nesta outra repartição terá perspectivas de melhorar o status, será uma espécie de campo de treinamento de etiqueta para aprenderem a se comportar na presença da divindade aqui! Pois se tem algo que eu não tolero é gente mal educada. E já fica estabelecido, que, dou total autonomia à minha a Igreja, quando ela estiver em atividade, para manter ou não estes lugares enquanto lhe aprouver. Mas para aqueles que forem maus mesmo, não tem colher de chá não, vai estar todo mundo na unha do Capeta! Principalmente os que não acreditarem que eu existo, quer coisa mais irritante que isso? Não suporto, e não perdôo, a não ser que se arrependam. Nossa já está escurecendo. Depois providencio estas coisas, mas agora eu vou ver quem escolho para salvar a ele e a sua família, pois desta vez vai ter que ser na base do sorteio mesmo. É isso aí, vou ficar ali onde aqueles dois caminhos se cruzam e o primeiro que apontar lá na curva daquela trilha será o escolhido.
NÃOé, O SORTUDO
[Deus esperando em um cruzamento de trilhas].
1. NÃOé!
2. Quem me chama?!
3. Sou Eu NÃOé, o Deus dos teus pais!
4. Dos meus pais?
5. Sim, e seu também NÃOé, o deus de todos.
6. Ah, é o Senhor? O Deus de meus pais, o único Deus? Aquele que nossos pais nos ensinam a amar, sem conhecermos, nos dizendo que só ao Senhor devemos adorar e que todos que adoram outros deuses estão condenados, mesmo que outros deuses não existam além de ti? Aliás, nunca entendi isso muito bem, Senhor. Como se pode adorar a outros deuses se eles não existem? Mas o Senhor também nós nunca vemos, assim como não vemos os outros deuses que não existem, mas sabemos por nossos pais que tu és verdadeiro e os outros não, e agora confirmo isso, pois o estou vendo, e concluo que meus pais estavam certos!
7. Pois é, sou Eu mesmo NÃOé.
8. O que me ordenas meu Senhor?
9. NÃOé, eu resolvi tacar fogo, ou melhor, água, nisso tudo aqui. Tudo o que existe na superfície da terra vai morrer, não vai sobrar nadinha pra contar história!
10. Por misericórdia Senhor, não faz uma barbaridade desta!
11. Acalme-se homem. Você e sua família serão poupados.
12. Ah, é?
13. Sim, NÃOé, pois eu fiz um sort.. ãh, ãh... Quero dizer, eu consultei meus arquivos de registro das ações e dos pensamentos dos homens, e confirmei lá que você é...é...o único justo! [apontando para NÃOé].
14. Eu, senhor?!! [pergunta apontando para si mesmo ao mesmo tempo em que olha para trás para ver se Deus se refere à outra pessoa].
15. Sim, você mesmo.
16. KÁ, KÁ, KÁ!
17. Do que ristes NÃOé? Acaso você não é NÃOé, o justo?
18. Não Senhor... quero dizer, sim, sim, sou eu mesmo, NÃOé, o justíssimo! Desculpa aí, eu sou sim o NÃOé, estou rindo de satisfação, de saber que valeu a pena eu sempre andar segundo os teus preceitos!
19. Ah bom, então ta.
20. Mas Senhor.
21. O que é?
22. Isso é realmente necessário acontecer? Quero dizer... Esta destruição de tudo? Sabe como é aqui eu ‘já estar estabelecida’, ‘tenho minhas negocio’, ‘começar da zerinha de novo, vai ser muito difícil’! ‘NÃOé vai ter muita prejuízo’!
23. Infelizmente tem que ser assim NÃOé, não tem outro jeito não.
24. O Senhor é que é mesmo o mesmo Deus dos meus pais, avós e todos os meus antepassados, não é? Não ta querendo passar a perna em NÃOé, não, não é?
25. Claro que EU sou o Eu sou, duvidas? [ameaçando com o dedo a soltar algum raio ou coisa parecida].
26. Não, não Senhor, longe de NÃOé duvidar de ti. Mas eu só estava pensando aqui com ‘as minhas botões’: um Deus tão poderoso como o Senhor, bem que podia acabar com as coisas de uma forma mais seletiva, não acha? O senhor podia olhar lá nos seus registros e acabar com a raça só dos que não valem um odre de vinho podre. Eu sei que ainda assim ia ser gente pra chuchu, mas assim NÃOé podia manter ‘suas terrinhas” e ‘suas rebanhos’, ‘plantações’, ‘tendas’, ‘ouro’, ‘ai. ai. ai NÃOé vai perder tudinha!’.
27. Cala a boca! Fecha logo esta matraca, antes que eu me arrependa de tê-lo escolhido!
28. Ta bom senhor, calma, calma... mas o Senhor não tem muitas opções não, não é, já que NÃOé é o único justo, como o senhor falou.
29. Bem, vamos ao que interessa. Ouça com atenção as minhas instruções. Você vai construir uma Arca que ficará conhecida como a ‘Arca-de-NÃOé’. Ela deverá medir trezentos côvados de comprimento, cinqüenta côvados de largura e trinta côvados de altura. Quando a Arca estiver pronta, você e sua família colocarão dentro dela um casal de cada animal que existe no mundo, entrarão nela com os bichos, eu fecharei a porta pelo lado de fora e então mando o toró! Quando as águas abaixarem, vocês sairão da Arca com a bicharada e começarão a se multiplicar de novo para povoar outra vez a terra.
30. [NÃOÉ, à parte: mas que trabalheira do cacete! Etâ planinho besta]! Ah, então ta facinho Senhor! Colocar um casal de cada bicho que existe na terra dentro desta Arca aí que nem vai ser tão grande assim, ta bom então. [irônico].
31. Isso mesmo NÃOé, vejo que compreendestes bem minha idéia, és meu fiel servo, e veja, como o mundo conhecido é só este por aqui, pelas bandas do oriente, então a empreitada não é tão absurda como pode parecer.
32. Não, não, não é não!
33. Aliás, me lembrei de uma coisa agora. Como é que Andão, ao me questionar sobre a nomeação dos animais, já tinha conhecimento das terras além-mar? Sujeitinho esperto viu! E ele nem tinha comido da árvore do conhecimento ainda.
34. O que senhor?
35. Nada, nada não. Eu falava aqui com os meus botões também.
36. Mas ainda assim é bicho pra mais de côvado Senhor!
37. Eu sei que é, e por isso mesmo que vou dar uma mãozinha e mandar os bichos já enfileiradinhos para a porta da Arca. Você e sua família só vão ter o trabalho de dar um empurrãzinho neles pra dentro do barco.
38. Ah assim é bem melhor! [com ironia]. Mas Senhor, os animais aquáticos também embarcarão?
39. Ih, ih, ih... mas como você é idiota NÃOé, chego a me preocupar com a qualidade do intelecto da futura humanidade, por acaso animal que vive na água afoga? Ih, ih, ih!
40. Uai, se afoga eu não sei. Acho que não. Mas será que não morrem ao se misturarem às águas-doces com as salgadas?
41. ! ? ...Bem... bem, deixa isso pra lá, agora toca construir a Arca, vai logo, NÃOé!
42. Senhor posso fazer uma última pergunta?
43. O que é desta vez, homem?
44. Vai demorar muito tempo até a gente sair da Arca?
45. Humm... Deixa-me ver... bastante, pois só de chuva vão ser quarenta dias e quarenta noites, por quê?
46. Não, nada não, besteira.
47. Ora pode dizer NÃOé, nada temas, pois que me agradei de ti e o escolhi.
48. Bem, Senhor, é que eu tava só imaginando aqui onde é que a gente e esta bicharada vai cagar durante este tempo todo.
49. Fooraaa daqui!
NA ARCA
Assustado, NÃOé se precipita no mato, e desaparece dos olhos do Senhor seu Deus.
Na Arca Nãoé conversava com seu filho SEM(tado), também chamado, segundo a situação, SEM(coragem), SEM(iniciativa), que assim fora denominado por inspiração Divina, uma vez que Deus sabia de antemão que quando ele estivesse na arca ele estaria sempre SEM(ânimo) para fazer nada.
1. Papai!
2. O que é meu filho?
3. É certo que tenhamos deixado tantos casais de animais por embarcar? Não temes que o Senhor Deus de nossos ancestrais descubra e nos castigue?
4. SEM (noção), meu filho, olha à tua volta. Mal podemos nos mover. Se me viro para um lado recebo na cara uma baforada fedorenta de alguma fera, se me mexo pra outro lado tenho a bunda espetada por chifres de algum outro bicho! Como tu querias que eu seguisse à risca as determinações divinas e embarcasse todos os animais?
5. Isso lá é verdade... Ui! [grita SEM(argumento) ao levar um coice de um veado que estava junto a ele].
6. Por falar nisso, papai pode ficar tranqüilo, que eu matei aquele casal de Pica-paus e o casalzinho de Cupins também, como me recomendastes!
7. Muito bem. Mas meu filho, eis que já é noite e chegada é a hora de tornarmos para perto de nossas esposas. Eu por meu turno to que não me agüento, pois depois de passar o dia inteiro assistindo estes animais copulando sem trégua, to doido pra “chegar junto” na velha!
8. Eu também, veio, vamos lá!
9. Então até amanhã SEM (sono), meu filho.
E dizendo isso, NÃOé, começou a se arrastar por cima do dorso dos animais amontoados por toda parte na Nave, e ia ouvindo os seus grunhidos, piados e rugidos, enquanto passava em cima deles.
[NÃOé acordando ao lado de sua mulher, ambos rodeados por muitos animais].
Na manhã seguinte NÃOé foi despertado pela barulhada dos bichos e pelo jato de vômito que sua mulher despejava-lhe em cima.
1. Arrrghhhh! Credo, o que é isso, mulher?!
2. Ai, ai, ai, me desculpe, meu marido, mas não agüentei segurar. Não posso mais suportar isso aqui! Este barco sacolejando sem parar, este fedor terrível de fezes e urina dos animais, a própria catinga que sai deles, esta barulheira dos infernos que eles fazem, dia e noite, sem um minuto de silêncio! Ai, ai, ai, porque você foi nos fazer embarcar? Eu preferia ter morrido!
3. Não blasfemes mulher!
4. Blasfemo, blasfemo, blasfemo o tanto que eu quiser seu velho desgraçado! E como se não bastasse todo este meu sofrimento, ainda tenho que agüentar você em cima de mim toda noite, dizendo que não pode evitar, porque fica excitado vendo estes animais safados se cobrindo o dia inteiro! [gritava a mulher, ensandecida]. Você devia se envergonhar seu imprestável! Seiscentos Anos e essa merda não amoleceu ainda!
5. Ué, eu devia é ter orgulho então, ih, ih. Ih.
6. Você se ri, né, mas você me paga! Ô sina minha, viu! Ah, mas ainda vou orar, fazer novena, pagar promessa, sair em procissão, qualquer coisa eu faço pra que Deus atenda o meu pedido e faça o Varão amolecer e perder suas forças de uma vez, no máximo, quando muito, ali pelos setenta anos. Eu sei que não vou viver pra ver estes dias felizes, mas no futuro todas as gerações de mulheres me chamarão Bem-Aventurada! Desapareça daqui, suma de perto de mim seu velho fedido! E me escute bem, a partir de hoje se quiser saciar seu instinto baixo vai ter que ser com um destes bichos aí que são tão tarados quanto você. Se te aproximares de mim de novo, esta porcaria que tens aí entre as pernas vai virar ração pras galinhas![Gritava a mulher de NÃOé, enquanto brandia um facão afiado apontando para o membro do marido, ao mesmo tempo em que o fuzilava com o olhar raivoso].
7. Ta bom, querida, ta bom. Mas não fique tão nervosa. Veja, nós só estamos na Arca há alguns dias e Deus disse que só de chuva seriam quarenta dias e quarenta noites. Pelos meus cálculos, até passar a tempestade e a enchente abaixar, acho que vamos ficar aqui mais ou menos um ano. Você vai regular este tempo todo, velha?
8. Velha é a meretriz da senhora sua mãe! Ordinário, traidor, você falou que seria pouco tempo. Eu não queria vir e você me enganou!
9. Mas meu amor.
10. Meu amor tua avó![avançando pra NÃOé, balançando a faca].
11. Mas você teria morrido.
12. Estaria muito melhor morta do que sepultada viva nesta tumba navegante, nesta latrina gigante! Ai, ai, ai não agüento mais, não agüento mais![berrava desferindo golpes no ar com o facão, tentando atingir as galinhas que ciscavam ali por perto].
NÃOé, assustadíssimo, afastou-se rapidamente rastejando-se por sobre os animais, até ir parar no lado oposto ao que a sua mulher se encontrava. No caminho ia afundando os pés, as mãos, ou às vezes caía de cara nos excrementos amontoados nos minúsculos espaços entre os corpos dos bichos. À medida que ele passava, os animais iam se afastando e movimentando-se. NÃOé reclamava então:
1. Aí de mim Senhor. O que fostes arranjar para o teu fiel servo Nãoé! Tu és Deus ou não é?! Não podias simplesmente ter estalado os dedos ou assoviado, e assim, transformado os homens maus em homens bons? Porém, se querias preservar o livre-arbítrio, não era mais fácil fulminar os maus como o raio faz com a árvore? Acaso não és tu maior e mais poderoso do que os raios? Ou não podia ter dado cabo deles com um discreto ataque cardíaco nos seus próprios leitos, não seria pelo menos mais humana, quero dizer mais Divina, esta maneira, do que deixar que todos se afogassem. Porque, meu Deus, por quê?!?
E assim transtornado, NÃOé, perdeu os sentidos e caiu entre um casal de camelos que o observava enquanto ruminavam indiferentes.
FORA DA ARCA
E eis que se passaram todos os dias e todas as noites que Deus havia determinado para que chovesse sobre a terra, e que NÃOé, sua família e os animais permanecessem na Arca. E tendo saído todos os tripulantes, NÃOé pegou animais puros e os ofereceu ao Senhor em holocausto, pois sabia que o Deus de seus ancestrais se agradava de um cheirinho de churrasco. E dizia:
1. Faço esta oferenda Senhor Deus, pois provastes mais uma vez que tu és o maior de todos os deuses, pois maior prodígio que nos salvar do dilúvio foi nos fazer agüentar lá dentro daquela joça, todo este tempo sem que morrêssemos de peste, tal a imundície que ali se concentrava!
E dizendo isso NÃOé e toda a sua família caiu de joelhos para agradecer ao Senhor. E tendo NÃOé plantado uma vinha, assim que esta deu frutos ele fez deles o vinho, tomou um porre daqueles e ficou pelado na sua tenda. Então um de seus filhos CAN (web) [assim chamado porque já se sabia de antemão que ele divulgaria a nudez do seu pai, e por isso é considerado hoje aquele em que se inspirou o inventor das WebCAM’s, que são pródigas em mostrar corpos nus na internet], pois CAN (web), ao ver seu pai nu (de forma absolutamente acidental), cai em desgraça, pois seus irmãos pouco dados ao voyeurismo, e muito chegados à delação (como bons descendentes de Andão, que havia delatado Evasiva por lhe dar para comer a fruta proibida), logo o deduraram para o velho, enquanto cobriam a sua nudez. NÃOé então, amaldiçoa o seu filho CAN (web), que, por azar, estava no lugar errado na hora errada. Mas certamente a culpa é mesmo de CAN (web) e não de NÃOé, que assim que se viu fora da Arca e em terra firme, não pensou em nada melhor para fazer do que encher a cara.
A TORRE do BÊ-A-BÁ-BEL
[Alguns operários da construção civil erguendo um muro]
Naquele tempo falava-se um único idioma no mundo inteiro. Não obstante ter sido dito o contrário antes, quando as escrituras afirmam: “foi destes que se separaram as populações das ilhas, segundo o seu país, língua, família e nação”. [Atribuindo esta discrepância à confusão do escritor divinamente inspirado, para não lançá-la nas costas de Javé, afirmando que foi mais um de seus lapsos de onisciência, podemos continuar a contar a história].
Javé então desce na terra para ver o que os homens estão fazendo [embora isso não seja necessário devido sua onisciência], e ouve o seguinte:
1. Cozinhemos tijolos e façamos piche para colá-los, afim de que possamos construir uma torre tão alta que chegue até o Céu!
Mas Deus que não dorme em serviço, e que não queria [sabe lá porque cargas d’água] que os homens entrassem em acordo e pudessem construir a tal torre, imediatamente entra em ação e diz de si para consigo no plural [apesar de ser um único deus, pois o contrário seria inadmissível para uma religião monoteísta, embora ele seja três também]:
Confundamos a língua dos homens para que eles não se entendam e assim não
possam conseguir o seu intento!
E então, contrariando sua tradicional maneira de optar por formas mais trabalhosas ao realizar as coisas [como, por exemplo, fazer mulher de costela, colocar todos os animais do mundo em um barco], com um simples passe de mágica ele enrola a língua da galera toda para que não mais entendessem uns aos outros.
2. Ô, Mete-o-dedo-red, passa aí pra mim uns tijolinhos, por favor.
3. Cachemir Bouquet, brad to ro?
4. O quê? To falando pra me dar mais uns tijolos aí! Endoideceu cara?
5. Babasuí ê lired canantê bana-cu!
6. Opa olha lá hem? Que saco, viu! Ô, engoli-rã-red, vem aqui um minuto, eu acho que o Mete-o-dedo-red ta ficando maluco, veio, eu to aqui no alto do andaime pedindo tijolos e...
7. Driscaslâmpida find daor mind?
8. Putz, não é possível, você também, o que será que deu na galera? [e virando-se para o andaime vizinho ao seu] Hei cara, tem uns tijolos sobrando aí, e um pouco de piche também? Os meus acabaram e não sei o que ta acontecendo com os serventes. Acho que este sol quente na cabeça fez mal pra eles, pois...
Mas antes de terminar de falar é atingido por uma tijolada e cai morto no chão, onde a confusão é generalizada. Entre beliscões murros, mordidas, tapas e pontapés, gritam todos ao mesmo tempo:
1. Alfmetzer Aalisch!
2. Vai você seu merdinha!
3. Brunk ast ligorot!
4. Piu non sono io!
5. Ta zua zuã!
6. Help, I need somebody, Help!
7. Cala a tua boca ordinário!
8. Zing gud vitada!
9. Madre di Dios!
10. Ai, ai, ai, não me mata, não me mata!
E desesperados, sem compreenderem mais o que tinha acontecido do que compreendiam uns aos outros, saíram correndo, separando-se em pequenos grupos e abandonando de vez o projeto da torre.
ABRÃOBOBÃO E SUAS FAÇANHAS
[Campo e tenda. Deus fala com ABRÃObobão].
E Deus aparecendo para o patriarca mais importante desta história, o ABRÃObobão, diz a ele para que saia de sua casa e de sua terra e vá para a terra que Ele lhe mostrará. E ABRÃObobão diz:
1. Mas Senhor, aqui eu ‘já estar estabelecida’!
2. Não sejas “mão-de-vaca”, ABRÃObobão, me obedeça e Eu farei da sua descendência uma mais numerosa que os graus de areia da praia.
3. Mas então vai haver muita gente ‘brá eu dividir herança’, ‘vai ser a ‘maior guebra-bau’!
4. Vai logo ABRÃObobão, não me aborreça com estas ninharias!
5. Ninharia ‘bro Zenhor’, ‘bra ABRÃObobão é muita dinhera’!
6. Ta, ta, ta, ta... Depois a gente vê isso, agora vai pra onde estou te mandando, antes que eu... [erguendo o braço em ameaça]
7. E assim ABRÃObobão pegou sua mulher Saradah (assim chamada por ser muito formosa de rosto e de corpo) e o seu sobrinho LÓ-róta e partiu. Quando eles estavam chegando ao Egito, ABRÃObobão disse a Saradah, sua mulher:
8. Saradah, minha mulher, eis que adentramos nas terras do Egito, e verdadeiramente tu és uma mulher muito atraente, bonita e gostosa até mandar parar! Se os egípcios que são um povo que não seguem o mesmo deus que nós, souberem que és minha mulher, com certeza vão me matar para ficar com você para eles. Por isso me faz ‘uma favorzinha’, fala ‘brá eles’ que você é minha irmã, ta?
9. Mas isso é mentira meu marido e nós somos crentes, e os crentes não mentem!
10. Mas é um caso de vida ou morte sua Anta! E onde ta escrito que crente não mente? Existe algum mandamento que o senhor nosso Deus nos deu para que seguíssemos?
11. Bem, acho que não, pelo menos até hoje eu não li nada, mas também eu não sei ler.
12. Mulher, nós já estamos chegando, não dá tempo pra ficar discutindo, ta entendido? Fala o que eu mandei!
13. Ta bom então.
Então o patriarca do povo de Deus, com esta mentira, consegue que os egípcios pensem que Saradah é a sua irmã e o faraó, acreditando então que ela era solteira, inocentemente pega a mulher pra ele. Todavia, Javé, sempre atento para demonstrar sua ‘justiça’, [cega] e fere o faraó com alguma praga por ele ter feito o que qualquer homem em seu juízo perfeito faria: comido a gostosa da Saradah, já que ela era livre e desimpedida. O faraó, quando descobre a verdade, chama ABRÃObobão e diz:
1. Mas você foi um bode traiçoeiro mesmo, hem, seu infeliz! Porque você mentiu dizendo que Saradah era sua irmã, para que eu pensasse que ela era livre? Agora o seu deus que sonda os corações e vê o íntimo deles, e enxerga todas as intenções de todos, parece que se enganou desta vez quanto as minhas intenções, pois se eu soubesse que ela era sua esposa não tinha deitado com ela. Você conta suas mentiras e seu deus faz com que eu pague o pato, né? Pois agora pegue sua mulher, seu sobrinho e seus bens e desapareça daqui!
Depois desta demonstração de covardia de ABRÃObobão, que mentiu dizendo que Saradah era sua irmã e não sua mulher, com medo de que os egípcios o matassem, Deus achou melhor mudar o seu nome para ABRAÃOcagão. E depois destes acontecimentos, saíram das terras do Egito ABRAÃOcagão, sua mulher Saradah e o seu sobrinho LÓ-róta. E os dois homens eram tão ricos e tinham tantos bens, como, gado, tendas, ouro, prata, que não puderam mais morar na mesma terra, pois que uma só região não podia comportar as posses de ambos.
[Campo. Tendas armadas. Saradah na porta de uma tenda, a certa distância ABRAÃOcagão conversa com Deus].
Deus fala sobre a descendência de ABRAÃOcagão. Chegam os três homens [que também são deus] Deus anuncia a destruição de duas cidades pecaminosas.
Então três homens que eram ao mesmo tempo (ao que parece), Anjos e o próprio Javé, apareceram sob uma árvore perto da tenda de ABRAÃOcagão.
O velho patriarca correu a arranjar lhes comida, pois reza o adágio: ‘anjo vazio não pára em pé’. Enquanto eles descansavam na sombra da árvore e o patriarca ia servindo o rango, Javé diz:
1. No próximo ano voltarei e sua mulher já terá um filho.
Saradah que estava na entrada da tenda ouviu aquilo e pensou: “Agora que já sou velha experimentarei o prazer e com marido tão velho”?Javé, então, pergunta para ABRAÃOcagão:
1. Porque Saradah riu?
2. Ah é? Ela riu? Não ouvi nada, riu de que, Senhor?
3. Do que eu disse. Que no ano que vem ela já terá um filho.
4. Mas ela nem está aqui perto, Senhor.
5. Ela ta ali, olha, na porta da tenda! [apontando com o dedo].
6. Ta com um ouvidinho bom, hem Javé?
7. Eu adivinhei seu idiota, se não fosse à mentira que contou, não teria mudado o seu nome de ABRAbobão para ABRAÃOcagão! Ela pensou assim, ó: “será que vou dar à luz agora que sou velha?”-Ora, por acaso existe algo impossível para o Javé aqui?
8. Acho que deve ser impossível para o Senhor escutar direito, ou adivinhar pensamentos corretamente [Diz Saradah se aproximando irritada], pois eu não ri e nem pensei isso!
9. Riu sim! [fala Javé irritado]
10. Não ri. E, aliás, se vai adivinhar o pensamento dos outros vê se adivinha corretamente, pois o que eu pensei foi; “será que agora depois de velha vou provar o prazer? E com marido tão velho?”Meus pensamentos não mencionaram nada sobre dar à luz, eu estava pensando em dar era outra coisa!
11. Só que eu adivinhei a verdadeira intenção dos seus pensamentos, mesmo que não tenha pensado nestas palavras.
12. Xiii, não vem que não tem não, deixe de moralismo, eu pensei foi ‘naquilo’ mesmo, olha que esta sua desculpa é furada, a emenda ta saindo pior do que o soneto. Nunca lestes nas escrituras que: “não se coloca remendo novo em soneto velho, pois o remendo novo pode estragar o soneto e nenhum dos dois sobrar”?
13. Saradah, não discuta com Javé nosso Deus!
14. Isso mesmo ABRAÃOcagão, mostre quem é que usa túnicas masculinas nesta casa! Por acaso ela não sabe que quem manda na mulher é o marido? E não adianta ela negar, pois ela riu sim!
15. Não ri não!
16. Riu.
17. Não ri!!
18. Riu, riu, riu!
19. Não ri, não ri, não ri!
20. Riu um bilhão de vezes!!
Então não dando mais atenção para Saradah, os três homens [que também deviam ser Javé, além de serem anjos também] se levantaram para ir embora e olharam para as duas cidades pecaminosas, e partiram para lá. Mas Javé ficou com ABRAÃOcagão. Então ABRAÃOcagão pensou: “realmente assim vai ficar difícil, no futuro, explicar que a nossa religião é monoteísta”. Mas, não obstante, Javé, já pensava em destruir as duas cidades pecaminosas, mas tinha uma dúvida e pensou: “será que devo esconder de ABRAÃOcagão, o que vou fazer”? E depois de muito pensar resolveu lhe contar e disse:
1. ABRAÃOcagão.
2. Aqui estou Senhor.
3. Eis que o clamor destas duas cidades é muito grande e o pecado deles é grave. Vou descer...
4. Mas já não está aqui, Senhor?
5. Psiuuu! Calado! Vou descer para ver se de fato as ações deles correspondem ao clamor que subiu até mim, então ficarei sabendo.
6. Ué está tendo novamente aqueles ‘brancos’ em sua onisciência Senhor!
7. É às vezes dá uns esquecimentos sim. Por isso acho melhor dar uma espiadinha de perto pra ter certeza.
8. Se o Senhor quiser conheço uma simpatia que é tiro e queda prá falta de memória-onisciente!
9. ABRAÃOcagão, não sabes que não vos é permitido estas crendices de adivinhos, benzedeiras, isso é pecado!
10. Ah é, eu tinha me esquecido, desculpe Senhor.
11. Pois então, é o que eu ia dizendo, vou dar uma olhadinha pra ver se a situação corresponde ao clamor e se assim for destruo as cidades inteiras.
12. Mas Senhor, tu destruirás o justo com o injusto?
13. O que te faz pensar que existam justos naquelas cidades.
14. Ora, “elementar meu caro Watson”, se não houvesse justos ali, quem é que clamaria ao senhor? Lembre-se que me dissestes que “grande foi o clamor”, então muitos devem ter se unido pra clamarem ao Senhor.
15. Humm!?
16. Pois é. Então suponhas que tenha uns cinqüenta justos lá. Mesmo assim destruirá tudo e todos?
17. Se tiver cinqüenta não destruirei.
18. Senhor!
19. O que é?
20. E se não chegar a cinqüenta, mas tiver, digamos, uns quarenta e cinco?
21. Por causa destes pouparei as cidades.
22. Mas e se tiver só trinta?
23. Arre, aonde quer chegar com isso, homem? Não é necessário ficar repetindo a mesma pergunta assim.
24. É um método chamado de Maiêutica Socrática, nunca ouvistes falar?
25. Não, e nem me interessa. Se tiver trinta, vinte, ou mesmo apenas dez eu não destruo, ta bom assim pra você?
26. Certo, certo, mas, Senhor?
27. O que é agora, mas que coisa! [grita Javé impaciente]
28. Eu tenho conhecimento de que em uma das cidades tem pelo menos o meu sobrinho que mora lá. Aliás, ele tem esposa e duas filhas, são quatro pessoas ao todo, Senhor.
29. Ah não, isso não. Quatro pessoas só não, se são apenas quatro, eles que se mudem de lá. Vou dar um tempinho pra eles saírem e depois vou deitar fogo e enxofre em tudo e todos que estiverem lá!
30. ? !Vai entender. Cara mais caprichoso este Javé [à parte]. Bem, Senhor, então eu espero que aqueles homens que saíram daqui, que também são anjos, e são, ao mesmo tempo, o Senhor também, avisem meu sobrinho.
31. Mas foi justamente pra isso que eu os mandei irem até lá. Nem tinha percebido, mas a minha onisciência deu uma melhorada, viu só? Eu já sabia que seu sobrinho estava lá, antes de você me contar.
32. Nossa que bom né Senhor? Parabéns! [fazendo escondido gesto de girar o indicador do lado da orelha, como a dizer que Javé não está batendo bem dos pinos].
SOMEDOMASEEUMORRA[Ou um capítulo com muitas vilanias para ser cômico]
Entrementes os dois anjos chegam a Somedomaseeumorra e Ló-rota pede para que eles fiquem hospedados em sua casa. Porém os anjos queriam ficar na praça. Mas Ló-rota instou para com eles afim de que fossem para a sua casa e eles foram. Chegando lá os anjos lavaram os pés (o que faz crer que foram na forma de homens e não voando) e logo que lá chegaram comeram, para que se confirmasse mais uma vez o dito “anjo vazio não pára de pé”. Tais necessidades alimentícias constantes poderiam servir no futuro para que os sacerdotes de Deus justificassem seus costumeiros apetites vorazes. Os homens-anjos ainda não se haviam deitado e eis que toda (atentemos para esta palavra), “toda” a população da cidade, do mais moço até o mais velho foram até a porta da casa de Ló-rota com uma finalidade mútua, no mínimo estranha e realmente incompreensível, da qual duvidaríamos, ainda que a aparência dos homens-anjos fosse mais atraente do que a de Marilyn Monroe no auge de sua forma.
1. Ló-rota!-gritou um dos que estavam na multidão. Entrega-nos seus hóspedes para que tenhamos relações com eles!
Um Leitor:
Aqui o texto realmente pede que tomemos fôlego, pois é de tal forma vil, que dificilmente se encontram exemplos tão maldosos, nem mesmo neste livro que é pródigo em absurdos!
Indignações de um Leitor:
Porque, por mais corrompidos que fossem os habitantes daquela cidade, eles teriam se sentido motivados a estabelecer práticas sexuais com homens recém chegados ali? Se a cidade era tão licenciosa como assegura os textos, certamente não seria matéria escassa em tais paragens mulheres não muito castas que estivessem dispostas a cederem de bom grado a tais atividades carnais, e estas poderiam ter atributos mais atraentes que os destes dois homens-anjos. Mas mesmo que a intenção fosse justamente o contato homossexual (as mulheres que ali estavam, já que toda a população compareceu, seriam apenas platéia? Estavam de acordo?) tais contatos não deviam também ser raros entre os habitantes daquela cidade, e estes que ali estavam querendo relações com os homens-anjos, as poderiam ter conseguido facilmente em outro lugar sem recorrer à anatomia angelical. Chegamos, no entanto, à única alternativa plausível (se assim podemos chamar algo descrito em qualquer parte deste livro santo), a alternativa de que tudo era desejo de Deus que tinha um propósito para que as coisas assim transcorressem. Mas se isso é fato, que culpa tinham estes homens se eram meras marionetes movidas pelos cordões que o seu deus controla? E mesmo que a explicação seja esta do desígnio divino, isso ainda não nos faz compreender o porquê das crianças da cidade também estarem presentes assistindo estas cenas. Pois elas estavam, já que foi dito que ‘todos’ os habitantes da cidade foram até ali com aquelas intenções. Mas eis o desfecho de tal semelhante absurdo:
1. Meus irmãos!
2. Grita Ló-rota!Por favor, eu lhes peço. Eu tenho duas filhas virgens ainda, eu as entregarei para vocês para que façam com elas o que bem entenderem, mas não toquem nestes homens, pois são meus hóspedes.
Ló-rota era realmente um filho de uma prostituta! Olha a proposta absurda que faz o ordinário! Podemos imaginar uma conversa entre dois dos agressores:
1. Humm suas filhas? Hummhummm, virgens? Hei Salimeleca, isso pode ser uma boa troca, o que é que você acha? Duas gostosinhas virgens em troca destes homens-anjos aí.
2. Ah, não sei não, Habacuquebão, pode ser que sim, mas por outro lado, você por acaso já transou com anjo”? E se o negócio for muito bão, veio, muito diferente, hem?
3. Bem, lá isso é, né? Pensando desta forma... mas mesmo assim, é trocar o certo pelo duvidoso, pois meninas virgens nós sabemos que são deliciosas, pois não são poucas as que temos violado. Já anjo? E se estas criaturas aí não tiverem nenhum buraco?
4. Uai tem que ter Habacuquebão, como é possível não ter?
5. Sei lá cara, eu já ouvi dizer que anjo não tem sexo, nunca ouviu não?
Entretanto, enquanto estes dois discutiam outras pessoas já tinham arrombado a porta da casa de Ló-rota para botar as mãos nos anjos, mas a ação foi frustrada por uma mágica que os mesmos fizeram e que cegou todo mundo!
1. Aí, ai, o que houve?
2. Sei lá, não to enxergando nada!
3. Não falei que devíamos ter aceitado as meninas?!
4. Mas o que é isso que eu estou segurando aqui?
5. Larga, desgraçado, é o meu instrumento que já estava preparado para entrar em ação!
6. E agora, e agora... Putz, fudeu mano!
O que podemos pensar da atitude sacana de Ló-rota? Louvá-lo por querer proteger os seus hóspedes ou execrá-lo por querer usar as filhas como escudos para os anjos, entregando-as para uma turba de tarados? Sem dúvida alguma até um assassino mutilador de suas vítimas e canibal, se inquirido sobre isso a propósito de suas próprias filhas, condenaria a atitude deste verme! Ele poderia ter implorado de joelhos aos homens da cidade ou poderia morrer lutando para salva-los. A única coisa inaceitável, que é oferecer as próprias filhas, foi o que ele fez. Porém não podemos o chamar de sádico, de louco ou de covarde! Pois tudo pode ser explicado pelo livro santo, já que se sabia de antemão que as filhas não seriam sacrificadas devido à interferência dos anjos. Mas mesmo assim a simples menção da proposta de Ló-rota é indigna. Lembremos também que mais adiante em um deste livro ‘sagrados’ em situação muito semelhante a esta, as mulheres são efetivamente entregues e morrem depois de serem violentadas inúmeras vezes [*]. Ao que parece não se sabe por que neste outro caso não aprove a Deus intervir para salva-las como fizeram os anjos (que eram o próprio Deus) com as filhas de Ló-rota. Estaria ele [Deus] naquele momento deste outro episódio que termina com o estupro de várias mulheres, prestando atenção em algum jogo esportivo para ajudar ao algum atleta, como deve fazer nas Olimpíadas, ou na Copa do Mundo [atendendo aos inúmeros pedidos por vitória evocados pelos contínuos benzimentos dos jogadores?] E assim se distraiu e não pode atender em tempo o apelo daquelas outras e desafortunadas mulheres?
Após estes terríveis episódios os anjos avisam Ló-rota do destino de Somidomaseeumorra, dizendo para que saísse da cidade com sua família, pois o bondoso Deus lançará fogo e enxofre do céu, para queimar todos os habitantes sejam jovens, crianças, velhos, mulheres, homens ou animais. Ló-rota que também era muito bondoso, assim como o seu Deus, ainda tenta salvar os seus futuros genros, mas eles não acreditam nele, o que é bem feito, pois como todos os habitantes da cidade estavam presentes na hora da tentativa de violentar os anjos, eles, então, lá se encontravam e nada fizeram para tentar salvar as suas noivas. Pelo menos uma linha de justiça nesta história, os desgraçados foram torrados pelo fogo! Mas quando a cidade começou a ser queimada, ao serem despejados do céu o fogo e o enxofre, a mulher de Ló-rota, que fugia com ele e com suas filhas, não resistiu e olhou para trás para ver os fogos de artifício. Porém isso fora proibido por Deus que a transformou em uma estátua de sal como castigo (qualquer semelhança com a mesma atitude de Orfeu na mitologia grega não é mera coincidência, mas apenas uma das centenas de incorporações de lendas mitológicas clássicas às lendas judaico-cristãs). Convenhamos que perto dos pecados da cidade ela não merecia uma coisa destas apenas por olhar os fogos, e, aliás, não sabemos se Ló-rota a avisou que não podia olhar, pois não consta que ele a tenha alertado quanto a isso. E talvez não o tenha feito mesmo, propositalmente, pois assim matava dois coelhos com uma única cajadada: livrava-se da mulher e ficava sozinho com as filhas virgens (uma vez que se verá mais à frente, neste livro santo que narra atitudes santas de santos homens, que as meninas embebedam o pai e cada uma, em noites sucessivas, se deitam com ele (pois não havia mulheres para procriar e dar descendência ao pai delas) O velho santo estava bêbado o suficiente para não saber o que estava fazendo, mas não tanto para que não pudesse transar com as próprias filhas. Etâ Nóis!
SARADAH, A PRECONCEITUOSA
Depois disso, no tempo marcado Saradah deu à luz a um filho que foi chamado de EuqasI[morri], pois que seu pai quase o mataria para provar que obedece a Deus. Estava Abraãocagão com cem anos e Saradah ficou admirada dele ter conseguido “dar no couro” [surpresa que demonstra que o pedido da mulher de NãoÉ, estava sendo atendido, e o’ varão’ estava amolecendo mais cedo]..
Como o filho de Saradah brincava com o filho de uma concubina de seu marido, Saradah, dando uma inquestionável demonstração de preconceito, diz para Abraãocagão:
1. Expulse essa escrava e o filho dela. Para que o filho dessa escrava não seja herdeiro com o meu filho EuqasI[morri].
Apesar de Deus ter dito a Andão que o homem é que era o senhor da casa, diz para Abraãocagão fazer o que a patroa mandou.
O BLEFE DE JAVÉ
[Abraãocagão e Euqasi[morri] subindo a serra]
1. Pai!
2. O que é meu fio?
3. Onde é que nóis ta indo?
4. Ali em cima da serra.
5. Fazê o que lá. Pai?
6. Passeá.
7. Mais pra que essa lenha toda, Pai?
8. Para fazê uma fogueira e esquentá a gente mió!
9. Mas pra que este facão, Pai?
10. É pra corta mió a carne.
11. Mas que carne, pai?
12. A carne do cordêro, meu fio.
13. Mas que cordêro, pai?
14. Um lá, que já, já ocê vai vê.
15. Pai!
16. O que que foi agora moleque?
17. Mas e se não aparecê cordêro nenhum lá no arto da serra?
18. Bem ai, depois a gente... Ufá, chegamo, até que enfim!
19. Não to vendo cordêro nenhum, pai.
20. Pois é, eu também, não. Olha me traz o facão aí e um pouco de lenha.
21. Mas pra que, pai?
22. Prá gente acendê o fogo, ora!
23. Mas nem ta de noite, e pra que o senhor quer a faca?
24. A faca é pro cordêro.
25. Mas que cordêr...
26. Óia cala essa boca moleque, ta me deixano nervoso! Traiz logo ai tudo que eu pedi e deita ali naquela pedra?
27. [EuqasI [morri] entrega a faca e um pouco de lenha]
28. Aqui nessa pedra?
29. É aí memo.
30. Mas pra que, pai?
31. Pra... Prá... prá tomá banho de Sor. Anda deita aí.
O menino deita-se na pedra Abracagão se aproxima e levanta o facão para golpear o garoto.
32. Paai!!
33. Arrhhg [nervoso, perdendo a concentração do golpe].
34. Mas o que é que é?
35. O que ocê vai fazê pai!?
36. Nossa senhora, mas que menino burro [falando à parte].
37. Vou cortá o seu cabelo, fecha os Óio.
Neste momento então, quando Abraãocagão se preparava novamente para aplicar o golpe fatal, um anjo aparece de repente, o que faz Abraãocagão levar um susto e atingir uma mecha de cabelo de EuqasI[morri], que ao ver seu cabelo cortado levanta-se e começa a correr atrás de um cordeiro que aparece, misteriosamente ali perto.
1. Óia pai, o cordêro!
2. Bem que o senhor falou, hem pai?! Vô pegá ele prá nóis!
3. Abraãcagão, [diz o anjo], não levantes mais a mão contra seu filho, pois o senhor Deus sabe agora que verdadeiramente tu és um servo fiel, visto que não negastes...
4. Puxa vida seu anjo, que susto, quase acertei o piralho! Ah, é? Agora ele tem certeza, né? Demorou hem? Já pensou se eu corto a cabeça desse moleque? O que que eu ia falá pra mãe dele?
5. Queira me desculpar Abraãcagão, mas eu estava atendendo outro chamado de ajuda, nós anjos estamos muito sobrecarregados ultimamente.
6. Ta certo, dos males o menor, né? Mas já ta na hora de Javé ter um pouquinho mais de confiança nimim, ne?
7. Ah, eu sei Abraãocagão, mas às vezes Deus fica um pouco deprimido e tem que se sentir adorado, sabe só isso faz com que ele melhore. Mas não liga não que ele te recompensará e você será o primeiro grande patriarca de suas nações!
8. Ah, é?! Tão ta bão, então, uai!
ABRAÃOGAGÃO É RACISTA
E depois destes acontecimentos, Abraãocagão disse ao seu servo [escravo] mais velho, que administrava suas propriedades.
1. Põe a mão embaixo da minha coxa.
2. O que? Eu heim? Ta me estranhando patrão?
3. Vai coloca a mão aí!
4. Eu não! Que é isso patrão, vai resolver sair do armário depois de velho?
5. Não é nada disso seu idiota, é que isso é uma coisa que a gente faz pra jurar.
6. Etâ, então ta, mas olha lá em? [diz o servo, colocando a mão com desconfiança].
7. Agora jure por Javé, o Deus do Céu e da terra, que quando for buscar esposa para meu filho EuqasI[morri], não escolherá uma filha de um Cananeu aqui deste lugar que eu moro.
8. Uai, mas por quê?
9. Porque essa gente não presta!
10. Mas bem que as terras dele servem pro senhor morar, né?
11. Não discuta comigo escravo! Jure que irá até minha terra natal pra buscar esposa pro meu filho!
12. Pra falar a verdade eu não to a fim de me meter nisso não. Por que ele mesmo não vai? Que frescura, velho. Sabe lá se a mulher que eu trouxer será do agrado dele? Eu vou acabar influenciado pelo meu próprio gosto para mulheres. Por exemplo, eu gosto de peito grande, bundão, e ele?
13. Bem... Eu acho que nem ele não sabe ainda isso, ele é virgem.
14. Ka, ka, ka, ka! Em que século este moleque acha que ta vivendo, cara? Ka, ka, ka, ka... Olha, sei não, será que ele é chegado mesmo?
15. Não se atreva a insultar meu filho!
16. Ta bom, ta bom, não precisa ficar irado. Eu vou buscar uma mulher pra ele. Mas olha, e se a mulher que eu escolher não quiser vir? Ela pode ser igual o senhor e achar que pra estas bandas de cá só tem gentalha. Aí o que eu faço, levo o EuqasI[morri] até a terra dela?
17. Nunca! Não faz isso de jeito nenhum!
18. Mas por quê?
19. Porque Deus me tirou da terra paterna e jurou me dar essa terra aqui, pra mim e para os meus descendentes. E você acha que eu ‘vai perder uma negócio de mão beijada, destas’?
20. Bem, mas se é assim, o seu filho poderia escolher uma mulher por aqui mesmo, isso ia me poupar um trabalhão.
21. Olha, chega de conversa, coloca a mão aqui embaixo da minha coxa.
22. Mas de novo?
23. É que você acabou não jurando e tirou a mão.
24. Ai, ai, ai, ai, ai... [reclama o servo, colocando novamente a mão embaixo da coxa de Abraãocagão].
25. Bem então agora jure, e fica combinado assim: se a mulher escolhida não quiser vir com você, ficarás desobrigado da promessa.
26. Ah, bom, assim sim, então eu juro.
O SERVO DE ABRÃAOGAGÃO ENCONTRA MULHER PARA O FILHO DO SEU SENHOR
Logo depois que Abraãocagão ‘bateu as sandálias’, seu servo foi procurar esposa para EuqasI[morri]. Estando, pois o servo de Abraãcagão perto de um poço de água viu uma mulher que vinha com um balde. Ela era muito bonita e virgem [teólogos estudiosos ainda não entraram num acordo dos motivos que fizeram o servo saber que ela era virgem só em olhá-la]. A mulher, então, se aproximou e deixou o homem beber água do seu balde. Assim ele soube que era a mulher procurada e disse de si para consigo: “verdadeiramente esta é a mulher que eu devo levar para o patrãozinho”, e voltando-se para ela disse:
1. Olha moça, você iria comigo?
2. Prá Que?
3. Para casar com o filho do meu falecido senhor, Abraãocagão?
4. Vem cá, eu te conheço!? Por que eu iria? Nem sei como é este moço aí que você ta falando pra eu casar!
5. Mas eu tenho que levar uma mulher daqui, pois esta é a terra natal do meu senhor.
6. Não vai dar não.
7. Então o servo pegou um anel de ouro que pesava cinco gramas e colocou nas narinas dela. Depois colocou nos braços dela um bracelete de ouro que pesava dez gramas.
8. Bem agora a coisa muda de figura! Vamos lá em casa falar com o meu irmão Lambão!
Ao encontrar Lambão, o servo resumiu a história neste termos:
1. A parada é a seguinte: Javé, o deus de meu senhor, abençoou muito meu senhor...
2. Num brinca?
3. É verdade, e meu senhor ficou muito rico. A mulher dele teve um filho mesmo quando o meu senhor e a esposa já estavam muito velhos, e ele me fez jurar que eu não arranjaria esposa pro filho dele na terra da gentalha, onde ele estava morando, mas que eu viria buscar aqui na terra natal dele. E disse que o senhor Deus mandaria um anjo para que eu tivesse sucesso na missão. Mesmo assim sua irmã não tinha aceitado o noivado, e eu podia ter ido embora e deixado o dito pelo não dito, uma vez que a recusa dela me desobrigava da promessa. Mas como eu acho que ela é muito gostosa e que meu patrãozinho vai ficar muito contente com um mulherão destes, eu insisti, e depois que eu lhe ofereci uns presentes ela aceitou, mas disse precisar vir falar com o irmão dela que é você.
4. Não adianta, meu bom homem, o ditado nunca falha: "mulher gosta é de dinheiro, quem gosta de peru é bicha!” disse Lambão. Pega ela e leva!
5. Hei o que é isso?! Pêra aí! [disse a mulher]. Não vai ter mais nenhum presentinho não?
6. Num te falei? Então o servo pegou jóias de prata e de ouro e um vestido e deu pra mulher. Ela, vendo que o noivado era com um homem de posses foi com ele para se encontrar com o seu futuro marido.
7. Quando eles se aproximaram das terras, EuqasI[morri] tinha saído para dar uma olhadinha no crepúsculo, e quando avistou a mulher já ficou de ‘barraca armada’ de tão bela que era ela. Introduzindo-a, então, rapidamente na barraca, introduziu também rapidamente nela aquilo que erguera a sua ‘outra barraca’, mas ela não concebeu.
ISAÚH E JACÚ
A mulher de EuqasI[morri] fez então tratamento de fertilidade com Javé, pois ela era estéril. E como acontece em grande parte dos tratamentos para engravidar, lhe vieram gêmeos. E aconteceu que antes de nascer os gêmeos já brigavam dentro dela.
1. Aí, aí, ai, e agora Javé?A festa acabou/EuqasI gozou/fiquei prenha de dois/Javé e agora?/e depois?/irmão com irmão/um com o outro brigou/que amolação, esta gravidez que demora/Javé, e agora?
2. Não se preocupe, disse Javé, é que no seu ventre há duas Nações, dois povos se separam em suas entranhas. Um povo vencerá o outro e o mais velho servirá o mais novo.
3. Credo eu hem?!
Quando chegou à hora do parto o primeiro que saiu era ruivo e peludo e lhe deram o nome de Isaúh! [pois este nome soava como o grito de alguém que ganha uma corrida]. O segundo saiu segurando o calcanhar do irmão e por isso foi chamado de Jacú [tanto por ter perdido a corrida e nascido atrás do irmãocomo por esta circunstância ter feito com que ele ficasse em uma posição em que ‘Já’ podia ver o ‘Cu’ do seu irmão].
Quando nasceram seu pai tinha sessenta anos. [o que novamente demonstra que estava valendo a previsão da mulher de NãoÉ, e o ‘varão’ precisava chegar junto mais cedo, pois que também amolecia com menos idade].
O DIÁLOGO ENTRE ISAÚH! E JACÚ
[Judeu de Verdade Vende até Direito de Primogenitura]
[Jacú cozinhando. Isaúh! Chega esgotado de tanto trabalhar]
1. Puxa maninho, o que você ta cozinhando aí?
2. Não vem que não tem. É só pra mim.
3. Que isso mano? Deixa de ser egoísta, eu trabalhei o dia todo.
4. To nem aíiii!!!
5. Dá-me um pouquinho, o que é isso aí?
6. Sopa de lentilhas.
7. Nossa! Meu prato favorito! Ah, não, você vai ter que me dar um pouco!
8. E tem pão também, olha [mostrando o pão e escondendo em seguida].
9. Então vamos comer, disse Isaúh pegando uma colher e aproximando ela da panela. Mas Jacu o golpeia na mão com outra colher.
10. Aí, que é isso?
11. Na, na, ni, na, não!
12. Jacu, meu irmãozinho, me deixa comer um pouquinho, por favor, eu to faminto e cansado.
13. Bem... Se quiser comer esta sopa de lentilhas vai ter que me dar uma coisa.
14. O que? Olha lá em? Eu sou espada!
15. O seu direito de primogenitura.
16. O meu o quê?!?
17. Seu direito de primogenitura. É o direito que você tem de ser o primeiro filho porque nasceu uns segundinhos de nada na minha frente. [falou aborrecido].
18. Só isso? Ué pode ficar então, onde eu assino?
19. Não tem que assinar nada, é só concordar.
20. Então fechado, eu lá quero saber dessa porcaria? Quero é ‘calçar o peito’ com essa sopinha!
21. Então pode comer. A partir de hoje eu é que sou o primogênito!
22. Eu heim? Cada louco com sua mania.
JAVÉ APARECE PARA EUQASI
1. Não desça para o Egito.
2. Não?
3. Não, não.
4. Nem sabia que eu ia descer pra lá.
5. Fique na terra que eu lhe disser. Pois eu darei todas estas terras a você e a seus descendentes.
6. Belezzz!
Mas os homens do lugar onde ele morava perguntaram sobre Re[bola à beça]beca. E EuqasI, que havia herdado o caráter de seu pai, também se cagou de medo deles o matarem para ficar com sua esposa e disse que ela era sua irmã, mentindo igual o seu pai. Mas curiosamente, assim como os egípcios, todos os povos que ‘não são o povo de deus’ parecem não ter malícia de desejar a mulher do outro e estas intenções parecem que são peculiares do povo de Javé, já que eles temem tanto isso, o que acaba não se justificando. Quem parece que tem a mente deturpada é o ‘povo de deus’ que sempre está achando que todo mundo quer matá-los para comer a sua mulher, projetando talvez no outro os seus próprios desejos.
Tanto é verdade, que ABIMELECA, rei dos FilhosteusdaPQpariu, assim como o faraó, chama EuqasI e lhe diz:
1. É claro que ela é tua mulher.
2. Porque disse que era tua irmã? Se a tivéssemos ‘catado’ atrairíamos a ira de seu deus até nós.
3. Fiz isso porque pensei que me matariam.
4. Olha aqui seu merdinha, vou dar ordem pra ninguém tocar em sua mulher, mas vê se não faz mais isso. Mentir é muito feio. Seu deus não ensinou isso não? E além do mais, por mais boazuda que seja a sua mulher, nós também temos mulheres gostosas no nosso povo e não estamos matando cachorro a grito e nem jacaré a beliscão!
.
De Como Jacu, não Satisfeito de Ter Ludibriado o Irmão para Roubar-lhe a Primogenitura, passou também a Perna nele para conseguir para Si a Benção que por Direito era do Irmão.
EuqasI ficou velho e seus olhos enfraqueceram. Não enxergava mais nada. Chamou Isauh, que era o mais velho e disse:
1. Meu filho.
2. Aqui estou meu pai.
3. Veja. Estou velho e não sei quando vou morrer. Pegue suas armas, flechas e arco, vá ao campo e traga-me alguma caça. Prepare-me um bom prato do jeitinho que eu gosto, e traga para eu comer e aí eu te abençôo antes de bater as canelas.
Re[bola à beça]beca ouviu tudo e mandou Jacu ir pegar dois cabritos que já tava no jeito para ela preparar pro velho, enquanto Isauh ralava na caçada, e ela falou pra Jacu se passar pelo irmão para ganhar a benção no lugar dele.
Nova Indignação de um Leitor: Eta Gentalha Sagrada! Só sabem mentir e fazer trapaça!
1. Mas mãe, por que ta indo assim contra Isauh?
2. Ará!
3. Ele também é seu filho. Ta fazendo isso só porque ele é feio e peludo?
4. É. Ele é feio, muito feio e peludo. O seu pai não sabe, mas ele é filho do empregado do seu avô Abraãocagão. Aquele servo que foi me buscar pra casar com o seu pai. Sabe como é. Você já é bem crescidinho agora, já posso contar. O servo do seu avô Abraãocagão não era nenhum bobão e seu pai EuqasI é meio pastel. Então enquanto a gente estava viajando pra eu encontrar o seu pai pra casar com ele, o servo chegava o reio em mim direto! Pronto, contei! Ah que saudade... Bem... bem então vai lá.
5. Ah então é por isso que ele é peludo desse jeito e eu não? Mas mãe, ô mãe, nós não somos gêmeos?
6. Bem aí já é mistério de Deus e não devemos questionar.
7. ?
8. Agora vai logo antes que o seu irmão ganhe a benção.
9. Ta certo mãe, to indo lá.
10. Então Jacu foi e depois do prato preparado ele levou a comida até seu pai.
11. Pai!
12. Aqui estou.
13. To vendo, o cego aqui é o senhor, veio.
14. Es tu, meu filho?
15. Sim pai, sou eu seu filho Isauh o seu primogênito [disse Jacu].
16. Mas como você encontrou a caça tão depressa, meu filho?
17. Ora, pai, o senhor Deus colocou ela lá de jeito pra mim [disse , dando uma risadinha em off].
18. Eh, eh, este nosso deus é bão mesmo, hem?
19. Se é, pai, se é.
20. Então chegue aqui pra eu te apalpar e senti se é você mesmo o meu fio Isauh.
21. Mas pra que isso pai? Sou eu sim.
22. Então vem cá, uai.
23. Pai, este teu sotaque não ta errado não? O senhor ta falando como se fosse caipira, mas o senhor é judeu.
24. ‘Bôcha’ vida ‘minha filhinha tu está certinha’, EuqasI, ‘seu babai’, já tinha esquecido até da ‘sodaque’. Então chega aqui ‘brá eu’ te abençoar.
Então EuqasI apalpou sobre as roupas que eram de Isauh e que Jacu tinha vestido e pensando que era Isauh que ali estava o abençoou.
Assim que terminou Isauh voltava correndo com um saboroso prato para o seu pai e disse:
1. Que meu pai se levante e coma da caça que eu preparei, e me abençoe.
2. Quem é você?
3. Ora, além de cego ta caduco? Sou eu seu filho Isauh que o senhor pediu pra ir caçar e preparar um prato para o senhor para que o senhor me abençoasse.
4. Mas então quem veio antes? Eu já abençoei o que veio antes e abençoado ele ficará.
5. Porra pai, nos tapearam, me abençoa também, me abençoa!
6. Então foi seu irmão Jacu que veio com astúcia e tomou a benção que era sua.
7. Então não é com razão que ele se chama Jacu, pois é esperto.
8. Não se esqueça que o nome Jacu lhe foi dado também por causa dele nascer logo atrás de você e então ele Já [avistava o seu] Cu!
9. Ah é.. ka.. ká..ká! Mas pai, vai lá vai, me abençoa aí também então. Não é possível que o senhor só tenha uma benção.
10. Nada disso.
11. E dizendo isso EuqasI ficou em silêncio.
12. Pai! Abençoa-me, abençoa..., isso não é justo! [gritava Isauh batendo o pé no chão fazendo birra].
13. EuqasI então lhe disse:
14. A sua morada será longe da terra fértil e sem o orvalho que desce do Céu. Você viverá da sua espada e servirá a seu irmão. Mas quando você se revoltar sacudirá o jugo do seu pescoço.
15. Que merda é essa que o senhor ta falando aí? Não to entendendo nada. Além de não abençoar, ainda roga praga! Putaquepariu, meu, é isso que eu ganho de te feito tudo que o senhor me pediu, enquanto o velhaco do meu irmão que já me tapeou uma vez nessa história de primogenitura me passou a perna de novo, e trouxe uns cabritos que ele nem teve trabalho de cozinhar, pois aquela sem vergonha da sua mulher, a minha mãe, é que preparou pra ele. Pois antes do senhor morrer é bom que saiba que esta sua benção também não deve valer porcaria nenhuma, pois nós somos filhos é do servo do vovô, aquele que foi buscar a mamãe pra casar com o senhor, pois ele me contou um dia que ele trepou com ela a viagem inteira e ainda por cima comia ela quase toda noite quando o senhor tava dormindo, e... Pai... Pai? Xiii acho que foi demais pra ele esta notícia, o veinho bateu com as dez. Vamos lá cadê aquele safado do Jacu!
Então Isauh!! Começa a odiar Jacu. Re[bola]beca, mãe dos dois protege o trapaceiro do Jacu e manda que ele vá morar com seu tio Lambão. Isauh!!! Vê que o irmão foi buscar esposa nas terras do tio, pois seu pai abominava as Cananéias [como todo bom homem santo que não faz acepção de pessoa]. Este Isauh!! Então foi para a casa de IS MY WELL (Ismael), que assim se chamava por ser dono da primeira agência matrimonial, e seu slogan era este que dizia que na sua agência encontrariam sempre quem “é seu bem”. Ali Isauh!! Apesar de já possuir outras esposas, arranjou mais uma chamada Maelet (Má eleita), que se revelaria uma má escolha, o que é bem feito tanto para a agência pretensiosa do Is My Well, quanto para o próprio Isauh!! Pela sua gulodice de querer tantas pererecas, o que ficou, desde então, e até antes disso, estabelecido como normal uma vez que os patriarcas antigos do livro santo assim procediam, para glória de Deus e a felicidade dos Mórmons!
[Deus sozinho, entre nuvens].
Eis que me arrependo de ter criado o homem. Ele é mau. Os desígnios do seu coração são ruins. Também pudera. O que é que eu poderia esperar de criaturas feitas a partir daquelas fórmulas do Cramulhão? Aliás, o que será feito dele depois que lhe arranquei as perninhas, ih, ih, ih, por ter dado o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal para Evasiva. Ele fugiu dizendo que ia criar um reino próprio e arregimentar algumas legiões para fundar uma oposição. Não é à toa que um de seus apelidos é “Canhoto”, é de esquerda mesmo a praga! Bem, aí está o resultado de eu ter usado aquelas fórmulas dele: gentalha! Mas fico pensando às vezes. Eu, sendo onisciente, porque não fiquei sabendo antecipadamente o que iria acontecer para evitar tudo isso? Afinal as pobres criaturas não pediram para vir ao mundo, e agora vou ter que destruir todo mundo, e deve ser um pouco desagradável ser aniquilado. Melhor seria nunca terem existido. Mas deixa estas questões para que os teólogos tenham futuramente o que discutir. Agora é decidir a forma de acabar com tudo isso de uma vez. Como vai ser? Deixa ver... Com água? Não, não, acho melhor fogo. O fogo é mais garantido. Mas e se depois, mais tarde, eu me arrepender de novo? E se eu, desta vez, me arrepender de ter destruído tudo, assim como me arrependi agora de ter criado o homem? Uma coisa é certa, já não posso confiar muito na minha memória, acho que ela é que está causando estas falhas na minha onisciência. Então talvez seja melhor eu destruir tudo com água. Pois se amanhã eu me arrependo, fica o feito pelo não feito, pois a água inunda tudo e afoga todas as criaturas, mas depois que escoar, como se diz, ‘lavou ta novo’, aí o mundo vai ta novinho, e se eu quiser começo tudo outra vez. Então está decidido: água! Xii... Mas onde será que foi que eu coloquei as fórmulas daquela Besta?! Ta certo que deu nesta porcaria, mas sem elas eu não sei direito o que fazer, eu tenho que me orientar por elas, aí depois eu vou corrigindo umas coisas, tomo o cuidado de cortar aquela droga de árvore lá do Éden, e deixo este negócio de livre-arbítrio fora do meu projeto, pois já vi que com isso não vai rolar não! E agora, com mil diabos, onde eu botei aqueles pergaminhos? Ah, mas espera aí! E se eu guardar alguém para semente? Eu posso escolher uma família aí que eu não vou deixar afogar. Mas como? Talvez eu possa colocar eles no topo de uma montanha bem alta! É, pode dar certo. Daí depois que a água abaixar eles descem e pronto, é só começar a procriar de novo. Não, montanha não. Aí eu não poderia deixar a água subir totalmente. Um barco então! Isso, um barco bem grande! Aí sim, depois o pessoal desce e começa a procriação. Ih, ih, aliás, digam o que disserem da minha criação, qualquer um tem que admitir que a invenção deste método de procriar, foi coisa de gênio mesmo! Escolher este processo que eu escolhi faz com que a perpetuação da humanidade e de todas as outras criaturas se garanta sozinha até o fim dos tempos. Queria ver quem se animaria a ter filhos se a forma de os fazer fosse, por exemplo, algo doloroso, como arrancar um pedaço da própria pele para confeccionar o seu filhote. Ui, só de pensar eu sinto dor! Realmente a maneira que fiz é mais que genial, é divina! E ainda que uma outra forma não doesse nada, mas fosse algo chato como, deixa ver... Hum... Enfrentar fila! Xii, já era, ninguém ia se animar não. Podia ser que uma meia dúzia de gatos pingados que quisessem muito ter filhos o fizessem, mas não ia pra frente não, ia ser muito difícil. Mas realmente eu fiz da forma certa, ual! Coisa de mestre! Bem ta certo que to pensando mais no sexo masculino, mas afinal eu também sou homem, não é? Bem, na minha constituição existem três pessoas, e uma delas é homem, e nenhuma é mulher. Ta certo que a representação do espírito santo é uma pomba, ih, ih, "pomba", mas isso não vale, é só uma representação. Ah Deixa para os movimentos feministas questionarem depois se a mulher é vista como objeto, afinal alguém tinha de se sacrificar pelo bem da espécie. Não são todas é verdade, algumas parecem que gostam, mas pelo que noto a maior parte gosta mesmo e de adquirir bens materiais, ih, ih! Bem, chega de falar disso, mas que o processo é sensacional mesmo é, a “pedra de toque” da evolução, hã, hã... Quero dizer criação, criação! [olhando para os lados para se certificar que ninguém tinha ouvido]. Mas o tempo urge, toca acabar com essa corja! Então deixa pensar aqui quem que eu vou escolher para se safar desta. Um sorteio! Não, não, acho melhor ver se tem uma familiazinha melhorzinha por aí, para que a próxima humanidade, pós-diluviana, seja melhor que esta. Vamos ver então quem eu escolherei, quais serão os felizardos. Puxa vida, agora é que a porca torce o rabo. Eu fiz muito mal em não manter um registro de todas as ações das pessoas, uma por uma desde que nasciam. Depois que eu começar tudo de novo não posso me esquecer de fazer isso, deixa anotar isso aqui, pois esta minha memória... [pega um rolinho de pergaminho e escreve]. Pronto, agora, se um dia eu resolver detonar tudo outra vez, aí fica fácil saber quem merece se safar e quem merece ir pro sal! É, acho que serei obrigado a criar umas duas repartições para lidar com estes problemas que foram criados por falta destes registros. Primeiro faço um lugar pra enviar todas as pessoas que eu não sei o que fizeram direito, pois não merecem serem condenadas por uma falha minha. Justiça é justiça. E eu faço questão de ser conhecido como “o justo”! Então crio um local neutro para estas pessoas irem depois que morrerem, um lugar sem perspectivas de melhora, mas também sem maiores desconfortos. Deixo pra quando minha Igreja existir ela dar um nome pra este lugar, e também para um outro que será um para eu mandar as pessoas que em vida não foram nem muito boas, nem tão ruins assim, mas nesta outra repartição terá perspectivas de melhorar o status, será uma espécie de campo de treinamento de etiqueta para aprenderem a se comportar na presença da divindade aqui! Pois se tem algo que eu não tolero é gente mal educada. E já fica estabelecido, que, dou total autonomia à minha a Igreja, quando ela estiver em atividade, para manter ou não estes lugares enquanto lhe aprouver. Mas para aqueles que forem maus mesmo, não tem colher de chá não, vai estar todo mundo na unha do Capeta! Principalmente os que não acreditarem que eu existo, quer coisa mais irritante que isso? Não suporto, e não perdôo, a não ser que se arrependam. Nossa já está escurecendo. Depois providencio estas coisas, mas agora eu vou ver quem escolho para salvar a ele e a sua família, pois desta vez vai ter que ser na base do sorteio mesmo. É isso aí, vou ficar ali onde aqueles dois caminhos se cruzam e o primeiro que apontar lá na curva daquela trilha será o escolhido.
NÃOé, O SORTUDO
[Deus esperando em um cruzamento de trilhas].
1. NÃOé!
2. Quem me chama?!
3. Sou Eu NÃOé, o Deus dos teus pais!
4. Dos meus pais?
5. Sim, e seu também NÃOé, o deus de todos.
6. Ah, é o Senhor? O Deus de meus pais, o único Deus? Aquele que nossos pais nos ensinam a amar, sem conhecermos, nos dizendo que só ao Senhor devemos adorar e que todos que adoram outros deuses estão condenados, mesmo que outros deuses não existam além de ti? Aliás, nunca entendi isso muito bem, Senhor. Como se pode adorar a outros deuses se eles não existem? Mas o Senhor também nós nunca vemos, assim como não vemos os outros deuses que não existem, mas sabemos por nossos pais que tu és verdadeiro e os outros não, e agora confirmo isso, pois o estou vendo, e concluo que meus pais estavam certos!
7. Pois é, sou Eu mesmo NÃOé.
8. O que me ordenas meu Senhor?
9. NÃOé, eu resolvi tacar fogo, ou melhor, água, nisso tudo aqui. Tudo o que existe na superfície da terra vai morrer, não vai sobrar nadinha pra contar história!
10. Por misericórdia Senhor, não faz uma barbaridade desta!
11. Acalme-se homem. Você e sua família serão poupados.
12. Ah, é?
13. Sim, NÃOé, pois eu fiz um sort.. ãh, ãh... Quero dizer, eu consultei meus arquivos de registro das ações e dos pensamentos dos homens, e confirmei lá que você é...é...o único justo! [apontando para NÃOé].
14. Eu, senhor?!! [pergunta apontando para si mesmo ao mesmo tempo em que olha para trás para ver se Deus se refere à outra pessoa].
15. Sim, você mesmo.
16. KÁ, KÁ, KÁ!
17. Do que ristes NÃOé? Acaso você não é NÃOé, o justo?
18. Não Senhor... quero dizer, sim, sim, sou eu mesmo, NÃOé, o justíssimo! Desculpa aí, eu sou sim o NÃOé, estou rindo de satisfação, de saber que valeu a pena eu sempre andar segundo os teus preceitos!
19. Ah bom, então ta.
20. Mas Senhor.
21. O que é?
22. Isso é realmente necessário acontecer? Quero dizer... Esta destruição de tudo? Sabe como é aqui eu ‘já estar estabelecida’, ‘tenho minhas negocio’, ‘começar da zerinha de novo, vai ser muito difícil’! ‘NÃOé vai ter muita prejuízo’!
23. Infelizmente tem que ser assim NÃOé, não tem outro jeito não.
24. O Senhor é que é mesmo o mesmo Deus dos meus pais, avós e todos os meus antepassados, não é? Não ta querendo passar a perna em NÃOé, não, não é?
25. Claro que EU sou o Eu sou, duvidas? [ameaçando com o dedo a soltar algum raio ou coisa parecida].
26. Não, não Senhor, longe de NÃOé duvidar de ti. Mas eu só estava pensando aqui com ‘as minhas botões’: um Deus tão poderoso como o Senhor, bem que podia acabar com as coisas de uma forma mais seletiva, não acha? O senhor podia olhar lá nos seus registros e acabar com a raça só dos que não valem um odre de vinho podre. Eu sei que ainda assim ia ser gente pra chuchu, mas assim NÃOé podia manter ‘suas terrinhas” e ‘suas rebanhos’, ‘plantações’, ‘tendas’, ‘ouro’, ‘ai. ai. ai NÃOé vai perder tudinha!’.
27. Cala a boca! Fecha logo esta matraca, antes que eu me arrependa de tê-lo escolhido!
28. Ta bom senhor, calma, calma... mas o Senhor não tem muitas opções não, não é, já que NÃOé é o único justo, como o senhor falou.
29. Bem, vamos ao que interessa. Ouça com atenção as minhas instruções. Você vai construir uma Arca que ficará conhecida como a ‘Arca-de-NÃOé’. Ela deverá medir trezentos côvados de comprimento, cinqüenta côvados de largura e trinta côvados de altura. Quando a Arca estiver pronta, você e sua família colocarão dentro dela um casal de cada animal que existe no mundo, entrarão nela com os bichos, eu fecharei a porta pelo lado de fora e então mando o toró! Quando as águas abaixarem, vocês sairão da Arca com a bicharada e começarão a se multiplicar de novo para povoar outra vez a terra.
30. [NÃOÉ, à parte: mas que trabalheira do cacete! Etâ planinho besta]! Ah, então ta facinho Senhor! Colocar um casal de cada bicho que existe na terra dentro desta Arca aí que nem vai ser tão grande assim, ta bom então. [irônico].
31. Isso mesmo NÃOé, vejo que compreendestes bem minha idéia, és meu fiel servo, e veja, como o mundo conhecido é só este por aqui, pelas bandas do oriente, então a empreitada não é tão absurda como pode parecer.
32. Não, não, não é não!
33. Aliás, me lembrei de uma coisa agora. Como é que Andão, ao me questionar sobre a nomeação dos animais, já tinha conhecimento das terras além-mar? Sujeitinho esperto viu! E ele nem tinha comido da árvore do conhecimento ainda.
34. O que senhor?
35. Nada, nada não. Eu falava aqui com os meus botões também.
36. Mas ainda assim é bicho pra mais de côvado Senhor!
37. Eu sei que é, e por isso mesmo que vou dar uma mãozinha e mandar os bichos já enfileiradinhos para a porta da Arca. Você e sua família só vão ter o trabalho de dar um empurrãzinho neles pra dentro do barco.
38. Ah assim é bem melhor! [com ironia]. Mas Senhor, os animais aquáticos também embarcarão?
39. Ih, ih, ih... mas como você é idiota NÃOé, chego a me preocupar com a qualidade do intelecto da futura humanidade, por acaso animal que vive na água afoga? Ih, ih, ih!
40. Uai, se afoga eu não sei. Acho que não. Mas será que não morrem ao se misturarem às águas-doces com as salgadas?
41. ! ? ...Bem... bem, deixa isso pra lá, agora toca construir a Arca, vai logo, NÃOé!
42. Senhor posso fazer uma última pergunta?
43. O que é desta vez, homem?
44. Vai demorar muito tempo até a gente sair da Arca?
45. Humm... Deixa-me ver... bastante, pois só de chuva vão ser quarenta dias e quarenta noites, por quê?
46. Não, nada não, besteira.
47. Ora pode dizer NÃOé, nada temas, pois que me agradei de ti e o escolhi.
48. Bem, Senhor, é que eu tava só imaginando aqui onde é que a gente e esta bicharada vai cagar durante este tempo todo.
49. Fooraaa daqui!
NA ARCA
Assustado, NÃOé se precipita no mato, e desaparece dos olhos do Senhor seu Deus.
Na Arca Nãoé conversava com seu filho SEM(tado), também chamado, segundo a situação, SEM(coragem), SEM(iniciativa), que assim fora denominado por inspiração Divina, uma vez que Deus sabia de antemão que quando ele estivesse na arca ele estaria sempre SEM(ânimo) para fazer nada.
1. Papai!
2. O que é meu filho?
3. É certo que tenhamos deixado tantos casais de animais por embarcar? Não temes que o Senhor Deus de nossos ancestrais descubra e nos castigue?
4. SEM (noção), meu filho, olha à tua volta. Mal podemos nos mover. Se me viro para um lado recebo na cara uma baforada fedorenta de alguma fera, se me mexo pra outro lado tenho a bunda espetada por chifres de algum outro bicho! Como tu querias que eu seguisse à risca as determinações divinas e embarcasse todos os animais?
5. Isso lá é verdade... Ui! [grita SEM(argumento) ao levar um coice de um veado que estava junto a ele].
6. Por falar nisso, papai pode ficar tranqüilo, que eu matei aquele casal de Pica-paus e o casalzinho de Cupins também, como me recomendastes!
7. Muito bem. Mas meu filho, eis que já é noite e chegada é a hora de tornarmos para perto de nossas esposas. Eu por meu turno to que não me agüento, pois depois de passar o dia inteiro assistindo estes animais copulando sem trégua, to doido pra “chegar junto” na velha!
8. Eu também, veio, vamos lá!
9. Então até amanhã SEM (sono), meu filho.
E dizendo isso, NÃOé, começou a se arrastar por cima do dorso dos animais amontoados por toda parte na Nave, e ia ouvindo os seus grunhidos, piados e rugidos, enquanto passava em cima deles.
[NÃOé acordando ao lado de sua mulher, ambos rodeados por muitos animais].
Na manhã seguinte NÃOé foi despertado pela barulhada dos bichos e pelo jato de vômito que sua mulher despejava-lhe em cima.
1. Arrrghhhh! Credo, o que é isso, mulher?!
2. Ai, ai, ai, me desculpe, meu marido, mas não agüentei segurar. Não posso mais suportar isso aqui! Este barco sacolejando sem parar, este fedor terrível de fezes e urina dos animais, a própria catinga que sai deles, esta barulheira dos infernos que eles fazem, dia e noite, sem um minuto de silêncio! Ai, ai, ai, porque você foi nos fazer embarcar? Eu preferia ter morrido!
3. Não blasfemes mulher!
4. Blasfemo, blasfemo, blasfemo o tanto que eu quiser seu velho desgraçado! E como se não bastasse todo este meu sofrimento, ainda tenho que agüentar você em cima de mim toda noite, dizendo que não pode evitar, porque fica excitado vendo estes animais safados se cobrindo o dia inteiro! [gritava a mulher, ensandecida]. Você devia se envergonhar seu imprestável! Seiscentos Anos e essa merda não amoleceu ainda!
5. Ué, eu devia é ter orgulho então, ih, ih. Ih.
6. Você se ri, né, mas você me paga! Ô sina minha, viu! Ah, mas ainda vou orar, fazer novena, pagar promessa, sair em procissão, qualquer coisa eu faço pra que Deus atenda o meu pedido e faça o Varão amolecer e perder suas forças de uma vez, no máximo, quando muito, ali pelos setenta anos. Eu sei que não vou viver pra ver estes dias felizes, mas no futuro todas as gerações de mulheres me chamarão Bem-Aventurada! Desapareça daqui, suma de perto de mim seu velho fedido! E me escute bem, a partir de hoje se quiser saciar seu instinto baixo vai ter que ser com um destes bichos aí que são tão tarados quanto você. Se te aproximares de mim de novo, esta porcaria que tens aí entre as pernas vai virar ração pras galinhas![Gritava a mulher de NÃOé, enquanto brandia um facão afiado apontando para o membro do marido, ao mesmo tempo em que o fuzilava com o olhar raivoso].
7. Ta bom, querida, ta bom. Mas não fique tão nervosa. Veja, nós só estamos na Arca há alguns dias e Deus disse que só de chuva seriam quarenta dias e quarenta noites. Pelos meus cálculos, até passar a tempestade e a enchente abaixar, acho que vamos ficar aqui mais ou menos um ano. Você vai regular este tempo todo, velha?
8. Velha é a meretriz da senhora sua mãe! Ordinário, traidor, você falou que seria pouco tempo. Eu não queria vir e você me enganou!
9. Mas meu amor.
10. Meu amor tua avó![avançando pra NÃOé, balançando a faca].
11. Mas você teria morrido.
12. Estaria muito melhor morta do que sepultada viva nesta tumba navegante, nesta latrina gigante! Ai, ai, ai não agüento mais, não agüento mais![berrava desferindo golpes no ar com o facão, tentando atingir as galinhas que ciscavam ali por perto].
NÃOé, assustadíssimo, afastou-se rapidamente rastejando-se por sobre os animais, até ir parar no lado oposto ao que a sua mulher se encontrava. No caminho ia afundando os pés, as mãos, ou às vezes caía de cara nos excrementos amontoados nos minúsculos espaços entre os corpos dos bichos. À medida que ele passava, os animais iam se afastando e movimentando-se. NÃOé reclamava então:
1. Aí de mim Senhor. O que fostes arranjar para o teu fiel servo Nãoé! Tu és Deus ou não é?! Não podias simplesmente ter estalado os dedos ou assoviado, e assim, transformado os homens maus em homens bons? Porém, se querias preservar o livre-arbítrio, não era mais fácil fulminar os maus como o raio faz com a árvore? Acaso não és tu maior e mais poderoso do que os raios? Ou não podia ter dado cabo deles com um discreto ataque cardíaco nos seus próprios leitos, não seria pelo menos mais humana, quero dizer mais Divina, esta maneira, do que deixar que todos se afogassem. Porque, meu Deus, por quê?!?
E assim transtornado, NÃOé, perdeu os sentidos e caiu entre um casal de camelos que o observava enquanto ruminavam indiferentes.
FORA DA ARCA
E eis que se passaram todos os dias e todas as noites que Deus havia determinado para que chovesse sobre a terra, e que NÃOé, sua família e os animais permanecessem na Arca. E tendo saído todos os tripulantes, NÃOé pegou animais puros e os ofereceu ao Senhor em holocausto, pois sabia que o Deus de seus ancestrais se agradava de um cheirinho de churrasco. E dizia:
1. Faço esta oferenda Senhor Deus, pois provastes mais uma vez que tu és o maior de todos os deuses, pois maior prodígio que nos salvar do dilúvio foi nos fazer agüentar lá dentro daquela joça, todo este tempo sem que morrêssemos de peste, tal a imundície que ali se concentrava!
E dizendo isso NÃOé e toda a sua família caiu de joelhos para agradecer ao Senhor. E tendo NÃOé plantado uma vinha, assim que esta deu frutos ele fez deles o vinho, tomou um porre daqueles e ficou pelado na sua tenda. Então um de seus filhos CAN (web) [assim chamado porque já se sabia de antemão que ele divulgaria a nudez do seu pai, e por isso é considerado hoje aquele em que se inspirou o inventor das WebCAM’s, que são pródigas em mostrar corpos nus na internet], pois CAN (web), ao ver seu pai nu (de forma absolutamente acidental), cai em desgraça, pois seus irmãos pouco dados ao voyeurismo, e muito chegados à delação (como bons descendentes de Andão, que havia delatado Evasiva por lhe dar para comer a fruta proibida), logo o deduraram para o velho, enquanto cobriam a sua nudez. NÃOé então, amaldiçoa o seu filho CAN (web), que, por azar, estava no lugar errado na hora errada. Mas certamente a culpa é mesmo de CAN (web) e não de NÃOé, que assim que se viu fora da Arca e em terra firme, não pensou em nada melhor para fazer do que encher a cara.
A TORRE do BÊ-A-BÁ-BEL
[Alguns operários da construção civil erguendo um muro]
Naquele tempo falava-se um único idioma no mundo inteiro. Não obstante ter sido dito o contrário antes, quando as escrituras afirmam: “foi destes que se separaram as populações das ilhas, segundo o seu país, língua, família e nação”. [Atribuindo esta discrepância à confusão do escritor divinamente inspirado, para não lançá-la nas costas de Javé, afirmando que foi mais um de seus lapsos de onisciência, podemos continuar a contar a história].
Javé então desce na terra para ver o que os homens estão fazendo [embora isso não seja necessário devido sua onisciência], e ouve o seguinte:
1. Cozinhemos tijolos e façamos piche para colá-los, afim de que possamos construir uma torre tão alta que chegue até o Céu!
Mas Deus que não dorme em serviço, e que não queria [sabe lá porque cargas d’água] que os homens entrassem em acordo e pudessem construir a tal torre, imediatamente entra em ação e diz de si para consigo no plural [apesar de ser um único deus, pois o contrário seria inadmissível para uma religião monoteísta, embora ele seja três também]:
Confundamos a língua dos homens para que eles não se entendam e assim não
possam conseguir o seu intento!
E então, contrariando sua tradicional maneira de optar por formas mais trabalhosas ao realizar as coisas [como, por exemplo, fazer mulher de costela, colocar todos os animais do mundo em um barco], com um simples passe de mágica ele enrola a língua da galera toda para que não mais entendessem uns aos outros.
2. Ô, Mete-o-dedo-red, passa aí pra mim uns tijolinhos, por favor.
3. Cachemir Bouquet, brad to ro?
4. O quê? To falando pra me dar mais uns tijolos aí! Endoideceu cara?
5. Babasuí ê lired canantê bana-cu!
6. Opa olha lá hem? Que saco, viu! Ô, engoli-rã-red, vem aqui um minuto, eu acho que o Mete-o-dedo-red ta ficando maluco, veio, eu to aqui no alto do andaime pedindo tijolos e...
7. Driscaslâmpida find daor mind?
8. Putz, não é possível, você também, o que será que deu na galera? [e virando-se para o andaime vizinho ao seu] Hei cara, tem uns tijolos sobrando aí, e um pouco de piche também? Os meus acabaram e não sei o que ta acontecendo com os serventes. Acho que este sol quente na cabeça fez mal pra eles, pois...
Mas antes de terminar de falar é atingido por uma tijolada e cai morto no chão, onde a confusão é generalizada. Entre beliscões murros, mordidas, tapas e pontapés, gritam todos ao mesmo tempo:
1. Alfmetzer Aalisch!
2. Vai você seu merdinha!
3. Brunk ast ligorot!
4. Piu non sono io!
5. Ta zua zuã!
6. Help, I need somebody, Help!
7. Cala a tua boca ordinário!
8. Zing gud vitada!
9. Madre di Dios!
10. Ai, ai, ai, não me mata, não me mata!
E desesperados, sem compreenderem mais o que tinha acontecido do que compreendiam uns aos outros, saíram correndo, separando-se em pequenos grupos e abandonando de vez o projeto da torre.
ABRÃOBOBÃO E SUAS FAÇANHAS
[Campo e tenda. Deus fala com ABRÃObobão].
E Deus aparecendo para o patriarca mais importante desta história, o ABRÃObobão, diz a ele para que saia de sua casa e de sua terra e vá para a terra que Ele lhe mostrará. E ABRÃObobão diz:
1. Mas Senhor, aqui eu ‘já estar estabelecida’!
2. Não sejas “mão-de-vaca”, ABRÃObobão, me obedeça e Eu farei da sua descendência uma mais numerosa que os graus de areia da praia.
3. Mas então vai haver muita gente ‘brá eu dividir herança’, ‘vai ser a ‘maior guebra-bau’!
4. Vai logo ABRÃObobão, não me aborreça com estas ninharias!
5. Ninharia ‘bro Zenhor’, ‘bra ABRÃObobão é muita dinhera’!
6. Ta, ta, ta, ta... Depois a gente vê isso, agora vai pra onde estou te mandando, antes que eu... [erguendo o braço em ameaça]
7. E assim ABRÃObobão pegou sua mulher Saradah (assim chamada por ser muito formosa de rosto e de corpo) e o seu sobrinho LÓ-róta e partiu. Quando eles estavam chegando ao Egito, ABRÃObobão disse a Saradah, sua mulher:
8. Saradah, minha mulher, eis que adentramos nas terras do Egito, e verdadeiramente tu és uma mulher muito atraente, bonita e gostosa até mandar parar! Se os egípcios que são um povo que não seguem o mesmo deus que nós, souberem que és minha mulher, com certeza vão me matar para ficar com você para eles. Por isso me faz ‘uma favorzinha’, fala ‘brá eles’ que você é minha irmã, ta?
9. Mas isso é mentira meu marido e nós somos crentes, e os crentes não mentem!
10. Mas é um caso de vida ou morte sua Anta! E onde ta escrito que crente não mente? Existe algum mandamento que o senhor nosso Deus nos deu para que seguíssemos?
11. Bem, acho que não, pelo menos até hoje eu não li nada, mas também eu não sei ler.
12. Mulher, nós já estamos chegando, não dá tempo pra ficar discutindo, ta entendido? Fala o que eu mandei!
13. Ta bom então.
Então o patriarca do povo de Deus, com esta mentira, consegue que os egípcios pensem que Saradah é a sua irmã e o faraó, acreditando então que ela era solteira, inocentemente pega a mulher pra ele. Todavia, Javé, sempre atento para demonstrar sua ‘justiça’, [cega] e fere o faraó com alguma praga por ele ter feito o que qualquer homem em seu juízo perfeito faria: comido a gostosa da Saradah, já que ela era livre e desimpedida. O faraó, quando descobre a verdade, chama ABRÃObobão e diz:
1. Mas você foi um bode traiçoeiro mesmo, hem, seu infeliz! Porque você mentiu dizendo que Saradah era sua irmã, para que eu pensasse que ela era livre? Agora o seu deus que sonda os corações e vê o íntimo deles, e enxerga todas as intenções de todos, parece que se enganou desta vez quanto as minhas intenções, pois se eu soubesse que ela era sua esposa não tinha deitado com ela. Você conta suas mentiras e seu deus faz com que eu pague o pato, né? Pois agora pegue sua mulher, seu sobrinho e seus bens e desapareça daqui!
Depois desta demonstração de covardia de ABRÃObobão, que mentiu dizendo que Saradah era sua irmã e não sua mulher, com medo de que os egípcios o matassem, Deus achou melhor mudar o seu nome para ABRAÃOcagão. E depois destes acontecimentos, saíram das terras do Egito ABRAÃOcagão, sua mulher Saradah e o seu sobrinho LÓ-róta. E os dois homens eram tão ricos e tinham tantos bens, como, gado, tendas, ouro, prata, que não puderam mais morar na mesma terra, pois que uma só região não podia comportar as posses de ambos.
[Campo. Tendas armadas. Saradah na porta de uma tenda, a certa distância ABRAÃOcagão conversa com Deus].
Deus fala sobre a descendência de ABRAÃOcagão. Chegam os três homens [que também são deus] Deus anuncia a destruição de duas cidades pecaminosas.
Então três homens que eram ao mesmo tempo (ao que parece), Anjos e o próprio Javé, apareceram sob uma árvore perto da tenda de ABRAÃOcagão.
O velho patriarca correu a arranjar lhes comida, pois reza o adágio: ‘anjo vazio não pára em pé’. Enquanto eles descansavam na sombra da árvore e o patriarca ia servindo o rango, Javé diz:
1. No próximo ano voltarei e sua mulher já terá um filho.
Saradah que estava na entrada da tenda ouviu aquilo e pensou: “Agora que já sou velha experimentarei o prazer e com marido tão velho”?Javé, então, pergunta para ABRAÃOcagão:
1. Porque Saradah riu?
2. Ah é? Ela riu? Não ouvi nada, riu de que, Senhor?
3. Do que eu disse. Que no ano que vem ela já terá um filho.
4. Mas ela nem está aqui perto, Senhor.
5. Ela ta ali, olha, na porta da tenda! [apontando com o dedo].
6. Ta com um ouvidinho bom, hem Javé?
7. Eu adivinhei seu idiota, se não fosse à mentira que contou, não teria mudado o seu nome de ABRAbobão para ABRAÃOcagão! Ela pensou assim, ó: “será que vou dar à luz agora que sou velha?”-Ora, por acaso existe algo impossível para o Javé aqui?
8. Acho que deve ser impossível para o Senhor escutar direito, ou adivinhar pensamentos corretamente [Diz Saradah se aproximando irritada], pois eu não ri e nem pensei isso!
9. Riu sim! [fala Javé irritado]
10. Não ri. E, aliás, se vai adivinhar o pensamento dos outros vê se adivinha corretamente, pois o que eu pensei foi; “será que agora depois de velha vou provar o prazer? E com marido tão velho?”Meus pensamentos não mencionaram nada sobre dar à luz, eu estava pensando em dar era outra coisa!
11. Só que eu adivinhei a verdadeira intenção dos seus pensamentos, mesmo que não tenha pensado nestas palavras.
12. Xiii, não vem que não tem não, deixe de moralismo, eu pensei foi ‘naquilo’ mesmo, olha que esta sua desculpa é furada, a emenda ta saindo pior do que o soneto. Nunca lestes nas escrituras que: “não se coloca remendo novo em soneto velho, pois o remendo novo pode estragar o soneto e nenhum dos dois sobrar”?
13. Saradah, não discuta com Javé nosso Deus!
14. Isso mesmo ABRAÃOcagão, mostre quem é que usa túnicas masculinas nesta casa! Por acaso ela não sabe que quem manda na mulher é o marido? E não adianta ela negar, pois ela riu sim!
15. Não ri não!
16. Riu.
17. Não ri!!
18. Riu, riu, riu!
19. Não ri, não ri, não ri!
20. Riu um bilhão de vezes!!
Então não dando mais atenção para Saradah, os três homens [que também deviam ser Javé, além de serem anjos também] se levantaram para ir embora e olharam para as duas cidades pecaminosas, e partiram para lá. Mas Javé ficou com ABRAÃOcagão. Então ABRAÃOcagão pensou: “realmente assim vai ficar difícil, no futuro, explicar que a nossa religião é monoteísta”. Mas, não obstante, Javé, já pensava em destruir as duas cidades pecaminosas, mas tinha uma dúvida e pensou: “será que devo esconder de ABRAÃOcagão, o que vou fazer”? E depois de muito pensar resolveu lhe contar e disse:
1. ABRAÃOcagão.
2. Aqui estou Senhor.
3. Eis que o clamor destas duas cidades é muito grande e o pecado deles é grave. Vou descer...
4. Mas já não está aqui, Senhor?
5. Psiuuu! Calado! Vou descer para ver se de fato as ações deles correspondem ao clamor que subiu até mim, então ficarei sabendo.
6. Ué está tendo novamente aqueles ‘brancos’ em sua onisciência Senhor!
7. É às vezes dá uns esquecimentos sim. Por isso acho melhor dar uma espiadinha de perto pra ter certeza.
8. Se o Senhor quiser conheço uma simpatia que é tiro e queda prá falta de memória-onisciente!
9. ABRAÃOcagão, não sabes que não vos é permitido estas crendices de adivinhos, benzedeiras, isso é pecado!
10. Ah é, eu tinha me esquecido, desculpe Senhor.
11. Pois então, é o que eu ia dizendo, vou dar uma olhadinha pra ver se a situação corresponde ao clamor e se assim for destruo as cidades inteiras.
12. Mas Senhor, tu destruirás o justo com o injusto?
13. O que te faz pensar que existam justos naquelas cidades.
14. Ora, “elementar meu caro Watson”, se não houvesse justos ali, quem é que clamaria ao senhor? Lembre-se que me dissestes que “grande foi o clamor”, então muitos devem ter se unido pra clamarem ao Senhor.
15. Humm!?
16. Pois é. Então suponhas que tenha uns cinqüenta justos lá. Mesmo assim destruirá tudo e todos?
17. Se tiver cinqüenta não destruirei.
18. Senhor!
19. O que é?
20. E se não chegar a cinqüenta, mas tiver, digamos, uns quarenta e cinco?
21. Por causa destes pouparei as cidades.
22. Mas e se tiver só trinta?
23. Arre, aonde quer chegar com isso, homem? Não é necessário ficar repetindo a mesma pergunta assim.
24. É um método chamado de Maiêutica Socrática, nunca ouvistes falar?
25. Não, e nem me interessa. Se tiver trinta, vinte, ou mesmo apenas dez eu não destruo, ta bom assim pra você?
26. Certo, certo, mas, Senhor?
27. O que é agora, mas que coisa! [grita Javé impaciente]
28. Eu tenho conhecimento de que em uma das cidades tem pelo menos o meu sobrinho que mora lá. Aliás, ele tem esposa e duas filhas, são quatro pessoas ao todo, Senhor.
29. Ah não, isso não. Quatro pessoas só não, se são apenas quatro, eles que se mudem de lá. Vou dar um tempinho pra eles saírem e depois vou deitar fogo e enxofre em tudo e todos que estiverem lá!
30. ? !Vai entender. Cara mais caprichoso este Javé [à parte]. Bem, Senhor, então eu espero que aqueles homens que saíram daqui, que também são anjos, e são, ao mesmo tempo, o Senhor também, avisem meu sobrinho.
31. Mas foi justamente pra isso que eu os mandei irem até lá. Nem tinha percebido, mas a minha onisciência deu uma melhorada, viu só? Eu já sabia que seu sobrinho estava lá, antes de você me contar.
32. Nossa que bom né Senhor? Parabéns! [fazendo escondido gesto de girar o indicador do lado da orelha, como a dizer que Javé não está batendo bem dos pinos].
SOMEDOMASEEUMORRA[Ou um capítulo com muitas vilanias para ser cômico]
Entrementes os dois anjos chegam a Somedomaseeumorra e Ló-rota pede para que eles fiquem hospedados em sua casa. Porém os anjos queriam ficar na praça. Mas Ló-rota instou para com eles afim de que fossem para a sua casa e eles foram. Chegando lá os anjos lavaram os pés (o que faz crer que foram na forma de homens e não voando) e logo que lá chegaram comeram, para que se confirmasse mais uma vez o dito “anjo vazio não pára de pé”. Tais necessidades alimentícias constantes poderiam servir no futuro para que os sacerdotes de Deus justificassem seus costumeiros apetites vorazes. Os homens-anjos ainda não se haviam deitado e eis que toda (atentemos para esta palavra), “toda” a população da cidade, do mais moço até o mais velho foram até a porta da casa de Ló-rota com uma finalidade mútua, no mínimo estranha e realmente incompreensível, da qual duvidaríamos, ainda que a aparência dos homens-anjos fosse mais atraente do que a de Marilyn Monroe no auge de sua forma.
1. Ló-rota!-gritou um dos que estavam na multidão. Entrega-nos seus hóspedes para que tenhamos relações com eles!
Um Leitor:
Aqui o texto realmente pede que tomemos fôlego, pois é de tal forma vil, que dificilmente se encontram exemplos tão maldosos, nem mesmo neste livro que é pródigo em absurdos!
Indignações de um Leitor:
Porque, por mais corrompidos que fossem os habitantes daquela cidade, eles teriam se sentido motivados a estabelecer práticas sexuais com homens recém chegados ali? Se a cidade era tão licenciosa como assegura os textos, certamente não seria matéria escassa em tais paragens mulheres não muito castas que estivessem dispostas a cederem de bom grado a tais atividades carnais, e estas poderiam ter atributos mais atraentes que os destes dois homens-anjos. Mas mesmo que a intenção fosse justamente o contato homossexual (as mulheres que ali estavam, já que toda a população compareceu, seriam apenas platéia? Estavam de acordo?) tais contatos não deviam também ser raros entre os habitantes daquela cidade, e estes que ali estavam querendo relações com os homens-anjos, as poderiam ter conseguido facilmente em outro lugar sem recorrer à anatomia angelical. Chegamos, no entanto, à única alternativa plausível (se assim podemos chamar algo descrito em qualquer parte deste livro santo), a alternativa de que tudo era desejo de Deus que tinha um propósito para que as coisas assim transcorressem. Mas se isso é fato, que culpa tinham estes homens se eram meras marionetes movidas pelos cordões que o seu deus controla? E mesmo que a explicação seja esta do desígnio divino, isso ainda não nos faz compreender o porquê das crianças da cidade também estarem presentes assistindo estas cenas. Pois elas estavam, já que foi dito que ‘todos’ os habitantes da cidade foram até ali com aquelas intenções. Mas eis o desfecho de tal semelhante absurdo:
1. Meus irmãos!
2. Grita Ló-rota!Por favor, eu lhes peço. Eu tenho duas filhas virgens ainda, eu as entregarei para vocês para que façam com elas o que bem entenderem, mas não toquem nestes homens, pois são meus hóspedes.
Ló-rota era realmente um filho de uma prostituta! Olha a proposta absurda que faz o ordinário! Podemos imaginar uma conversa entre dois dos agressores:
1. Humm suas filhas? Hummhummm, virgens? Hei Salimeleca, isso pode ser uma boa troca, o que é que você acha? Duas gostosinhas virgens em troca destes homens-anjos aí.
2. Ah, não sei não, Habacuquebão, pode ser que sim, mas por outro lado, você por acaso já transou com anjo”? E se o negócio for muito bão, veio, muito diferente, hem?
3. Bem, lá isso é, né? Pensando desta forma... mas mesmo assim, é trocar o certo pelo duvidoso, pois meninas virgens nós sabemos que são deliciosas, pois não são poucas as que temos violado. Já anjo? E se estas criaturas aí não tiverem nenhum buraco?
4. Uai tem que ter Habacuquebão, como é possível não ter?
5. Sei lá cara, eu já ouvi dizer que anjo não tem sexo, nunca ouviu não?
Entretanto, enquanto estes dois discutiam outras pessoas já tinham arrombado a porta da casa de Ló-rota para botar as mãos nos anjos, mas a ação foi frustrada por uma mágica que os mesmos fizeram e que cegou todo mundo!
1. Aí, ai, o que houve?
2. Sei lá, não to enxergando nada!
3. Não falei que devíamos ter aceitado as meninas?!
4. Mas o que é isso que eu estou segurando aqui?
5. Larga, desgraçado, é o meu instrumento que já estava preparado para entrar em ação!
6. E agora, e agora... Putz, fudeu mano!
O que podemos pensar da atitude sacana de Ló-rota? Louvá-lo por querer proteger os seus hóspedes ou execrá-lo por querer usar as filhas como escudos para os anjos, entregando-as para uma turba de tarados? Sem dúvida alguma até um assassino mutilador de suas vítimas e canibal, se inquirido sobre isso a propósito de suas próprias filhas, condenaria a atitude deste verme! Ele poderia ter implorado de joelhos aos homens da cidade ou poderia morrer lutando para salva-los. A única coisa inaceitável, que é oferecer as próprias filhas, foi o que ele fez. Porém não podemos o chamar de sádico, de louco ou de covarde! Pois tudo pode ser explicado pelo livro santo, já que se sabia de antemão que as filhas não seriam sacrificadas devido à interferência dos anjos. Mas mesmo assim a simples menção da proposta de Ló-rota é indigna. Lembremos também que mais adiante em um deste livro ‘sagrados’ em situação muito semelhante a esta, as mulheres são efetivamente entregues e morrem depois de serem violentadas inúmeras vezes [*]. Ao que parece não se sabe por que neste outro caso não aprove a Deus intervir para salva-las como fizeram os anjos (que eram o próprio Deus) com as filhas de Ló-rota. Estaria ele [Deus] naquele momento deste outro episódio que termina com o estupro de várias mulheres, prestando atenção em algum jogo esportivo para ajudar ao algum atleta, como deve fazer nas Olimpíadas, ou na Copa do Mundo [atendendo aos inúmeros pedidos por vitória evocados pelos contínuos benzimentos dos jogadores?] E assim se distraiu e não pode atender em tempo o apelo daquelas outras e desafortunadas mulheres?
Após estes terríveis episódios os anjos avisam Ló-rota do destino de Somidomaseeumorra, dizendo para que saísse da cidade com sua família, pois o bondoso Deus lançará fogo e enxofre do céu, para queimar todos os habitantes sejam jovens, crianças, velhos, mulheres, homens ou animais. Ló-rota que também era muito bondoso, assim como o seu Deus, ainda tenta salvar os seus futuros genros, mas eles não acreditam nele, o que é bem feito, pois como todos os habitantes da cidade estavam presentes na hora da tentativa de violentar os anjos, eles, então, lá se encontravam e nada fizeram para tentar salvar as suas noivas. Pelo menos uma linha de justiça nesta história, os desgraçados foram torrados pelo fogo! Mas quando a cidade começou a ser queimada, ao serem despejados do céu o fogo e o enxofre, a mulher de Ló-rota, que fugia com ele e com suas filhas, não resistiu e olhou para trás para ver os fogos de artifício. Porém isso fora proibido por Deus que a transformou em uma estátua de sal como castigo (qualquer semelhança com a mesma atitude de Orfeu na mitologia grega não é mera coincidência, mas apenas uma das centenas de incorporações de lendas mitológicas clássicas às lendas judaico-cristãs). Convenhamos que perto dos pecados da cidade ela não merecia uma coisa destas apenas por olhar os fogos, e, aliás, não sabemos se Ló-rota a avisou que não podia olhar, pois não consta que ele a tenha alertado quanto a isso. E talvez não o tenha feito mesmo, propositalmente, pois assim matava dois coelhos com uma única cajadada: livrava-se da mulher e ficava sozinho com as filhas virgens (uma vez que se verá mais à frente, neste livro santo que narra atitudes santas de santos homens, que as meninas embebedam o pai e cada uma, em noites sucessivas, se deitam com ele (pois não havia mulheres para procriar e dar descendência ao pai delas) O velho santo estava bêbado o suficiente para não saber o que estava fazendo, mas não tanto para que não pudesse transar com as próprias filhas. Etâ Nóis!
SARADAH, A PRECONCEITUOSA
Depois disso, no tempo marcado Saradah deu à luz a um filho que foi chamado de EuqasI[morri], pois que seu pai quase o mataria para provar que obedece a Deus. Estava Abraãocagão com cem anos e Saradah ficou admirada dele ter conseguido “dar no couro” [surpresa que demonstra que o pedido da mulher de NãoÉ, estava sendo atendido, e o’ varão’ estava amolecendo mais cedo]..
Como o filho de Saradah brincava com o filho de uma concubina de seu marido, Saradah, dando uma inquestionável demonstração de preconceito, diz para Abraãocagão:
1. Expulse essa escrava e o filho dela. Para que o filho dessa escrava não seja herdeiro com o meu filho EuqasI[morri].
Apesar de Deus ter dito a Andão que o homem é que era o senhor da casa, diz para Abraãocagão fazer o que a patroa mandou.
O BLEFE DE JAVÉ
[Abraãocagão e Euqasi[morri] subindo a serra]
1. Pai!
2. O que é meu fio?
3. Onde é que nóis ta indo?
4. Ali em cima da serra.
5. Fazê o que lá. Pai?
6. Passeá.
7. Mais pra que essa lenha toda, Pai?
8. Para fazê uma fogueira e esquentá a gente mió!
9. Mas pra que este facão, Pai?
10. É pra corta mió a carne.
11. Mas que carne, pai?
12. A carne do cordêro, meu fio.
13. Mas que cordêro, pai?
14. Um lá, que já, já ocê vai vê.
15. Pai!
16. O que que foi agora moleque?
17. Mas e se não aparecê cordêro nenhum lá no arto da serra?
18. Bem ai, depois a gente... Ufá, chegamo, até que enfim!
19. Não to vendo cordêro nenhum, pai.
20. Pois é, eu também, não. Olha me traz o facão aí e um pouco de lenha.
21. Mas pra que, pai?
22. Prá gente acendê o fogo, ora!
23. Mas nem ta de noite, e pra que o senhor quer a faca?
24. A faca é pro cordêro.
25. Mas que cordêr...
26. Óia cala essa boca moleque, ta me deixano nervoso! Traiz logo ai tudo que eu pedi e deita ali naquela pedra?
27. [EuqasI [morri] entrega a faca e um pouco de lenha]
28. Aqui nessa pedra?
29. É aí memo.
30. Mas pra que, pai?
31. Pra... Prá... prá tomá banho de Sor. Anda deita aí.
O menino deita-se na pedra Abracagão se aproxima e levanta o facão para golpear o garoto.
32. Paai!!
33. Arrhhg [nervoso, perdendo a concentração do golpe].
34. Mas o que é que é?
35. O que ocê vai fazê pai!?
36. Nossa senhora, mas que menino burro [falando à parte].
37. Vou cortá o seu cabelo, fecha os Óio.
Neste momento então, quando Abraãocagão se preparava novamente para aplicar o golpe fatal, um anjo aparece de repente, o que faz Abraãocagão levar um susto e atingir uma mecha de cabelo de EuqasI[morri], que ao ver seu cabelo cortado levanta-se e começa a correr atrás de um cordeiro que aparece, misteriosamente ali perto.
1. Óia pai, o cordêro!
2. Bem que o senhor falou, hem pai?! Vô pegá ele prá nóis!
3. Abraãcagão, [diz o anjo], não levantes mais a mão contra seu filho, pois o senhor Deus sabe agora que verdadeiramente tu és um servo fiel, visto que não negastes...
4. Puxa vida seu anjo, que susto, quase acertei o piralho! Ah, é? Agora ele tem certeza, né? Demorou hem? Já pensou se eu corto a cabeça desse moleque? O que que eu ia falá pra mãe dele?
5. Queira me desculpar Abraãcagão, mas eu estava atendendo outro chamado de ajuda, nós anjos estamos muito sobrecarregados ultimamente.
6. Ta certo, dos males o menor, né? Mas já ta na hora de Javé ter um pouquinho mais de confiança nimim, ne?
7. Ah, eu sei Abraãocagão, mas às vezes Deus fica um pouco deprimido e tem que se sentir adorado, sabe só isso faz com que ele melhore. Mas não liga não que ele te recompensará e você será o primeiro grande patriarca de suas nações!
8. Ah, é?! Tão ta bão, então, uai!
ABRAÃOGAGÃO É RACISTA
E depois destes acontecimentos, Abraãocagão disse ao seu servo [escravo] mais velho, que administrava suas propriedades.
1. Põe a mão embaixo da minha coxa.
2. O que? Eu heim? Ta me estranhando patrão?
3. Vai coloca a mão aí!
4. Eu não! Que é isso patrão, vai resolver sair do armário depois de velho?
5. Não é nada disso seu idiota, é que isso é uma coisa que a gente faz pra jurar.
6. Etâ, então ta, mas olha lá em? [diz o servo, colocando a mão com desconfiança].
7. Agora jure por Javé, o Deus do Céu e da terra, que quando for buscar esposa para meu filho EuqasI[morri], não escolherá uma filha de um Cananeu aqui deste lugar que eu moro.
8. Uai, mas por quê?
9. Porque essa gente não presta!
10. Mas bem que as terras dele servem pro senhor morar, né?
11. Não discuta comigo escravo! Jure que irá até minha terra natal pra buscar esposa pro meu filho!
12. Pra falar a verdade eu não to a fim de me meter nisso não. Por que ele mesmo não vai? Que frescura, velho. Sabe lá se a mulher que eu trouxer será do agrado dele? Eu vou acabar influenciado pelo meu próprio gosto para mulheres. Por exemplo, eu gosto de peito grande, bundão, e ele?
13. Bem... Eu acho que nem ele não sabe ainda isso, ele é virgem.
14. Ka, ka, ka, ka! Em que século este moleque acha que ta vivendo, cara? Ka, ka, ka, ka... Olha, sei não, será que ele é chegado mesmo?
15. Não se atreva a insultar meu filho!
16. Ta bom, ta bom, não precisa ficar irado. Eu vou buscar uma mulher pra ele. Mas olha, e se a mulher que eu escolher não quiser vir? Ela pode ser igual o senhor e achar que pra estas bandas de cá só tem gentalha. Aí o que eu faço, levo o EuqasI[morri] até a terra dela?
17. Nunca! Não faz isso de jeito nenhum!
18. Mas por quê?
19. Porque Deus me tirou da terra paterna e jurou me dar essa terra aqui, pra mim e para os meus descendentes. E você acha que eu ‘vai perder uma negócio de mão beijada, destas’?
20. Bem, mas se é assim, o seu filho poderia escolher uma mulher por aqui mesmo, isso ia me poupar um trabalhão.
21. Olha, chega de conversa, coloca a mão aqui embaixo da minha coxa.
22. Mas de novo?
23. É que você acabou não jurando e tirou a mão.
24. Ai, ai, ai, ai, ai... [reclama o servo, colocando novamente a mão embaixo da coxa de Abraãocagão].
25. Bem então agora jure, e fica combinado assim: se a mulher escolhida não quiser vir com você, ficarás desobrigado da promessa.
26. Ah, bom, assim sim, então eu juro.
O SERVO DE ABRÃAOGAGÃO ENCONTRA MULHER PARA O FILHO DO SEU SENHOR
Logo depois que Abraãocagão ‘bateu as sandálias’, seu servo foi procurar esposa para EuqasI[morri]. Estando, pois o servo de Abraãcagão perto de um poço de água viu uma mulher que vinha com um balde. Ela era muito bonita e virgem [teólogos estudiosos ainda não entraram num acordo dos motivos que fizeram o servo saber que ela era virgem só em olhá-la]. A mulher, então, se aproximou e deixou o homem beber água do seu balde. Assim ele soube que era a mulher procurada e disse de si para consigo: “verdadeiramente esta é a mulher que eu devo levar para o patrãozinho”, e voltando-se para ela disse:
1. Olha moça, você iria comigo?
2. Prá Que?
3. Para casar com o filho do meu falecido senhor, Abraãocagão?
4. Vem cá, eu te conheço!? Por que eu iria? Nem sei como é este moço aí que você ta falando pra eu casar!
5. Mas eu tenho que levar uma mulher daqui, pois esta é a terra natal do meu senhor.
6. Não vai dar não.
7. Então o servo pegou um anel de ouro que pesava cinco gramas e colocou nas narinas dela. Depois colocou nos braços dela um bracelete de ouro que pesava dez gramas.
8. Bem agora a coisa muda de figura! Vamos lá em casa falar com o meu irmão Lambão!
Ao encontrar Lambão, o servo resumiu a história neste termos:
1. A parada é a seguinte: Javé, o deus de meu senhor, abençoou muito meu senhor...
2. Num brinca?
3. É verdade, e meu senhor ficou muito rico. A mulher dele teve um filho mesmo quando o meu senhor e a esposa já estavam muito velhos, e ele me fez jurar que eu não arranjaria esposa pro filho dele na terra da gentalha, onde ele estava morando, mas que eu viria buscar aqui na terra natal dele. E disse que o senhor Deus mandaria um anjo para que eu tivesse sucesso na missão. Mesmo assim sua irmã não tinha aceitado o noivado, e eu podia ter ido embora e deixado o dito pelo não dito, uma vez que a recusa dela me desobrigava da promessa. Mas como eu acho que ela é muito gostosa e que meu patrãozinho vai ficar muito contente com um mulherão destes, eu insisti, e depois que eu lhe ofereci uns presentes ela aceitou, mas disse precisar vir falar com o irmão dela que é você.
4. Não adianta, meu bom homem, o ditado nunca falha: "mulher gosta é de dinheiro, quem gosta de peru é bicha!” disse Lambão. Pega ela e leva!
5. Hei o que é isso?! Pêra aí! [disse a mulher]. Não vai ter mais nenhum presentinho não?
6. Num te falei? Então o servo pegou jóias de prata e de ouro e um vestido e deu pra mulher. Ela, vendo que o noivado era com um homem de posses foi com ele para se encontrar com o seu futuro marido.
7. Quando eles se aproximaram das terras, EuqasI[morri] tinha saído para dar uma olhadinha no crepúsculo, e quando avistou a mulher já ficou de ‘barraca armada’ de tão bela que era ela. Introduzindo-a, então, rapidamente na barraca, introduziu também rapidamente nela aquilo que erguera a sua ‘outra barraca’, mas ela não concebeu.
ISAÚH E JACÚ
A mulher de EuqasI[morri] fez então tratamento de fertilidade com Javé, pois ela era estéril. E como acontece em grande parte dos tratamentos para engravidar, lhe vieram gêmeos. E aconteceu que antes de nascer os gêmeos já brigavam dentro dela.
1. Aí, aí, ai, e agora Javé?A festa acabou/EuqasI gozou/fiquei prenha de dois/Javé e agora?/e depois?/irmão com irmão/um com o outro brigou/que amolação, esta gravidez que demora/Javé, e agora?
2. Não se preocupe, disse Javé, é que no seu ventre há duas Nações, dois povos se separam em suas entranhas. Um povo vencerá o outro e o mais velho servirá o mais novo.
3. Credo eu hem?!
Quando chegou à hora do parto o primeiro que saiu era ruivo e peludo e lhe deram o nome de Isaúh! [pois este nome soava como o grito de alguém que ganha uma corrida]. O segundo saiu segurando o calcanhar do irmão e por isso foi chamado de Jacú [tanto por ter perdido a corrida e nascido atrás do irmãocomo por esta circunstância ter feito com que ele ficasse em uma posição em que ‘Já’ podia ver o ‘Cu’ do seu irmão].
Quando nasceram seu pai tinha sessenta anos. [o que novamente demonstra que estava valendo a previsão da mulher de NãoÉ, e o ‘varão’ precisava chegar junto mais cedo, pois que também amolecia com menos idade].
O DIÁLOGO ENTRE ISAÚH! E JACÚ
[Judeu de Verdade Vende até Direito de Primogenitura]
[Jacú cozinhando. Isaúh! Chega esgotado de tanto trabalhar]
1. Puxa maninho, o que você ta cozinhando aí?
2. Não vem que não tem. É só pra mim.
3. Que isso mano? Deixa de ser egoísta, eu trabalhei o dia todo.
4. To nem aíiii!!!
5. Dá-me um pouquinho, o que é isso aí?
6. Sopa de lentilhas.
7. Nossa! Meu prato favorito! Ah, não, você vai ter que me dar um pouco!
8. E tem pão também, olha [mostrando o pão e escondendo em seguida].
9. Então vamos comer, disse Isaúh pegando uma colher e aproximando ela da panela. Mas Jacu o golpeia na mão com outra colher.
10. Aí, que é isso?
11. Na, na, ni, na, não!
12. Jacu, meu irmãozinho, me deixa comer um pouquinho, por favor, eu to faminto e cansado.
13. Bem... Se quiser comer esta sopa de lentilhas vai ter que me dar uma coisa.
14. O que? Olha lá em? Eu sou espada!
15. O seu direito de primogenitura.
16. O meu o quê?!?
17. Seu direito de primogenitura. É o direito que você tem de ser o primeiro filho porque nasceu uns segundinhos de nada na minha frente. [falou aborrecido].
18. Só isso? Ué pode ficar então, onde eu assino?
19. Não tem que assinar nada, é só concordar.
20. Então fechado, eu lá quero saber dessa porcaria? Quero é ‘calçar o peito’ com essa sopinha!
21. Então pode comer. A partir de hoje eu é que sou o primogênito!
22. Eu heim? Cada louco com sua mania.
JAVÉ APARECE PARA EUQASI
1. Não desça para o Egito.
2. Não?
3. Não, não.
4. Nem sabia que eu ia descer pra lá.
5. Fique na terra que eu lhe disser. Pois eu darei todas estas terras a você e a seus descendentes.
6. Belezzz!
Mas os homens do lugar onde ele morava perguntaram sobre Re[bola à beça]beca. E EuqasI, que havia herdado o caráter de seu pai, também se cagou de medo deles o matarem para ficar com sua esposa e disse que ela era sua irmã, mentindo igual o seu pai. Mas curiosamente, assim como os egípcios, todos os povos que ‘não são o povo de deus’ parecem não ter malícia de desejar a mulher do outro e estas intenções parecem que são peculiares do povo de Javé, já que eles temem tanto isso, o que acaba não se justificando. Quem parece que tem a mente deturpada é o ‘povo de deus’ que sempre está achando que todo mundo quer matá-los para comer a sua mulher, projetando talvez no outro os seus próprios desejos.
Tanto é verdade, que ABIMELECA, rei dos FilhosteusdaPQpariu, assim como o faraó, chama EuqasI e lhe diz:
1. É claro que ela é tua mulher.
2. Porque disse que era tua irmã? Se a tivéssemos ‘catado’ atrairíamos a ira de seu deus até nós.
3. Fiz isso porque pensei que me matariam.
4. Olha aqui seu merdinha, vou dar ordem pra ninguém tocar em sua mulher, mas vê se não faz mais isso. Mentir é muito feio. Seu deus não ensinou isso não? E além do mais, por mais boazuda que seja a sua mulher, nós também temos mulheres gostosas no nosso povo e não estamos matando cachorro a grito e nem jacaré a beliscão!
.
De Como Jacu, não Satisfeito de Ter Ludibriado o Irmão para Roubar-lhe a Primogenitura, passou também a Perna nele para conseguir para Si a Benção que por Direito era do Irmão.
EuqasI ficou velho e seus olhos enfraqueceram. Não enxergava mais nada. Chamou Isauh, que era o mais velho e disse:
1. Meu filho.
2. Aqui estou meu pai.
3. Veja. Estou velho e não sei quando vou morrer. Pegue suas armas, flechas e arco, vá ao campo e traga-me alguma caça. Prepare-me um bom prato do jeitinho que eu gosto, e traga para eu comer e aí eu te abençôo antes de bater as canelas.
Re[bola à beça]beca ouviu tudo e mandou Jacu ir pegar dois cabritos que já tava no jeito para ela preparar pro velho, enquanto Isauh ralava na caçada, e ela falou pra Jacu se passar pelo irmão para ganhar a benção no lugar dele.
Nova Indignação de um Leitor: Eta Gentalha Sagrada! Só sabem mentir e fazer trapaça!
1. Mas mãe, por que ta indo assim contra Isauh?
2. Ará!
3. Ele também é seu filho. Ta fazendo isso só porque ele é feio e peludo?
4. É. Ele é feio, muito feio e peludo. O seu pai não sabe, mas ele é filho do empregado do seu avô Abraãocagão. Aquele servo que foi me buscar pra casar com o seu pai. Sabe como é. Você já é bem crescidinho agora, já posso contar. O servo do seu avô Abraãocagão não era nenhum bobão e seu pai EuqasI é meio pastel. Então enquanto a gente estava viajando pra eu encontrar o seu pai pra casar com ele, o servo chegava o reio em mim direto! Pronto, contei! Ah que saudade... Bem... bem então vai lá.
5. Ah então é por isso que ele é peludo desse jeito e eu não? Mas mãe, ô mãe, nós não somos gêmeos?
6. Bem aí já é mistério de Deus e não devemos questionar.
7. ?
8. Agora vai logo antes que o seu irmão ganhe a benção.
9. Ta certo mãe, to indo lá.
10. Então Jacu foi e depois do prato preparado ele levou a comida até seu pai.
11. Pai!
12. Aqui estou.
13. To vendo, o cego aqui é o senhor, veio.
14. Es tu, meu filho?
15. Sim pai, sou eu seu filho Isauh o seu primogênito [disse Jacu].
16. Mas como você encontrou a caça tão depressa, meu filho?
17. Ora, pai, o senhor Deus colocou ela lá de jeito pra mim [disse , dando uma risadinha em off].
18. Eh, eh, este nosso deus é bão mesmo, hem?
19. Se é, pai, se é.
20. Então chegue aqui pra eu te apalpar e senti se é você mesmo o meu fio Isauh.
21. Mas pra que isso pai? Sou eu sim.
22. Então vem cá, uai.
23. Pai, este teu sotaque não ta errado não? O senhor ta falando como se fosse caipira, mas o senhor é judeu.
24. ‘Bôcha’ vida ‘minha filhinha tu está certinha’, EuqasI, ‘seu babai’, já tinha esquecido até da ‘sodaque’. Então chega aqui ‘brá eu’ te abençoar.
Então EuqasI apalpou sobre as roupas que eram de Isauh e que Jacu tinha vestido e pensando que era Isauh que ali estava o abençoou.
Assim que terminou Isauh voltava correndo com um saboroso prato para o seu pai e disse:
1. Que meu pai se levante e coma da caça que eu preparei, e me abençoe.
2. Quem é você?
3. Ora, além de cego ta caduco? Sou eu seu filho Isauh que o senhor pediu pra ir caçar e preparar um prato para o senhor para que o senhor me abençoasse.
4. Mas então quem veio antes? Eu já abençoei o que veio antes e abençoado ele ficará.
5. Porra pai, nos tapearam, me abençoa também, me abençoa!
6. Então foi seu irmão Jacu que veio com astúcia e tomou a benção que era sua.
7. Então não é com razão que ele se chama Jacu, pois é esperto.
8. Não se esqueça que o nome Jacu lhe foi dado também por causa dele nascer logo atrás de você e então ele Já [avistava o seu] Cu!
9. Ah é.. ka.. ká..ká! Mas pai, vai lá vai, me abençoa aí também então. Não é possível que o senhor só tenha uma benção.
10. Nada disso.
11. E dizendo isso EuqasI ficou em silêncio.
12. Pai! Abençoa-me, abençoa..., isso não é justo! [gritava Isauh batendo o pé no chão fazendo birra].
13. EuqasI então lhe disse:
14. A sua morada será longe da terra fértil e sem o orvalho que desce do Céu. Você viverá da sua espada e servirá a seu irmão. Mas quando você se revoltar sacudirá o jugo do seu pescoço.
15. Que merda é essa que o senhor ta falando aí? Não to entendendo nada. Além de não abençoar, ainda roga praga! Putaquepariu, meu, é isso que eu ganho de te feito tudo que o senhor me pediu, enquanto o velhaco do meu irmão que já me tapeou uma vez nessa história de primogenitura me passou a perna de novo, e trouxe uns cabritos que ele nem teve trabalho de cozinhar, pois aquela sem vergonha da sua mulher, a minha mãe, é que preparou pra ele. Pois antes do senhor morrer é bom que saiba que esta sua benção também não deve valer porcaria nenhuma, pois nós somos filhos é do servo do vovô, aquele que foi buscar a mamãe pra casar com o senhor, pois ele me contou um dia que ele trepou com ela a viagem inteira e ainda por cima comia ela quase toda noite quando o senhor tava dormindo, e... Pai... Pai? Xiii acho que foi demais pra ele esta notícia, o veinho bateu com as dez. Vamos lá cadê aquele safado do Jacu!
Então Isauh!! Começa a odiar Jacu. Re[bola]beca, mãe dos dois protege o trapaceiro do Jacu e manda que ele vá morar com seu tio Lambão. Isauh!!! Vê que o irmão foi buscar esposa nas terras do tio, pois seu pai abominava as Cananéias [como todo bom homem santo que não faz acepção de pessoa]. Este Isauh!! Então foi para a casa de IS MY WELL (Ismael), que assim se chamava por ser dono da primeira agência matrimonial, e seu slogan era este que dizia que na sua agência encontrariam sempre quem “é seu bem”. Ali Isauh!! Apesar de já possuir outras esposas, arranjou mais uma chamada Maelet (Má eleita), que se revelaria uma má escolha, o que é bem feito tanto para a agência pretensiosa do Is My Well, quanto para o próprio Isauh!! Pela sua gulodice de querer tantas pererecas, o que ficou, desde então, e até antes disso, estabelecido como normal uma vez que os patriarcas antigos do livro santo assim procediam, para glória de Deus e a felicidade dos Mórmons!
O ESCORREGADOR DOS ANJOS
Jacu partiu. No caminho teve sono e dormiu. Colocou uma pedra que estava no meio do caminho, tinha uma pedra pra servir de travesseiro tinha uma pedra. Dormindo, pois, Jacu, sonhou com uma escada onde anjos desciam e subiam, desciam e subiam, como em um escorregador de parquinho. No alto da escada Javé observava. Então Javé disse:
1. Eu sou o Deus de seu pai Abraãocagão e de EuqasI.
2. Mas abraãocagão era meu avô, não meu pai.
3. É apenas uma maneira divina de expressão Jacu, assim como se eu dissesse, eu sou o Deus de fulano, cicrano e beltrano, entende?
4. Ah, bom.
5. Então é isso. Veja bem, a terra sobre a qual você dormiu, eu a entrego a você e a sua descendência. Eu estou com você e o protegerei em qualquer lugar onde for. Depois eu o farei voltar a esta terra, pois nunca o abandonarei, até cumprir o que prometi.
6. Tudo bem... Mas Senhor, e o Isauh!! Meu irmão?
7. Você é que é o escolhido.
8. Mas o Senhor não prometeu ao meu avô e ao meu pai que daria esta terra a todos os descendentes deles?
9. Sim.
10. Ora, Isauh!!! Também é descendente deles não é?
11. Parece que Isauh!! Pelo que eu to sabendo, é filho bastardo. Filho daquele servo do seu avô que foi buscar esposa para o seu pai.
12. Mas nós não somos gêmeos?
13. Bem... Bem... olha...Deus escreve certo por linhas tortas, ou será torto por linhas certas? Bem o importante é você marcar aí este lugar onde passou a noite, pois foi aqui que eu apareci pra você, marca aí e pronto, fui!
Então Jacu pegou a pedra que tinha servido de travesseiro e colocou-a como monolito para marcar o lugar e fez um voto.
As Condições Que Jacu Impôs Para Acreditar e Aceitar Javé Como Seu Deus e Onde Também Estipulou o Salário Que Pagaria a Javé Por Serviços Prestados.
1. Se Deus estiver comigo e me proteger no caminho por onde eu for, se me der pão para comer e roupas para vestir, se eu voltar são e salvo para a casa do meu pai, então Javé será o meu Deus. E esta pedra que ergui como monolito será uma casa de Deus, e eu darei a Ele a décima parte de tudo o que Ele me der.
E Jacu viu que suas condições eram muito boas, pois só saia no lucro e procurou Javé pra ver se ele assinaria um contrato ou uma nota promissória, mas não o tendo encontrado considerou o acordo feito e seguiu viagem.
Jacu então se escafedeu para que seu irmão não lhe botasse as mãos em cima. Foi para a casa do seu tio Lambão. Como este tinha duas filhas, Jacu propôs trabalhar pra ele por sete anos para que Lambão lhe desse a filha mais velha, que era a mais bonita, em casamento.
Serviu Jacu a Lambão pelos sete anos, ao final dos quais, Jacu reivindicou sua esposa. Lambão, no entanto, fez um serviço realmente lambão. Depois da festa de casamento, como estava escuro, introduziu a sua outra filha na tenda de Jacu e este a conheceu de todas as maneiras possíveis e imagináveis, mas só não conheceu que não era a filha pela qual ele havia trabalhado sete anos.
Quando amanheceu e ele percebeu a falcatrua, reclamou para Lambão que lhe respondeu que por aquelas bandas dali o costume era que a mais nova casasse antes da mais velha e que se ele trabalhasse mais sete anos ele lhe daria a outra também.
1. Toma no cu, meu!
2. Aproveitador e mentiroso miserável,
3. Além de comercializar as filhas ainda não cumpre a palavra!
4. É pegar ou largar. Dizia Lambão.
A vontade de Jacu foi o mandar às favas, mas vendo passar a gostosa da outra filha acabou concordando. Passaram, no entanto, mais sete anos e Jacu finalmente conseguiu lavar a égua com a outra filha. Depois disso seguiu a putaria comum ao livro: a filha mais velha [que Jacu queria antes], não conseguia lhe dar filhos, enquanto a outra já tinha tido filhos com Jacu. Aí aquela primeira, com inveja, pediu para que o marido transasse com a sua criada, pra ela ficar com o filho que esta gerasse, ao que Jacu prontamente atendeu, pois não lhe seria grande sacrifício provar mais uma frutinha da que tanto gostava. Mas como, então, esta serva acabou dando a luz, a outra esposa mais nova quis passar na frente da irmã e também pediu pra que Jacu fizesse um esforço e fizesse sexo também com a sua serva. Assim iam as irmãs competindo pra ver quem tinha mais filhos, enquanto Jacu iam se deliciando com a variedade de frutinhas libidinosas sem se preocupar com a monogamia, pois esta não estava em voga por aqueles dias do povo santo. Em resumo, Jacu chegou junto da mais nova de suas esposas de novo e outra vez ela concebeu. E depois de novo ele chegou o reio e ela deu a luz mais uma vez inteirando seis filhos. A mais velha, com raiva, tomou o Jacu e fê-lo trepar com ela até ela empatar com a irmã. Então, não agüentando mais ele deu um basta:
1. Parem! Já ta passando dos limites! Não agüento mais, já comi uma plantação inteira de amendoim pra dar conta de vocês e das servas que quando vocês não estão por perto ficam me pedindo pra deitar com elas também.
Mas no frigir dos ovos [ovos do Jacu], foi se criando uma descendência muito grande como o Javé tinha prometido e dentre todos o que será mais importante para a continuação da história será o Zé, que ficará conhecido como “Zé do Egito”.
Jacu queria ir embora e exigia que Lambão lhe entregasse as suas mulheres, filhos, servas, e também um pagamento, pois ele tinha trabalhado pra burro aqueles anos todos e só tinha ganhado as mulheres pelo serviço, e Lambão que antes possuía posses modestas. Hoje era um homem rico devido ao trabalho do genro. Lambão perguntou:
1. O que você quer de pagamento?
2. Eu tenho mais umas mulheres ai, e...
3. Não, não não.. Nem pensar... quer me matar meu, e ainda me levar a falência? Eu já não tenho porra nenhuma [nem no sentido literal, nem no figurado] e fica me enchendo de mulher que só sabe pedir as coisas e colocar filho no mundo, nada disso.
4. Então o que quer?
5. Vamos fazer o seguinte. Eu fico ainda alguns dias aqui pastoreando o seu rebanho, aí você separa todo animal negro entre os cordeiros e os que são malhados ou pintados entre as cabras. Quando derem cria os que não forem pintados ou malhados não serão meus, mas os que forem pintados ou malhados serão meus.
6. Combinado. [disse rindo pra si mesmo Lambão, pois sabia que as crias seriam quase sempre sem manchas, pois que no seu rebanho quase não havia animais manchados].
Jacu partiu. No caminho teve sono e dormiu. Colocou uma pedra que estava no meio do caminho, tinha uma pedra pra servir de travesseiro tinha uma pedra. Dormindo, pois, Jacu, sonhou com uma escada onde anjos desciam e subiam, desciam e subiam, como em um escorregador de parquinho. No alto da escada Javé observava. Então Javé disse:
1. Eu sou o Deus de seu pai Abraãocagão e de EuqasI.
2. Mas abraãocagão era meu avô, não meu pai.
3. É apenas uma maneira divina de expressão Jacu, assim como se eu dissesse, eu sou o Deus de fulano, cicrano e beltrano, entende?
4. Ah, bom.
5. Então é isso. Veja bem, a terra sobre a qual você dormiu, eu a entrego a você e a sua descendência. Eu estou com você e o protegerei em qualquer lugar onde for. Depois eu o farei voltar a esta terra, pois nunca o abandonarei, até cumprir o que prometi.
6. Tudo bem... Mas Senhor, e o Isauh!! Meu irmão?
7. Você é que é o escolhido.
8. Mas o Senhor não prometeu ao meu avô e ao meu pai que daria esta terra a todos os descendentes deles?
9. Sim.
10. Ora, Isauh!!! Também é descendente deles não é?
11. Parece que Isauh!! Pelo que eu to sabendo, é filho bastardo. Filho daquele servo do seu avô que foi buscar esposa para o seu pai.
12. Mas nós não somos gêmeos?
13. Bem... Bem... olha...Deus escreve certo por linhas tortas, ou será torto por linhas certas? Bem o importante é você marcar aí este lugar onde passou a noite, pois foi aqui que eu apareci pra você, marca aí e pronto, fui!
Então Jacu pegou a pedra que tinha servido de travesseiro e colocou-a como monolito para marcar o lugar e fez um voto.
As Condições Que Jacu Impôs Para Acreditar e Aceitar Javé Como Seu Deus e Onde Também Estipulou o Salário Que Pagaria a Javé Por Serviços Prestados.
1. Se Deus estiver comigo e me proteger no caminho por onde eu for, se me der pão para comer e roupas para vestir, se eu voltar são e salvo para a casa do meu pai, então Javé será o meu Deus. E esta pedra que ergui como monolito será uma casa de Deus, e eu darei a Ele a décima parte de tudo o que Ele me der.
E Jacu viu que suas condições eram muito boas, pois só saia no lucro e procurou Javé pra ver se ele assinaria um contrato ou uma nota promissória, mas não o tendo encontrado considerou o acordo feito e seguiu viagem.
Jacu então se escafedeu para que seu irmão não lhe botasse as mãos em cima. Foi para a casa do seu tio Lambão. Como este tinha duas filhas, Jacu propôs trabalhar pra ele por sete anos para que Lambão lhe desse a filha mais velha, que era a mais bonita, em casamento.
Serviu Jacu a Lambão pelos sete anos, ao final dos quais, Jacu reivindicou sua esposa. Lambão, no entanto, fez um serviço realmente lambão. Depois da festa de casamento, como estava escuro, introduziu a sua outra filha na tenda de Jacu e este a conheceu de todas as maneiras possíveis e imagináveis, mas só não conheceu que não era a filha pela qual ele havia trabalhado sete anos.
Quando amanheceu e ele percebeu a falcatrua, reclamou para Lambão que lhe respondeu que por aquelas bandas dali o costume era que a mais nova casasse antes da mais velha e que se ele trabalhasse mais sete anos ele lhe daria a outra também.
1. Toma no cu, meu!
2. Aproveitador e mentiroso miserável,
3. Além de comercializar as filhas ainda não cumpre a palavra!
4. É pegar ou largar. Dizia Lambão.
A vontade de Jacu foi o mandar às favas, mas vendo passar a gostosa da outra filha acabou concordando. Passaram, no entanto, mais sete anos e Jacu finalmente conseguiu lavar a égua com a outra filha. Depois disso seguiu a putaria comum ao livro: a filha mais velha [que Jacu queria antes], não conseguia lhe dar filhos, enquanto a outra já tinha tido filhos com Jacu. Aí aquela primeira, com inveja, pediu para que o marido transasse com a sua criada, pra ela ficar com o filho que esta gerasse, ao que Jacu prontamente atendeu, pois não lhe seria grande sacrifício provar mais uma frutinha da que tanto gostava. Mas como, então, esta serva acabou dando a luz, a outra esposa mais nova quis passar na frente da irmã e também pediu pra que Jacu fizesse um esforço e fizesse sexo também com a sua serva. Assim iam as irmãs competindo pra ver quem tinha mais filhos, enquanto Jacu iam se deliciando com a variedade de frutinhas libidinosas sem se preocupar com a monogamia, pois esta não estava em voga por aqueles dias do povo santo. Em resumo, Jacu chegou junto da mais nova de suas esposas de novo e outra vez ela concebeu. E depois de novo ele chegou o reio e ela deu a luz mais uma vez inteirando seis filhos. A mais velha, com raiva, tomou o Jacu e fê-lo trepar com ela até ela empatar com a irmã. Então, não agüentando mais ele deu um basta:
1. Parem! Já ta passando dos limites! Não agüento mais, já comi uma plantação inteira de amendoim pra dar conta de vocês e das servas que quando vocês não estão por perto ficam me pedindo pra deitar com elas também.
Mas no frigir dos ovos [ovos do Jacu], foi se criando uma descendência muito grande como o Javé tinha prometido e dentre todos o que será mais importante para a continuação da história será o Zé, que ficará conhecido como “Zé do Egito”.
Jacu queria ir embora e exigia que Lambão lhe entregasse as suas mulheres, filhos, servas, e também um pagamento, pois ele tinha trabalhado pra burro aqueles anos todos e só tinha ganhado as mulheres pelo serviço, e Lambão que antes possuía posses modestas. Hoje era um homem rico devido ao trabalho do genro. Lambão perguntou:
1. O que você quer de pagamento?
2. Eu tenho mais umas mulheres ai, e...
3. Não, não não.. Nem pensar... quer me matar meu, e ainda me levar a falência? Eu já não tenho porra nenhuma [nem no sentido literal, nem no figurado] e fica me enchendo de mulher que só sabe pedir as coisas e colocar filho no mundo, nada disso.
4. Então o que quer?
5. Vamos fazer o seguinte. Eu fico ainda alguns dias aqui pastoreando o seu rebanho, aí você separa todo animal negro entre os cordeiros e os que são malhados ou pintados entre as cabras. Quando derem cria os que não forem pintados ou malhados não serão meus, mas os que forem pintados ou malhados serão meus.
6. Combinado. [disse rindo pra si mesmo Lambão, pois sabia que as crias seriam quase sempre sem manchas, pois que no seu rebanho quase não havia animais manchados].
SOBRE CABRITOS E FATORES RECESSIVOS
[Ou de como Jacu dá Uma de Mendel Alquimista]
Jacu pegou então umas varas verdes e as descascou em tiras deixando aparecer a parte branca das varas de forma que elas ficavam de duas cores. Colocou-as no bebedouro dos bichos. Estes bebiam antes de cobrir as fêmeas e os animais enquanto acasalavam ficavam de frente para as varas como os olhos fixos nas varas listradas [enquanto as fêmeas levavam as varas por trás], e assim, todas tiveram crias malhadas ou pintadas.
Não se sabe até hoje como este experimento “genético-esotérico-alquímico” primitivo deu resultado, sendo que o narrador destes escritos aconselha ao leitor atribuir tal experiência à “mão de deus”.
Jacu ficou então com muitos animais e tendo levantado a sua bunda do lugar onde estava encaminhou novamente para a terra de seus ancestrais, pois que o deus dos seus pais assim havia lhe determinado em aparição não relatada aqui.
Após estes eventos extraordinários, podemos notar nos sucessos posteriores, que aqui não serão relatados minuciosamente em benefício da paciência do leitor, que repetidamente o que acontecia, era: que as mulheres eram tratadas como mercadoria ou como prostitutas, que havia sempre imposição da religião dos escolhidos de Javé aos outros povos.
Ahrá! E contrariando todas as maldições do pai, Isauh! Reaparece muito próspero e rico na história, e ainda tem a nobreza de receber de braços abertos o seu irmão safado e ludibriador. Provando que a benção ou maldição do pai nem cheirava nem fedia [talvez comprovando a procedência bastarda dos gêmeo].
Depois deste acontecidos, uma série de genealogias é relatada minuciosamente. Mas como se sabe que nunca houve ninguém, em nenhum tempo, seja judeu, muçulmano, cristão ou ocultista, espírita, hinduísta, budista, que tenha tido saco suficiente para ler genealogias prolixas e astronômicas, saltamos diretamente para o mais importante descendente posterior a estes eventos, o famigerado, famoso, herói de livros espíritas e até de desenhos animados dos estúdios da Disney: o Zé.
A HISTÓRIA DE ZÉ DO EGITO
Zé era o queridinho do seu papai. O preferido dos descendentes do povo de Javé. Seu pai o paparicava até não mais poder. Era o xodó da mamãe que lhe fazia todas as vontades, porém, seus irmãos se mordiam de ciúmes por ele ser o predileto.
Zé tinha mania de contar seus sonhos. O problema é que nos seus sonhos sempre ele se dava bem e seus irmãos se davam mal. Um dia ele contou:
1. Maninhos adivinhem o que eu sonhei hoje!
2. Ah dá um tempo seu mariquinhas!
3. Não, ouçam. Eu sonhei que todos nós estávamos cortando feixes no campo e de repente o meu feixe ficou de pé e de vocês se prostraram diante dele!
4. Ah, vai à merda, acha que quer dizer o que com isso?
5. Hora certamente que eu sou melhor e mais importante que vocês, não é obvio?
6. Vê se não enche o saco!
7. Mas de tarde, depois do meu lanchinho, quando tiro aquela minha soneca que a mamãe faz questão que eu tire pra que a minha saúde não se prejudicada, eu sonhei também que o sol, a lua e várias estrelas, que eram exatamente o numero de vocês, meus maninhos, se ajoelhavam diante de mim.
8. E por acaso sol, estrelas e lua têm pernas pra ajoelhar?
9. Se tem ou não eu não sei, mas foi o que eu sonhei.
10. No mínimo ta querendo dizer que você é melhor que nos todos e ainda por cima, que é melhor que nosso pai e nossa mãe também, não é?
11. Deixo pra você a interpretação, eh eh.
Aconteceu, pois que um dia os seus irmãos estavam demorando a voltar e seu pai pediu ao Zé que fosse procurá-los.
1. Mas papai, que chato, eu ia nadar agora no Oásis.
2. Faz esta ‘favorzinha bra bapaizinha, minha filhinha bredileta’, faz.
3. Hummm, ta bom, mas se estiver demorando muito encontrá-los eu não quero saber, vou voltar, pois tenho medo de andar no escuro.
4. Ta bom, assim ta bom ‘minha filhinha’, muito ‘obrigadinha’.
Quando Zé estava se aproximando do lugar que seus irmãos estavam, eles o avistaram e um deles disse:
1. Lá vem aquela bichinha sonhadora!
2. É mesmo, porque não aproveitamos e matamo-lo?
3. Mas aí o que vamos dizer para o pai e pra mãe?
4. É mesmo.
5. Mas nós podíamos agarrar ele, arrancar suas roupas e jogá-lo neste poço, só pra dar uma lição nele. Depois é a palavra dele contra a nossa, e se ele contar a gente ameaça dar uma sova nele, do jeito que é medroso, vai se cagar.
6. Eh, eh, eh! Isso mesmo.
Então, assim que o Zé se aproximou seus irmãos o atacaram, e rasgaram sua túnica deixando o pelado!
1. Ai, ai, seus brutos, o que querem de mim, Eu sou virgem, sejam carinhosos!
2. O que você ta falando seu viadinho, ninguém vai te catar não, nosso negócio é mulher!
3. Humm, seus machistas preconceituosos e de mentes limitadas.
4. Ora cala essa boca, e vê se gosta de passar uns dias aí, olha! E dizendo isso o atiraram no poço.
Nisso vinha vindo uma caravana de povos de outras terras e um dos irmãos disse:
1. Hei manos, tive uma idéia!
2. Que idéia?
3. Temos a chance de nos dar bem, ganhar uma grana e ainda não ter de agüentar este Maricas de novo e sem ter que sujar nossas mãos no sangue dele.
4. Como? [perguntaram todos juntos].
5. A gente o vende como escravo pra estes estrangeiros aí e depois ensopamos as roupas dele de sangue de bode, e dizemos pro pai e pra mãe que um animal selvagem o devorou inteirinho.
6. Boa!
7. Mas isso não é pecado? [perguntou um dos irmãos que não falara].
8. Ora, não esquenta não mano, que ainda não recebemos os dez mandamentos.
9. Ah, então ta.
Então, assim procederam. Venderam o irmão aos estrangeiros e ensoparam suas roupas no sangue de um bode para que seus pais pensassem que o seu filho predileto havia sido devorado por alguma fera. Como podemos observar durante todos estes acontecimentos, o povo escolhido de Deus, só fez, enganar, roubar, matar, vender como escravo, negociar mulheres, mentir... mentir... mentir.
ZÉ NO EGITO
Os estrangeiros levaram o Zé para o Egito e venderam para o faraó, que, por sua vez, o deu ao seu principal ministro para que este o levasse para sua casa como criado. Logo que o Zé foi para o Egito, por uma coincidência as coisas começaram melhorar para o faraó, que atribuiu isso ao fato de que Zé tinha uma boa estrela e era protegido pelos deuses, pedindo que o seu ministro o tratasse muito bem. Tudo ia de vento em popa para o Zé, até que a mulher do ministro começou a dar em cima dele. O Zé ia sempre tirando o corpo fora, mas um dia ela o encurralou em um canto e o atacando, agarrou-o, arrancando suas roupas e dizendo com voz sensual:
1. Durma comigo!
2. Ah, mulher, eu to sem sono ultimamente, deixa disso.
3. Idiota, to dizendo no sentido figurado, quero dar pra você, entendeu?
4. Xiii... Bateu na porta errada minha filha, da fruta que você gosta eu como até o caroço!
5. Não quero saber vai me comer de qualquer jeito!
6. Não como!
7. Come!
8. Não como!
9. Então você me pagar, sua boneca!
E dizendo isso saiu da presença do Zé, levando suas roupas, e indo procurar seu marido entrou onde ele estava gritando:
1. Socorro, socorro!
2. O que foi mulher?
3. O hebreu que você trouxe para dentro de nossa casa tentou me violentar!
4. O que? Ingrato! Patife!
5. Pois é, pois é, pois é, pois é.
E assim o ministro do faraó chamou os guardas e mandou que estes arrastassem o Zé até a prisão, onde ele permaneceria por muito tempo até que alguns acontecimentos inesperados viessem a mudar o seu destino.
De como não tendo como Continuar a história os autores do texto arranjaram uma picuinha entre o padeiro, o copeiro com ninguém mais, ninguém menos, do que o próprio FARAÓ.
Passado algum tempo o faraó... O faraó, meu! Rei do Egito... Rei do Egito, fica ofendido com um padeiro e com um copeiro e manda os dois para a prisão que o Zé estava. Para a sorte do Zé estes dois têm sonhos, o Zé interpreta acertadamente os sonhos e segundo suas previsões o copeiro é solto e o padeiro enforcado. Afinal é melhor não ter a louça muito arrumada do que comer pão ruim.
Vai daí, o faraó tem uns sonhos malucos lá, sendo a causa deles, para alguns, atribuída ao faraó ter o costume de fumar uma erva ainda meio desconhecida que se plantava por lá. E, por incrível que pareça, ninguém, nenhum mágico, mago ou sábio do Egito, consegue interpretar os sonhos doidos do faraó, e nem se quer tentam enganá-lo com alguma interpretação que se realizaria em um futuro distante, o que seria totalmente esperado e até compreensível, pois se o faraó costumava ficar de atritinho com copeiros e padeiros e os mandando prender ou matar, que dirá com os sábios, magos e adivinhos, contratados justamente para fazer este serviço tão mais importante de interpretação de sonhos. Mas não. O que acontece é que o chefe dos copeiros é que diz para o faraó que um tal de Zé que tava preso com ele sabia interpretar sonhos. Isso equivale ao funcionário que serve cafezinho no congresso americano ficar de prozinha com o Presidente dos EUA na Casa Branca, contando as fofocas do seu bairro. Mas nós não estamos aqui para questionar os desígnios do deus dos hebreus que deve lá ter seus motivos para tais desvios mirabolantes. Então o faraó manda chamar o Zé.
1. O Faraó quer vê-lo. [diz o carcereiro].
2. Não brinca meu anjo! O faraó, “in person”!
3. É, ele mesmo, agora vamos logo.
4. Nem pensar, num, num, num, primeiro vou fazer a barba, passar uns creminhos que você vai trazer pra mim, e também vou tirar estes trapos e vestir uma roupinha bem transadinha, quero ficar bem chique pro Faraó!
O FARAÓ CONTA OS SEUS SONHOS
1. Zé, eu tive uns sonhos estranhos aí.
2. Me conta, criança.
3. Primeiro sonhei que eu tava acordado, mas quando acordei vi que eu tava dormindo. O que quer dizer isso?
4. Seu faraó, isso aí quer dizer que quando o senhor dorme e sonha, o senhor pensa em sua cabeça uma coisa como se o senhor estivesse acordado, mas que quando acorda e vê bem, não era bem o que o senhor pensava que era o certo, pois o senhor não estava acordado enquanto pensava, mas dormindo, mas mesmo assim não quer dizer que quando o senhor dorme o senhor não acorda também junto com o seu sonho, entendeu? Mas cuidado, somente os Reis inteligentes são capazes de entender esta explicação deste tipo de sonho.
5. Sim, sim, eu entendi certinho. Mas sonhei também com uma velha canção que eu ouvia em criança e que dizia assim: “sonhei com a imagem tua, abri a porta e fui cagar na rua, a bosta endureceu, passou uma Biga e furou o pneu”. E este, o que significa?
6. Basicamente é a mesma coisa, pois quando o faraó era criança, e ainda não tinha por hábito usar o banheiro adequadamente, era castigado por seu pai Tutakamãochseiademerdainfecteris, e então, quando sonhava com a imagem do seu pai e tinha vontade de defecar, abria a porta, no sonho, e cagava na rua para que seu pai não visse a sujeira no palácio e não lhe batesse, mas acontecia que quando seu pai chegava em sua Biga, o pneu desta passava no cocô endurecido e ele acabava descobrindo e lhe metia a mão pela cara do mesmo jeito. Mas mesmo que não se lembre destes eventos, acontece, que, segundo as leis dos astros, todos os grandes homens destinados pelos deuses a reinar sobre outros necessitam esquecer as humilhações infantis para que estas não atrapalhem seu governo, por isso não se surpreenda de não lembrar destes fatos passados que o sonho faz retornar à sua memória enquanto dormes.
7. Sim, sim, de fato não me lembro de nada disso. Mas Zé, os sonhos que mais me perturbam no momento e que fizeram com que eu ordenasse que o trouxessem na minha presença são os seguintes: eu sonhei que sete vacas gordas saiam do rio Nilo e eram seguidas por sete vacas esqueléticas que devoraram as primeiras sete, e depois que sete espigas também gordas brotaram de um ramo e que sete espigas mirradas que brotaram em seguida as devoraram também, nem sei como, já que espiga não tem boca pra devorar. Mas dizem que tudo pode acontecer nos sonhos. Então o que quer dizer isso?
8. Affi, até que enfim um fácil. [disse Zé à parte].
9. O que?
10. Nada, nada, eu orava aqui ao meu deus para que me ajude nestes últimos sonhos relatados por vossa majestade.
11. Ah, e aí?
12. A parada é a seguinte, faraózito, mio amore: durante sete anos o Egito vai se esbaldar, terá uma produção extraordinária de grãos e de tudo o mais que até será cunhado o slogan: “nessa terra em se plantando tudo dá”! Mas depois, faraózito, nos sete anos seguintes, o Egito vai ficar na merda e não vai sobrar nada pra contar história. Tamo no arroiz! Ou melhor, tamo no sem-arroiz!
13. Por Rá, Osíris e companhia, o que fazer?
14. Quer um conselho?
15. Sim, sim, é claro!
16. O faraó deve escolher alguém de confiança e que seja muito inteligente e sábio e colocar esta pessoa à frente de tudo no Egito para que ele administre toda a produção na época de vacas gordas, retirando um quinto de tudo que for produzido para guardar para época de vacas magras. Ou seja, ‘Euzinha’.
17. Gênio!
18. Obrigadinha, querido!
19. Então vou nomear você Zé!
20. Beleza então!
21. Só você é sábio o suficiente, pois foi o único capaz de interpretar estes sonhos. E somente eu estarei sobre você no Egito.
22. Aí já não gostei, só o senhor sobre mim? Ah que chato.
23. Sim, só eu, porque não gostou, homem?
24. Sabe como é, né? É bom dar uma variadinha de vez em quando.
25. Não, entendi, homem.
26. Xii seu faraó, pára com este negócio de me chamar de homem.
27. Ta certo, então vou lhe dar outro nome para você usar de agora em diante na sua nova função. Vou chamá-lo SAFANETILDIS, que tal?
28. Ta aí, disso eu gostei, tava querendo mesmo trocar este nome, ele é muito assim, não sei, sabe, masculino.
29. Bem, então ta tudo certo, você se chama agora Safanetildis e todos estão sob suas ordens, exceto eu.
30. Verdade?
31. Sim.
32. Valeu, faraozito, mio amoreco!
Aconteceu, pois tudo conforme Zé, ou Safanetildis, havia previsto. O Egito depois dos sete anos no bem bom, ficou a mingua. Mas como haviam armazenado tanta comida, o país estava sossegado.
Safanetildis estava cheio de moral. A única coisa que o incomodava era que o faraó lhe arranjara uma esposa, pois não ficava bem um homem na sua posição ser solteiro, e olha que o faraó nunca tinha visto as posições pouco ortodoxas que Safanetildis costumava ficar. E como Safanetildes se lembrava do fim do padeiro, não ousava desafiar o faraó neste particular, revelando-lhe a sua verdadeira orientação sexual.
A mulher que o faraó escolhera para Safanetildis foi ASANHANET, que depois de muitos meses de casamento, não agüentando mais, reclamava para o marido:
1. Safanetildis, meu marido,
2. O que é?
3. Faz meses que nos casamos e você ainda não me conheceu.
4. Que você ta falando mulher, eu conheci você quando o faraó nos apresentou.
5. Não, não, to falando conhecer mesmo, no sentido íntimo, profundo, sabe? [dizia piscando para o marido].
6. Xii, eu heim, não vem que não tem, deste mato aqui não sai coelho não!
7. Mas eu to querendo é cobra, não é coelho.
8. Ah me deixa mulher.
9. Sabe, eu já to cansada de esperar, e se você não quer tem quem quer. To enjoada deste seu jeitinho delicado.
10. Pois então o que você está esperando, vai te arrumar pra outras bandas, santa.
Então Asanhanet, mulher do Zé, agora chamado Safanetildis, coabitou com um escravo e teve um filho ao qual ela colocou o nome de MANÉ-ZÉS (em homenagem ao marido corneado). E logo depois teve outro filho ao qual ela deu o nome de ENFRIA-AÍ [em mim], em homenagem ao seu escravo amante.
JACU MANDA OS FILHOS COMPRAREM ALIMENTO NO EGITO
A fome então cobria toda a terra, como está dito no texto canônico, muito embora o sonho só mencionasse o Egito, e apesar de que a terra toda é muito grande para que a crise alimentícia do Egito afetasse, por exemplo, a civilização Maia. [Mas como não estamos aqui para levantar dúvidas sobre a veracidade de textos sagrados, sigamos com a história].
1. O que vocês estão esperando, seus montes de excremento de camelos? Levantem seus traseiros gordos destes assentos e vão até o Egito que eu soube que lá tem alimento para vender. Ou querem que morramos de fome, seus imprestáveis!
Então dez dos irmãos do Zé desceram até o Egito para comprar trigo.
Jacu, porém, não deixou seu outro filhinho predileto ir, com medo de acontecer com ele o mesmo que aconteceu com o Zé.
1. Beija-a-mim[e a todos], ‘minha outra filhinha bredileta’ não vai não! Eu ‘ter meda’ que aconteça com ele o que aconteceu com José.
Quando os irmãos de Zé chegaram para comprar mantimentos, curiosamente quem os atendeu foi o próprio Zé, que apesar de ser o primeiro em importância no Egito depois do Faraó, era também o balconista que vendia alimentos para o mundo inteiro. Zé era mesmo um exemplo atípico de político e funcionário público.
Chegaram então os seus irmãos [que não reconheceram Zé] e se prostraram diante dele mesmo não estando indo mendigar, mas, comprar os alimentos.
Zé então não resistiu à oportunidade de tirar uma com a cara dos irmãos que o haviam vendido.
1. Garanto que vocês são espiões.
2. Não, não, meu senhor! Seus servos nós somos. Viemos para comprar mantimentos [como sempre o povo que conta com a proteção do altíssimo está se borrando].
3. NananinaNão! Vocês são é espiões mesmo e vou prendê-los.
4. Meu senhor somos irmãos, todos nós filhos do mesmo pai. O mais novo está com nosso pai, um morreu, não somos espiões não, por piedade!
5. Bem, então vocês vão ficar aqui presos menos um que deverá ir até a sua casa buscar seu pai e seu irmão mais novo. Se ele não voltar com os dois, vocês são espiões e vão se ferrar!
6. Se ele não voltar, pode ser também é um filho de uma égua medroso, e mesmo assim nós não seremos espiões.
7. Não discutam se não vai todo mundo pro calabouço!
8. Está bem. E diziam entre si: [isso é para pagarmos o que fizemos com nosso irmão Zé].
Os estrangeiros levaram o Zé para o Egito e venderam para o faraó, que, por sua vez, o deu ao seu principal ministro para que este o levasse para sua casa como criado. Logo que o Zé foi para o Egito, por uma coincidência as coisas começaram melhorar para o faraó, que atribuiu isso ao fato de que Zé tinha uma boa estrela e era protegido pelos deuses, pedindo que o seu ministro o tratasse muito bem. Tudo ia de vento em popa para o Zé, até que a mulher do ministro começou a dar em cima dele. O Zé ia sempre tirando o corpo fora, mas um dia ela o encurralou em um canto e o atacando, agarrou-o, arrancando suas roupas e dizendo com voz sensual:
1. Durma comigo!
2. Ah, mulher, eu to sem sono ultimamente, deixa disso.
3. Idiota, to dizendo no sentido figurado, quero dar pra você, entendeu?
4. Xiii... Bateu na porta errada minha filha, da fruta que você gosta eu como até o caroço!
5. Não quero saber vai me comer de qualquer jeito!
6. Não como!
7. Come!
8. Não como!
9. Então você me pagar, sua boneca!
E dizendo isso saiu da presença do Zé, levando suas roupas, e indo procurar seu marido entrou onde ele estava gritando:
1. Socorro, socorro!
2. O que foi mulher?
3. O hebreu que você trouxe para dentro de nossa casa tentou me violentar!
4. O que? Ingrato! Patife!
5. Pois é, pois é, pois é, pois é.
E assim o ministro do faraó chamou os guardas e mandou que estes arrastassem o Zé até a prisão, onde ele permaneceria por muito tempo até que alguns acontecimentos inesperados viessem a mudar o seu destino.
De como não tendo como Continuar a história os autores do texto arranjaram uma picuinha entre o padeiro, o copeiro com ninguém mais, ninguém menos, do que o próprio FARAÓ.
Passado algum tempo o faraó... O faraó, meu! Rei do Egito... Rei do Egito, fica ofendido com um padeiro e com um copeiro e manda os dois para a prisão que o Zé estava. Para a sorte do Zé estes dois têm sonhos, o Zé interpreta acertadamente os sonhos e segundo suas previsões o copeiro é solto e o padeiro enforcado. Afinal é melhor não ter a louça muito arrumada do que comer pão ruim.
Vai daí, o faraó tem uns sonhos malucos lá, sendo a causa deles, para alguns, atribuída ao faraó ter o costume de fumar uma erva ainda meio desconhecida que se plantava por lá. E, por incrível que pareça, ninguém, nenhum mágico, mago ou sábio do Egito, consegue interpretar os sonhos doidos do faraó, e nem se quer tentam enganá-lo com alguma interpretação que se realizaria em um futuro distante, o que seria totalmente esperado e até compreensível, pois se o faraó costumava ficar de atritinho com copeiros e padeiros e os mandando prender ou matar, que dirá com os sábios, magos e adivinhos, contratados justamente para fazer este serviço tão mais importante de interpretação de sonhos. Mas não. O que acontece é que o chefe dos copeiros é que diz para o faraó que um tal de Zé que tava preso com ele sabia interpretar sonhos. Isso equivale ao funcionário que serve cafezinho no congresso americano ficar de prozinha com o Presidente dos EUA na Casa Branca, contando as fofocas do seu bairro. Mas nós não estamos aqui para questionar os desígnios do deus dos hebreus que deve lá ter seus motivos para tais desvios mirabolantes. Então o faraó manda chamar o Zé.
1. O Faraó quer vê-lo. [diz o carcereiro].
2. Não brinca meu anjo! O faraó, “in person”!
3. É, ele mesmo, agora vamos logo.
4. Nem pensar, num, num, num, primeiro vou fazer a barba, passar uns creminhos que você vai trazer pra mim, e também vou tirar estes trapos e vestir uma roupinha bem transadinha, quero ficar bem chique pro Faraó!
O FARAÓ CONTA OS SEUS SONHOS
1. Zé, eu tive uns sonhos estranhos aí.
2. Me conta, criança.
3. Primeiro sonhei que eu tava acordado, mas quando acordei vi que eu tava dormindo. O que quer dizer isso?
4. Seu faraó, isso aí quer dizer que quando o senhor dorme e sonha, o senhor pensa em sua cabeça uma coisa como se o senhor estivesse acordado, mas que quando acorda e vê bem, não era bem o que o senhor pensava que era o certo, pois o senhor não estava acordado enquanto pensava, mas dormindo, mas mesmo assim não quer dizer que quando o senhor dorme o senhor não acorda também junto com o seu sonho, entendeu? Mas cuidado, somente os Reis inteligentes são capazes de entender esta explicação deste tipo de sonho.
5. Sim, sim, eu entendi certinho. Mas sonhei também com uma velha canção que eu ouvia em criança e que dizia assim: “sonhei com a imagem tua, abri a porta e fui cagar na rua, a bosta endureceu, passou uma Biga e furou o pneu”. E este, o que significa?
6. Basicamente é a mesma coisa, pois quando o faraó era criança, e ainda não tinha por hábito usar o banheiro adequadamente, era castigado por seu pai Tutakamãochseiademerdainfecteris, e então, quando sonhava com a imagem do seu pai e tinha vontade de defecar, abria a porta, no sonho, e cagava na rua para que seu pai não visse a sujeira no palácio e não lhe batesse, mas acontecia que quando seu pai chegava em sua Biga, o pneu desta passava no cocô endurecido e ele acabava descobrindo e lhe metia a mão pela cara do mesmo jeito. Mas mesmo que não se lembre destes eventos, acontece, que, segundo as leis dos astros, todos os grandes homens destinados pelos deuses a reinar sobre outros necessitam esquecer as humilhações infantis para que estas não atrapalhem seu governo, por isso não se surpreenda de não lembrar destes fatos passados que o sonho faz retornar à sua memória enquanto dormes.
7. Sim, sim, de fato não me lembro de nada disso. Mas Zé, os sonhos que mais me perturbam no momento e que fizeram com que eu ordenasse que o trouxessem na minha presença são os seguintes: eu sonhei que sete vacas gordas saiam do rio Nilo e eram seguidas por sete vacas esqueléticas que devoraram as primeiras sete, e depois que sete espigas também gordas brotaram de um ramo e que sete espigas mirradas que brotaram em seguida as devoraram também, nem sei como, já que espiga não tem boca pra devorar. Mas dizem que tudo pode acontecer nos sonhos. Então o que quer dizer isso?
8. Affi, até que enfim um fácil. [disse Zé à parte].
9. O que?
10. Nada, nada, eu orava aqui ao meu deus para que me ajude nestes últimos sonhos relatados por vossa majestade.
11. Ah, e aí?
12. A parada é a seguinte, faraózito, mio amore: durante sete anos o Egito vai se esbaldar, terá uma produção extraordinária de grãos e de tudo o mais que até será cunhado o slogan: “nessa terra em se plantando tudo dá”! Mas depois, faraózito, nos sete anos seguintes, o Egito vai ficar na merda e não vai sobrar nada pra contar história. Tamo no arroiz! Ou melhor, tamo no sem-arroiz!
13. Por Rá, Osíris e companhia, o que fazer?
14. Quer um conselho?
15. Sim, sim, é claro!
16. O faraó deve escolher alguém de confiança e que seja muito inteligente e sábio e colocar esta pessoa à frente de tudo no Egito para que ele administre toda a produção na época de vacas gordas, retirando um quinto de tudo que for produzido para guardar para época de vacas magras. Ou seja, ‘Euzinha’.
17. Gênio!
18. Obrigadinha, querido!
19. Então vou nomear você Zé!
20. Beleza então!
21. Só você é sábio o suficiente, pois foi o único capaz de interpretar estes sonhos. E somente eu estarei sobre você no Egito.
22. Aí já não gostei, só o senhor sobre mim? Ah que chato.
23. Sim, só eu, porque não gostou, homem?
24. Sabe como é, né? É bom dar uma variadinha de vez em quando.
25. Não, entendi, homem.
26. Xii seu faraó, pára com este negócio de me chamar de homem.
27. Ta certo, então vou lhe dar outro nome para você usar de agora em diante na sua nova função. Vou chamá-lo SAFANETILDIS, que tal?
28. Ta aí, disso eu gostei, tava querendo mesmo trocar este nome, ele é muito assim, não sei, sabe, masculino.
29. Bem, então ta tudo certo, você se chama agora Safanetildis e todos estão sob suas ordens, exceto eu.
30. Verdade?
31. Sim.
32. Valeu, faraozito, mio amoreco!
Aconteceu, pois tudo conforme Zé, ou Safanetildis, havia previsto. O Egito depois dos sete anos no bem bom, ficou a mingua. Mas como haviam armazenado tanta comida, o país estava sossegado.
Safanetildis estava cheio de moral. A única coisa que o incomodava era que o faraó lhe arranjara uma esposa, pois não ficava bem um homem na sua posição ser solteiro, e olha que o faraó nunca tinha visto as posições pouco ortodoxas que Safanetildis costumava ficar. E como Safanetildes se lembrava do fim do padeiro, não ousava desafiar o faraó neste particular, revelando-lhe a sua verdadeira orientação sexual.
A mulher que o faraó escolhera para Safanetildis foi ASANHANET, que depois de muitos meses de casamento, não agüentando mais, reclamava para o marido:
1. Safanetildis, meu marido,
2. O que é?
3. Faz meses que nos casamos e você ainda não me conheceu.
4. Que você ta falando mulher, eu conheci você quando o faraó nos apresentou.
5. Não, não, to falando conhecer mesmo, no sentido íntimo, profundo, sabe? [dizia piscando para o marido].
6. Xii, eu heim, não vem que não tem, deste mato aqui não sai coelho não!
7. Mas eu to querendo é cobra, não é coelho.
8. Ah me deixa mulher.
9. Sabe, eu já to cansada de esperar, e se você não quer tem quem quer. To enjoada deste seu jeitinho delicado.
10. Pois então o que você está esperando, vai te arrumar pra outras bandas, santa.
Então Asanhanet, mulher do Zé, agora chamado Safanetildis, coabitou com um escravo e teve um filho ao qual ela colocou o nome de MANÉ-ZÉS (em homenagem ao marido corneado). E logo depois teve outro filho ao qual ela deu o nome de ENFRIA-AÍ [em mim], em homenagem ao seu escravo amante.
JACU MANDA OS FILHOS COMPRAREM ALIMENTO NO EGITO
A fome então cobria toda a terra, como está dito no texto canônico, muito embora o sonho só mencionasse o Egito, e apesar de que a terra toda é muito grande para que a crise alimentícia do Egito afetasse, por exemplo, a civilização Maia. [Mas como não estamos aqui para levantar dúvidas sobre a veracidade de textos sagrados, sigamos com a história].
1. O que vocês estão esperando, seus montes de excremento de camelos? Levantem seus traseiros gordos destes assentos e vão até o Egito que eu soube que lá tem alimento para vender. Ou querem que morramos de fome, seus imprestáveis!
Então dez dos irmãos do Zé desceram até o Egito para comprar trigo.
Jacu, porém, não deixou seu outro filhinho predileto ir, com medo de acontecer com ele o mesmo que aconteceu com o Zé.
1. Beija-a-mim[e a todos], ‘minha outra filhinha bredileta’ não vai não! Eu ‘ter meda’ que aconteça com ele o que aconteceu com José.
Quando os irmãos de Zé chegaram para comprar mantimentos, curiosamente quem os atendeu foi o próprio Zé, que apesar de ser o primeiro em importância no Egito depois do Faraó, era também o balconista que vendia alimentos para o mundo inteiro. Zé era mesmo um exemplo atípico de político e funcionário público.
Chegaram então os seus irmãos [que não reconheceram Zé] e se prostraram diante dele mesmo não estando indo mendigar, mas, comprar os alimentos.
Zé então não resistiu à oportunidade de tirar uma com a cara dos irmãos que o haviam vendido.
1. Garanto que vocês são espiões.
2. Não, não, meu senhor! Seus servos nós somos. Viemos para comprar mantimentos [como sempre o povo que conta com a proteção do altíssimo está se borrando].
3. NananinaNão! Vocês são é espiões mesmo e vou prendê-los.
4. Meu senhor somos irmãos, todos nós filhos do mesmo pai. O mais novo está com nosso pai, um morreu, não somos espiões não, por piedade!
5. Bem, então vocês vão ficar aqui presos menos um que deverá ir até a sua casa buscar seu pai e seu irmão mais novo. Se ele não voltar com os dois, vocês são espiões e vão se ferrar!
6. Se ele não voltar, pode ser também é um filho de uma égua medroso, e mesmo assim nós não seremos espiões.
7. Não discutam se não vai todo mundo pro calabouço!
8. Está bem. E diziam entre si: [isso é para pagarmos o que fizemos com nosso irmão Zé].
GOLPINHO DO ZÉ
Seguiu-se então longa conferência ente Jacu e os filhos que voltaram (apesar de Zé ter dito que só um voltaria); até que Jacu permitiu que eles levassem o Beija-a-mim [e a todos] com eles.
Zé então levou todos os seus irmãos [que ainda não sabiam a verdadeira identidade de Zé] para jantar em sua casa. Quando Zé viu Beija-a-mim [e a todos], saiu rápido da presença, pois choramingava emocionado. Logo depois voltou e deu a seguinte ordem ao mordomo:
1. Coloque tudo o que puder de mantimentos dentro das sacas, desses homens e ponha o dinheiro de cada um na boca das sacas. Na boca da saca do mais novo, junto com o dinheiro coloque a minha taça de prata predileta.
E Assim fez o mordomo.
A PRIMEIRA “BLITZ” DA HISTÓRIA
Quando estavam a caminho de casa os irmãos do Zé foram interceptados pelo mordomo que disse que haviam roubado a taça.
1. Nós? Não roubamos nada não!
Então ao abrirem a sacas acharam a tal taça com o Beija.
Como alguns estranhos que também retornavam de compras no Egito, parassem para observar o que se passava, o mordomo ia batendo palmas e dizendo:
1.Aí, não tem nada pra ver aqui não! Circulando, circulando!
Os irmãos se entreolharam quando viram que a taça estava com o Beija e revoltados gritaram juntos:
1. Tinha que ser o Beija! Estão vendo? Igualzinho aquele fresco do Zé. Agora nos estamos fudidos e mal pagos!
E enquanto falavam iam dando cascudos no ‘pé do ouvido’ do Beija.
De volta à mansão do Zé. Zé e todos os seus irmãos se reuniram em uma grande sala decorada com estátuas de deuses egípcios.
Quando o Zé estava de novo com eles e viu que estavam desesperados, cortando o prego, resolveu revelar sua identidade.
1. Eu sou o Zé!
2. Quem?!
3. Ora, o Zé, não se lembram?
4. Que Zé, meu?
5. O irmão de vocês. Aquele que vocês jogaram no poço e depois venderam como escravo! Lembram agora?
6. Não, ta brincando, né?
7. To não, sou eu mesmo!
8. Caracá! Hei manos, este aí é o Zé, gente! Cara não brinca veio! Puxa meu, você é o Zé mesmo?
9. Já falei que sou eu, mas que droga!
10. Pô cara, olha, na moral. Leva a mal aquele lance de te jogar no poço e te vender como escravo não, e termos pensado em te matar, foi mal aí meu, e...
11. Cala essa boca! Disse um dos outros irmãos [à parte] não vê que o cara pode querer se vingar?
12. Ta tudo bem. O que vocês fizeram não foi legal não, mas acabou que minha vida melhorou muito!
13. Bicho, você tem um harém aqui?
14. Ai! [gritou sentindo uma cotovelada de um irmão]
15. Ah é esqueci que ele não é chegado.
16. Ai! [nova cotovelada], pára de me bater!
17. Então cala essa boca seu idiota quer nos enrolar mais ainda?
18. Bem já chega [disse o Zé] quero saber uma coisa. Meu pai ainda está vivo? Não importa o passado, acho que foi tudo um plano de Deus para que eu viesse na frente e hoje tivesse poder aqui no Egito para poder lhes dar alimento.
19. Planinho complicado, hem? Não dava pra Deus simplesmente não deixar faltar os alimentos? Javé tem uma mania de dar umas voltas compridas pra fazer uma coisa que poderia fazer estalando os dedos.
20. Isso não importa agora. O que eu quero que façam é que tragam meu pai aqui.
21. Mas e a taça que eu roubei? Não vou ser castigado? Disse Beija-a-mim [e a todos], com expressão sonsa e com um dedinho na boca.
22. Você não roubou nada seu fresquinho, ela foi colocada lá só pra sermos pegos na Blitz, e o Zé poder se revelar para nós.
23. Ah, bom. Mas, pra que isso? Ta parecendo com Javé nas complicações. Pra que toda esta encenação de roubo de taça? Ele não podia simplesmente ter dito quem era realmente desde a nossa primeira entrevista?
24. Bem, isso lá é verdade.
25. Hei, hei, deixem de conversa fiada e me dêem cá um abraço [gritou Zé abraçando e beijando os irmãos].
26. Credo! [limpando os rostos] vejo que ainda gosta de um cheirinho de macho né?
27. Sabem como é, enterro de anão e ex-gay não existe, não é? Há, há, há!
28. Mas não falemos disso. Tragam meu pai e as suas famílias e venham morar aqui na terra do Egito, pois...
[Zé começa a cantar e a dançar]
1. “Aqui tem de tudo, É outra civilização, A mulher que quiserem terão”! Aqui sou amigo do Rei. Até a cama escolherão. Eu aqui sempre terei, Na cama meus amigos Gays! Aqui a existência é uma aventura De tal modo inconseqüente Que a Rainha fica Querendo dar pra gente! Como eu não gosto: declino. Aqui comemos Suíno! [baixinho] É outra civilização. Vão depressa e voltem então!
***
[Jacu e os filhos a caminho do Egito param para acampar e dormir]
E assim fizeram os irmãos do Zé. Depois que contaram em sua casa tudo o que ocorrera, seu pai, Jacu, animado em rever seu primeiro filhinho predileto rumou com eles para o Egito. De noite teve uma visão onde Deus lhe apareceu dizendo:
1. Jacu! Jacu!
2. Aqui estou.
3. Eu sou o Eu Sou, o Deus de seu pai.
4. Quem?
5. El.
6. Mas não era Javé, ou o “Eu Sou”? Que droga é essa de El agora?
7. Ora eu sou quem eu bem entender, sou Deus e ponto. Ponho em mim mesmo o nome que quiser e posso ser o que quiser. Se eu quiser ser um mosquito eu posso! Se quiser ser um odre de vinho eu me transformo em um! Quem é você pra dizer o que eu devo ser ou como eu devo me denominar, vê se cala essa boca antes que eu te deixe mudo!
8. Calma, Senhor, também não precisa perder as estribeiras.
9. Bem, o que eu dizia mesmo?
10. Que o Senhor é o El sei lá o que... Ah... o Deus de meu pai!
11. Ah é, pois então. Era isso: Jacu, Jacu!
12. Oi!..Oi!
13. Eu sou o Deus de seu pai..
14. Já sei, Já sei!
15. Pára!
16. Desculpe, mas o Senhor é muito repetitivo. Não sai dessa ladainha. Fala logo aí o que ta pegando que eu quero ver se durmo um pouco, chefia.
17. O que eu ia dizer, quando fui brutalmente interrompido, é para você não ter medo de descer ao Egito, porque lá eu farei de você uma grande nação. Eu descerei ao Egito e o farei voltar de lá e o Zé fechará seus olhos.
18. Pera, pera, pera... Num, num. Não vem não. Primeiro eu já estou a caminho do Egito então é evidente que não estou com medo de ir pra lá. Segundo não quero este negócio de grande nação não, que isso aí é só mais boca pra alimentar, chega de filho, agora sou adepto do controle de natalidade. E terceiro, e mais importante, que negócio é esse de que o Senhor vai pra lá e vai me fazer voltar? Não, não os meus filhos disseram que lá é “outra civilização”, um povo muito mais adiantado que estes nômades semi-bárbaros que é a nossa gente. Disseram até que lá tem prostitutas bonitas pra gente namorar! [piscando para Javé]. Se quiser volta o Senhor. Aliás, nem sei o que vai cheirar por lá. Lá é terra de outros deuses, outra religião, é melhor ficar por estas bandas aqui que é a sua praia. E num quero saber do Zé fechando meus olhos não. Quero-os bem abertos pra ver tudo que tiver por lá! Parece que o negócio no Egito é bão, veio!
19. Que saber? Faz o que você quiser. Mas depois se derem com os burros n’água e esta gente escravizar vocês lá não venham choramingando me pedir ajuda não!
20. Beleza! Já posso dormir, então, hem? Dá licença?
[Javé então se retira visivelmente emburrado e olhando torto para Jacu]
Seguiu-se então longa conferência ente Jacu e os filhos que voltaram (apesar de Zé ter dito que só um voltaria); até que Jacu permitiu que eles levassem o Beija-a-mim [e a todos] com eles.
Zé então levou todos os seus irmãos [que ainda não sabiam a verdadeira identidade de Zé] para jantar em sua casa. Quando Zé viu Beija-a-mim [e a todos], saiu rápido da presença, pois choramingava emocionado. Logo depois voltou e deu a seguinte ordem ao mordomo:
1. Coloque tudo o que puder de mantimentos dentro das sacas, desses homens e ponha o dinheiro de cada um na boca das sacas. Na boca da saca do mais novo, junto com o dinheiro coloque a minha taça de prata predileta.
E Assim fez o mordomo.
A PRIMEIRA “BLITZ” DA HISTÓRIA
Quando estavam a caminho de casa os irmãos do Zé foram interceptados pelo mordomo que disse que haviam roubado a taça.
1. Nós? Não roubamos nada não!
Então ao abrirem a sacas acharam a tal taça com o Beija.
Como alguns estranhos que também retornavam de compras no Egito, parassem para observar o que se passava, o mordomo ia batendo palmas e dizendo:
1.Aí, não tem nada pra ver aqui não! Circulando, circulando!
Os irmãos se entreolharam quando viram que a taça estava com o Beija e revoltados gritaram juntos:
1. Tinha que ser o Beija! Estão vendo? Igualzinho aquele fresco do Zé. Agora nos estamos fudidos e mal pagos!
E enquanto falavam iam dando cascudos no ‘pé do ouvido’ do Beija.
De volta à mansão do Zé. Zé e todos os seus irmãos se reuniram em uma grande sala decorada com estátuas de deuses egípcios.
Quando o Zé estava de novo com eles e viu que estavam desesperados, cortando o prego, resolveu revelar sua identidade.
1. Eu sou o Zé!
2. Quem?!
3. Ora, o Zé, não se lembram?
4. Que Zé, meu?
5. O irmão de vocês. Aquele que vocês jogaram no poço e depois venderam como escravo! Lembram agora?
6. Não, ta brincando, né?
7. To não, sou eu mesmo!
8. Caracá! Hei manos, este aí é o Zé, gente! Cara não brinca veio! Puxa meu, você é o Zé mesmo?
9. Já falei que sou eu, mas que droga!
10. Pô cara, olha, na moral. Leva a mal aquele lance de te jogar no poço e te vender como escravo não, e termos pensado em te matar, foi mal aí meu, e...
11. Cala essa boca! Disse um dos outros irmãos [à parte] não vê que o cara pode querer se vingar?
12. Ta tudo bem. O que vocês fizeram não foi legal não, mas acabou que minha vida melhorou muito!
13. Bicho, você tem um harém aqui?
14. Ai! [gritou sentindo uma cotovelada de um irmão]
15. Ah é esqueci que ele não é chegado.
16. Ai! [nova cotovelada], pára de me bater!
17. Então cala essa boca seu idiota quer nos enrolar mais ainda?
18. Bem já chega [disse o Zé] quero saber uma coisa. Meu pai ainda está vivo? Não importa o passado, acho que foi tudo um plano de Deus para que eu viesse na frente e hoje tivesse poder aqui no Egito para poder lhes dar alimento.
19. Planinho complicado, hem? Não dava pra Deus simplesmente não deixar faltar os alimentos? Javé tem uma mania de dar umas voltas compridas pra fazer uma coisa que poderia fazer estalando os dedos.
20. Isso não importa agora. O que eu quero que façam é que tragam meu pai aqui.
21. Mas e a taça que eu roubei? Não vou ser castigado? Disse Beija-a-mim [e a todos], com expressão sonsa e com um dedinho na boca.
22. Você não roubou nada seu fresquinho, ela foi colocada lá só pra sermos pegos na Blitz, e o Zé poder se revelar para nós.
23. Ah, bom. Mas, pra que isso? Ta parecendo com Javé nas complicações. Pra que toda esta encenação de roubo de taça? Ele não podia simplesmente ter dito quem era realmente desde a nossa primeira entrevista?
24. Bem, isso lá é verdade.
25. Hei, hei, deixem de conversa fiada e me dêem cá um abraço [gritou Zé abraçando e beijando os irmãos].
26. Credo! [limpando os rostos] vejo que ainda gosta de um cheirinho de macho né?
27. Sabem como é, enterro de anão e ex-gay não existe, não é? Há, há, há!
28. Mas não falemos disso. Tragam meu pai e as suas famílias e venham morar aqui na terra do Egito, pois...
[Zé começa a cantar e a dançar]
1. “Aqui tem de tudo, É outra civilização, A mulher que quiserem terão”! Aqui sou amigo do Rei. Até a cama escolherão. Eu aqui sempre terei, Na cama meus amigos Gays! Aqui a existência é uma aventura De tal modo inconseqüente Que a Rainha fica Querendo dar pra gente! Como eu não gosto: declino. Aqui comemos Suíno! [baixinho] É outra civilização. Vão depressa e voltem então!
***
[Jacu e os filhos a caminho do Egito param para acampar e dormir]
E assim fizeram os irmãos do Zé. Depois que contaram em sua casa tudo o que ocorrera, seu pai, Jacu, animado em rever seu primeiro filhinho predileto rumou com eles para o Egito. De noite teve uma visão onde Deus lhe apareceu dizendo:
1. Jacu! Jacu!
2. Aqui estou.
3. Eu sou o Eu Sou, o Deus de seu pai.
4. Quem?
5. El.
6. Mas não era Javé, ou o “Eu Sou”? Que droga é essa de El agora?
7. Ora eu sou quem eu bem entender, sou Deus e ponto. Ponho em mim mesmo o nome que quiser e posso ser o que quiser. Se eu quiser ser um mosquito eu posso! Se quiser ser um odre de vinho eu me transformo em um! Quem é você pra dizer o que eu devo ser ou como eu devo me denominar, vê se cala essa boca antes que eu te deixe mudo!
8. Calma, Senhor, também não precisa perder as estribeiras.
9. Bem, o que eu dizia mesmo?
10. Que o Senhor é o El sei lá o que... Ah... o Deus de meu pai!
11. Ah é, pois então. Era isso: Jacu, Jacu!
12. Oi!..Oi!
13. Eu sou o Deus de seu pai..
14. Já sei, Já sei!
15. Pára!
16. Desculpe, mas o Senhor é muito repetitivo. Não sai dessa ladainha. Fala logo aí o que ta pegando que eu quero ver se durmo um pouco, chefia.
17. O que eu ia dizer, quando fui brutalmente interrompido, é para você não ter medo de descer ao Egito, porque lá eu farei de você uma grande nação. Eu descerei ao Egito e o farei voltar de lá e o Zé fechará seus olhos.
18. Pera, pera, pera... Num, num. Não vem não. Primeiro eu já estou a caminho do Egito então é evidente que não estou com medo de ir pra lá. Segundo não quero este negócio de grande nação não, que isso aí é só mais boca pra alimentar, chega de filho, agora sou adepto do controle de natalidade. E terceiro, e mais importante, que negócio é esse de que o Senhor vai pra lá e vai me fazer voltar? Não, não os meus filhos disseram que lá é “outra civilização”, um povo muito mais adiantado que estes nômades semi-bárbaros que é a nossa gente. Disseram até que lá tem prostitutas bonitas pra gente namorar! [piscando para Javé]. Se quiser volta o Senhor. Aliás, nem sei o que vai cheirar por lá. Lá é terra de outros deuses, outra religião, é melhor ficar por estas bandas aqui que é a sua praia. E num quero saber do Zé fechando meus olhos não. Quero-os bem abertos pra ver tudo que tiver por lá! Parece que o negócio no Egito é bão, veio!
19. Que saber? Faz o que você quiser. Mas depois se derem com os burros n’água e esta gente escravizar vocês lá não venham choramingando me pedir ajuda não!
20. Beleza! Já posso dormir, então, hem? Dá licença?
[Javé então se retira visivelmente emburrado e olhando torto para Jacu]
COMEÇAM OS PROBLEMAS DE CONVIVÊNCIA ENTRE JUDEUS E EGÍPCIOS
Quando Jacu e seus filhos chegaram ao Egito o Faraó disse:
1. A terra do Egito está à disposição de vocês.
Passado um ano, os alimentos da população do Egito já tinham acabado, e eles já haviam entregado até as cuecas em troca de comida. Por fim não tendo mais o que oferecer ao Zé [que era o que cuidava de toda distribuição de alimentos] disseram:
1. Agora só podemos ser escravos a fim de termos alimento e continuarmos vivos.
Zé então comprou apara o Faraó todos os terrenos do Egito, pois os egípcios, forçados pela fome, venderam os seus terrenos [que curiosamente não pertenciam ao Faraó, o Rei de todo o Egito]. Os homens o Faraó os tornou escravos em todo o Egito.
JACU NAS ÚLTIMAS
Quando percebeu que chegara a hora da morte de Jacu ele chamou o Zé e disse:
1. Se tenho o seu afeto coloque a mão debaixo da minha coxa, e prometa tratar-me com amor e fidelidade.
2. Eu, hem? Que isso pai? Até eu que sou gay to te estranhando. Não sou ligado em incesto não, ta me confundindo com Lot?
3. Então prometa que não vai me enterrar no Egito, mas no túmulo dos meus pais.
4. Ta aí, isso eu posso prometer. Fica sossegado que vai descansar o esqueleto junto com seus pais!
Jacu reuniu então seus filhos e disse:
1. Reúnam-se para eu dizer o que vai acontecer com vocês.
2. Aqui estamos nosso pai.
3. Rubinho, você é o primogênito, minha força e o primeiro fruto de minha virilidade, o primeiro na fila e o primeiro em poder, impetuoso...
4. Xii, já vi que não vai sobrar nada pra mais ninguém [dizia um dos outros irmãos].
5. Impiedoso como as águas. Você não manterá a primazia, porque subiu à cama do seu pai e violou o meu leito.
6. O que!? Que papo é esse!? Pirou é!? O velho ta caduco, só pode ser! Que isso pai, o senhor que tava pedindo pro Zé colocar a mão embaixo da sua coxa, sabe lá Deus pra que? E agora me sai com essa aí? Eu subi no seu leito? Pra fazer o que? Eu hem, ta achando que eu sou o Zé ou o Beija?
7. Bem feito, bem feito! [diziam os outros à parte].
8. Calado! Quem fala aqui sou eu!
9. Puta merda, viu!
10. Bem, continuando: Símio-leão e Levi’s são irmãos.
11. Novidade, hem? Não somos todos irmãos? [resmungou Rubinho].
12. Cale-se Rubinho! Como eu ia dizendo a vocês dois, suas espadas são instrumentos de violência. Mataram homens e mutilaram touros.
13. Ka,ka,,ka,ka,ka,ka! Num to falando que o velho ta senil? Que é isso de mutilar touro?
[Jacu, levanta-se meio capenga e dançando em passos curtinhos, canta]:
1. Juju seus irmãos o louvarão, Você é leãozinho, é leão! O cetro dele não afastará Até que o tributo Venha-lhe pagar! Todos lhe obedecerão, Pois que é leãozinho é leão!
2. Massa! [grita Juju sob os olhares fustigadores de seus irmãos]
[Jacu continua a dançinha e a cantiga]
1. Ele amava o seu jumentinho, Seus olhos escuros como o vinho! Zabulou reside à beira mar Issacar... Issacar... Issacar, É jumento robusto, E Dã julga o seu povo De novo Dã é serpente, É víbora Que embosca gente, Morde o cavalo E “zás” o cavaleiro Cai pra traz! Gad atacará pelas costas, Aser seu pão é abundante. Neftali é gazela Solta que tem crias formosas Zé é potro selvagem doravante!
Todos os filhos de Jacu estupefatos.
1. Que é isso gente?
2. O velho endoidou de vez! Que besteirada é essa!? Ah... quer saber... to fora...fui!
3. Então todos os irmãos saíram da tenda de seu pai.
E o velho gritava alucinado:
1. Voltem, voltem eu ainda não terminei! Eu não terminei.. Não termi...
Então Jacu recolheu os pés, ou seja, esticou as canelas.
DEPOIS DA MORTE DE JACU ZÉ ACOLHE SEUS IRMÃOS APROVEITADORES
Percebendo que o pai morreu Zé voltou e chorando o beijou. Ordenou depois que os médicos embalsamassem o corpo do seu pai. Depois de embalsamado Zé pediu permissão ao Faraó para levar seu pai para a terra de Canaã, para enterrar seu pai lá como havia lhe prometido. Um cortejo enorme acompanhou os funerais. Depois de tudo terminado Zé, seus irmãos e toda a comitiva voltaram para o Egito.
Vendo que seu pai tinha morrido os irmãos de Zé disseram entre eles: “e se o Zé guardou rancor contra nós e quer devolver todo o mal que lhe fizemos?”. E mais uma vez o povo escolhido de Deus recorre à mentira mandando outra pessoa dizer ao Zé que antes de morrer seu pai pediu que o Zé perdoasse seus irmãos do crime e do pecado que eles haviam cometido contra ele. Quando ouviu que seu pai havia pedido isso, Zé chorou. Então seus irmãos [que já sabiam que ele tinha acreditado] prostraram se diante dele e disseram: “aqui estamos, somos seus servos”. E Zé respondeu: “não tenham medo, por acaso eu estou no lugar de Deus? Vocês pretendiam o mal, mas Deus fez virar um bem para mim, a fim de cumprir o que se realiza hoje: salvar a vida de um povo numeroso. Portanto não tenham medo. Eu sustentarei vocês e seus filhos”. Eh, eh, eh, deu certo. [cochichavam entre eles]
Zé viveu no Egito com a família de seu pai e chegou aos cento e dez anos. Conheceu os filhos de Enfria-aí [em mim] até a terceira geração, e também os filhos do filho do Manés-Zé e os carregou no colo.
Quando ele passava com as crianças no colo, os vizinhos diziam entre eles: “além de boiola é corno”.
ZÉ BATE COM AS DEZ
Zé um dia disse aos seus irmãos:
1. Estou para morrer, mas Deus cuidará de vocês e os fará subir daqui para a terra que ele prometeu, com juramento, dar a Abraãocagão, Euqasi[morri] e Jacu. E Zé fez os irmãos jurarem: “quando Deus intervier em favor de vocês, levem meus ossos daqui”.
Zé morreu com cento e dez anos. E eles o embalsamaram e colocaram seu corpo num sarcófago no Egito.
DUAS PERGUNTAS DO LEITOR(QUE NÃO QUEREM CALAR)
—Onde diabos está este sarcófago?
—Onde estão os registros egípcios de todos estes incríveis acontecimentos, uma vez que o povo egípcio registrava tudo, desde a morte de um Faraó até uma mudança de tonalidade nos excrementos de um camelo ou uma entonação diferente de um peido de mula?
FIM DO LIVRO DAS “ORIGENS”
Percebendo que o pai morreu Zé voltou e chorando o beijou. Ordenou depois que os médicos embalsamassem o corpo do seu pai. Depois de embalsamado Zé pediu permissão ao Faraó para levar seu pai para a terra de Canaã, para enterrar seu pai lá como havia lhe prometido. Um cortejo enorme acompanhou os funerais. Depois de tudo terminado Zé, seus irmãos e toda a comitiva voltaram para o Egito.
Vendo que seu pai tinha morrido os irmãos de Zé disseram entre eles: “e se o Zé guardou rancor contra nós e quer devolver todo o mal que lhe fizemos?”. E mais uma vez o povo escolhido de Deus recorre à mentira mandando outra pessoa dizer ao Zé que antes de morrer seu pai pediu que o Zé perdoasse seus irmãos do crime e do pecado que eles haviam cometido contra ele. Quando ouviu que seu pai havia pedido isso, Zé chorou. Então seus irmãos [que já sabiam que ele tinha acreditado] prostraram se diante dele e disseram: “aqui estamos, somos seus servos”. E Zé respondeu: “não tenham medo, por acaso eu estou no lugar de Deus? Vocês pretendiam o mal, mas Deus fez virar um bem para mim, a fim de cumprir o que se realiza hoje: salvar a vida de um povo numeroso. Portanto não tenham medo. Eu sustentarei vocês e seus filhos”. Eh, eh, eh, deu certo. [cochichavam entre eles]
Zé viveu no Egito com a família de seu pai e chegou aos cento e dez anos. Conheceu os filhos de Enfria-aí [em mim] até a terceira geração, e também os filhos do filho do Manés-Zé e os carregou no colo.
Quando ele passava com as crianças no colo, os vizinhos diziam entre eles: “além de boiola é corno”.
ZÉ BATE COM AS DEZ
Zé um dia disse aos seus irmãos:
1. Estou para morrer, mas Deus cuidará de vocês e os fará subir daqui para a terra que ele prometeu, com juramento, dar a Abraãocagão, Euqasi[morri] e Jacu. E Zé fez os irmãos jurarem: “quando Deus intervier em favor de vocês, levem meus ossos daqui”.
Zé morreu com cento e dez anos. E eles o embalsamaram e colocaram seu corpo num sarcófago no Egito.
DUAS PERGUNTAS DO LEITOR(QUE NÃO QUEREM CALAR)
—Onde diabos está este sarcófago?
—Onde estão os registros egípcios de todos estes incríveis acontecimentos, uma vez que o povo egípcio registrava tudo, desde a morte de um Faraó até uma mudança de tonalidade nos excrementos de um camelo ou uma entonação diferente de um peido de mula?
FIM DO LIVRO DAS “ORIGENS”
Livro Segundo
RETIRADA
Subiu ao trono do Egito um novo Rei que não tinha conhecido Zé. Ele disse ao seu povo:
1. Moçada os filhos de Is (Rá) El (É O Rá , assim chamados porque Zé tinha meio que se aliado aos Egípcios que adoravam outros deuses diferentes de Javé, entre eles o deus Rá) estão se tornando mais numerosos e poderosos que nós. Esta gente parece que só sabe fazer filho. Isso ta ficando perigoso. Um dia se nós formos atacados eles podem se aliar com o inimigo para nos derrotar. A solução é escravizar esta gentalha toda aí que o meu antecessor deixou entrar no nosso país. É sempre assim. Os governos passados só deixam problemas, sujeira e ônus para o próximo.
Então colocaram capatazes para explorar os Judia[D]eus(de nóis) (também assim denominados por sempre, ao longo da história da humanidade, o povo escolhido de Deus só entrar pelo cano). Os egípcios impuseram então trabalho duro para aquele povo, faziam de tudo que era serviço. O que afinal serviu como uma espécie de estágio supervisionado para que depois eles se alastrassem pelo mundo exercendo todo tipo de atividade e ganhando muito dinheiro.
O Rei ordenou que qualquer menino que nascesse de uma mulher deste povo fosse morto e só deixassem viver as meninas, pois tinha medo que os homens crescendo se virassem contra eles e também que a população deles aumentasse sempre.
[Criança em um cesto descendo o rio. Menina olhando pra ver onde vai parar].
Uma mulher teve um menino e o escondeu, por uns meses. Quando não dava mais pra o esconder, colocou-o em um cesto e soltou no rio Nilo. A irmã da criança ficou vigiando e viu que a filha do Faraó que estava tomando banho no rio notou o cesto e pediu pra uma criada pegar. Quando ela abriu viu que tinha uma criança. Então a irmã do garoto correu até ela e disse que se a princesa quisesse, ela levava para uma mulher do povo escravo cuidar. A filha do faraó disse que sim. A menina buscou a própria mãe da criança e a princesa disse que se ela o amamentasse e cuidasse dele ela lhe pagaria
Pequena Indignação do leitor com as discrepâncias
A filha do Faraó desobedece à ordem do pai sem pestanejar; contrata uma mulher que tecnicamente é sua escrava para criar o menino com remuneração; e sempre esta grande facilidade de acesso do povo comum aos nobres.
Depois que o garoto cresceu a mulher o entregou para a filha do Faraó que o adotou e lhe deu o nome de MOI(ado)SÉS, pois que o tinha retirado da água e também ele estava destinado a sempre molhar as túnicas por ser muito medroso como se verá mais adiante quando fica se mijando de medo de descobrirem que ele matou um egípcio.
***
[Moi(ado)sés passeando pelos arredores da cidade]
Um dia Moi(ado)sés viu um egípcio bater em um escravo, olhou para um lado e para o outro para se certificar que ninguém estava vendo (ahrá! Povinho de Deus fazendo coisa fora da lei!) e vendo que não havia ninguém por perto matou o egípcio. No dia seguinte encontrou dois escravos brigando entre eles e solta essa pérola: — Porque você está ferindo o seu próximo? - Porém esta exortação vindo de alguém que tinha acabado de cometer assassinato não pareceu ter muito sentido para os brigões, e um deles disse: — Pensa que não sabemos que matou um egípcio ontem? Mais uma pequena indignação do narrador com as discrepâncias: Estranhamente ninguém parece saber o que está dizendo, pois Moi(ado)sés quer dar lição de moral depois de cometer assassinato e os caras que eram os escravos oprimidos que deviam achar bom que ele tivesse matado um egípcio para defender um escravo ao invés disso lhe acusam.Moi(ado)sés, então, novamente molhando as túnicas pensa: —Putz! A coisa já ta fedendo é melhor eu fugir para outras bandas!
Os filhos de Is(Rá)El, sofriam com o jugo e gemiam e clamavam. O seu clamor chegou até Deus. Deus levou a questão em consideração, e, para libertá-los, deu início a mais um de seus mirabolantes planos, em lugar de fazer um simples passe de mágica, como quando enrolou a língua dos operários na construção da torre de Be-a-bá-bel.
UM DEUS DOIS EM UM
[O Diálogo entre Deus e Moi(ado)sés]
Javé manda um anjo que também é ele mesmo (Javé) para convocar Moi(ado)sés a libertar o povo escravizado no Egito. O anjo, que também é Javé, aparece numa chama no meio de uma moita. Moi(ado)sés, achando aquilo muito esquisito, pois a chama não consumia a moita, foi chegando mais perto pra ver melhor. E de dentro da moita em chamas sai uma voz que diz:
1. Moi(ado)sés, Moi(ado)sés!
2. Aqui estou!
3. Não se aproxime. Tire as sandálias porque o lugar que você está pisando é sagrado.
4. Pô, foi mal! Desculpa aí! [grita dando um pulo ligeiro e retirando as sandálias dos pés]
5. Eu sou o Deus de seus antepassados. Deus de Abracagão, de Euqasi e Jacu.
6. Credo! - diz Moi(ado)sés, cobrindo o rosto com as mãos, pois achou que era um fantasma.
7. Eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Por isso desci para libertá-lo. Vá então até lá para tirar meu povo do Egito.
8. O que? Eu?
9. Sim Moi(ado)sés, você mesmo.
10. Mas o Senhor não acabou de falar que desceu pra libertá-los? Ora, então vai lá o Senhor. Ou desceu pra mandar eu liberta-los? Quem sou eu pra chegar lá pro Faraó e falar: “aí Fará, a parada é a seguinte, solta os escravos todos aí”! Ta maluco, meu?
11. Não se preocupe Eu estou com você! E este é o sinal de que eu estou enviando você: quando você tirar a turma de lá vocês vão me servir nesta montanha.
12. Uai, servir? Já tão servindo lá, então dá na mesma, é trocar cebola, meu! E, além disso, acha que vão acreditar que eu falei com Deus só por eu dizer isso pra eles? E se me perguntarem qual é o seu nome?
13. Aí você responde que eu disse que “Eu Sou Aquele Que Sou”. Fala que “Eu Sou” te enviou até eles.
14. !? Ah pêra aí, meu! Que que isso? Que história é essa de “Eu Sou Aquele Que Sou”? Todo mundo é aquele que é. Eu nunca vi ninguém que é alguém ser outra pessoa que não aquela que ela é. Isso não vai provar nada pra eles.
15. É realmente isso fica muito informal.
16. Então, não é, tá vendo só?
17. Bem, fala assim então: Javé, o Deus dos antepassados de vocês (e aqui você coloca o nome da galera toda de antes) me enviou. E diz que eu mandei você para que o Faraó os deixe ir embora do Egito, mas que eu já sei que ele não vai deixar. Então eu vou ferir o Egito com mão forte!
18. E porque não faz isso de uma vez, sem eu ter que ir lá? E se também eles não acreditarem e nem fizerem caso, dizendo: “Javé não apareceu a você”.
19. Então Javé perguntou:
20. O que você tem aí na mão?
21. Uma vara, não ta vendo?
22. Jogue ela no chão.
23. Pra que? Eu preciso dela pra andar aqui no deserto.
24. É só por um momento, joga aí!
25. Moi(ado)sés joga a vara no chão e ela se transforma em uma cobra.
26. Ah, aí ta vendo? Porcaria Javé! Agora fiquei sem a minha vara. Falei que não queria jogar. Que brincadeira sem graça, viu!
27. Calma, pega ela aí de volta.
28. Eu, hem? Pegar a cobra?
29. É pode pegar, pega pela calda.
30. Ih, olha lá hem!
31. Pega logo.
32. Moi(ado)sés pega a cobra que imediatamente se transforma em vara de novo.
33. Puta merda, meu! Cabuloso esse truque! Que irado véio, me ensina fazer ele!
34. Isso é para acreditarem em você.
35. Será que acreditam se eu fizer isso?
36. Tem mais, espera aí. Olha, coloca a sua mão no peito.
37. Etâ, veja lá o que vai fazer agora.
38. Fica frio, coloca a mão no peito aí.
39. Moi(ado)sés coloca a mão no peito e ao retirá-la do peito a mão está leprosa.
40. Ah, não, não, não! Pelamordedeus! Não faz isso comigo não.
41. Calma, coloca a mão no peito de novo.
42. Ele coloca a mão de volta e ela volta ao normal.
43. Aí está. Se não acreditarem com o truque da cobra, faz este da mão leprosa. Se mesmo assim não acreditarem pega água do Nilo e derrame na terra seca que ela se transformará em sangue.
44. Puxa, em sangue? Nossa! Ta certo. Mas Senhor, a parada é a seguinte. Eu até que posso aprender estes truques aí e ir lá, mas eu não sei falar direito em público. Tenho dificuldade com as palavras e fico nervoso se tenho de falar ou ler algo em público.
45. Quem dá a boca para o homem.
46. Vou saber.
47. Eu, ora bolas.
48. O senhor?
49. Sim. Não fui eu que fiz o homem e tudo o mais que existe?
50. Bem, não sei ao certo. Já ouvi contarem umas histórias aí, de que a primeira mulher que o senhor teria feito ouviu uma cobra falar que o senhor não criou tudo que tem no mundo sozinho, não.
51. Cala essa boca, Moi(ado)sés!
52. Cruzcredo, que isso Javé, pra que essa gritaria?
53. Estas conversas são mentiras, ouviu? Não de ouvidos a mentiras, isso é pecado! Sabe quem é o pai da mentira, sabe?
54. Hummm.... O Pinóquio?
55. Quem?
56. O Pinóquio, não sabe? Aquele bonequinho de pau que o nariz dele cresce quando ele conta mentira, ih... ih...ih. É divertida a história.
57. Não, Moi(ado)sés, não sei quem é este, não.
58. É bem legal a história, olha tem um velhinho que faz um boneco de pau, mas este boneco não quer ser boneco, sabe, aí...
59. Que isso, Moia(ado)sés, isso não interessa aqui agora! O fato é que o pai da mentira é o diabo, o diabo!
60. O diabo?
61. É, ele mesmo.
62. Puxa vida, que coisa não? Então aquela cobra que contam que ela falou para a primeira mulher, a Evasiva, que ela também participou da criação de tudo, deve ser este tal de diabo aí, né?
63. Ufa! Entendeu enfim, né? Isso mesmo que estou tentando te falar homem. Quem fez a boca do homem, então?
64. Humm....o senhor?
65. Isso! Eu mesmo. Se eu que dou a boca, torno mudo surdo ou cego, ou capaz de ver, quem eu quiser, então eu acho que posso ensinar o que você vai falar lá para os egípcios, não é?
66. Isso lá é. Mas o Senhor é que faz acontecer todas essas desgraças aí, de deixar as pessoas cegas ou mudas e surdas?
67. Olha vamos mudar de assunto deixa isso pra lá. Sabe o seu irmão? Bem, ele é bom pra falar em público, ele fala muito bem.
68. Isso é verdade.
69. Então vamos fazer o seguinte. Você fica encarregado de fazer os truques e seu irmão faz o discurso, ta bom assim pra você Moia(ado)sés, assim ta bom?
70. Agora sim, Senhor. Então agora eu vou. Já to indo lá chamar meu irmão pra ir comigo. (começa a sair apressado e já vai esquecendo a vara).
71. Moi(ado)sés, pega a vara!
72. Puxa é mesmo, já ia esquecendo ela. Como é que eu ia poder fazer a mágica da cobra sem a vara. Valeu aí Javé. Manteremos contato. Fui!
Enquanto viajava para o Egito Moiadosés parou em uma hospedaria e enquanto isso Javé procurava mata-lo (dando provas que continuava não regulando bem, como desde os tempos do Éden, uma vez que procurava matar o homem que havia escolhido para tirar o povo do Egito. [Os doutores alegarão mais tarde que isso se deu como para representar Jesus, mas segundo o autor desta versão, Jesus também era meio pirado encasquetou de fazer tudo de acordo com o que leu e foi ensinado nos livros antigos, para provar que ele era o enviado].
O fato é que Javé tão logo soube que Moía[do]zés tinha circuncidado o seu filho (de Moía[do]zés) deixou de querer matá-lo, mostrando o impressionante poder que tem em aplacar a ira de Deus, um pedaço de pele de pinto! Moía[do]zés contou para seu irmão o Caarão [assim chamado por não ter vergonha de falar qualquer coisa em público e nem de pedir nada, alcunha variante de Carudo].
Caarão foi até os mais velhos e repetiu para eles o que Javé tinha dito. Eles acreditaram e ficaram muito satisfeitos de Javé se importar com eles. Então se ajoelharam e se prostraram (como fora o desejo de Javé desde antes de criar o homem, ou seja, o desejo de ter escravos para si, o que o se o leitor está lembrado foi questionado pelo autor desta versão da história, o diretor de arte P. Mephistopheles M.)MOIADO E CAARÃO CARA A CARA COM O FARAÓ
Disse Caarão:
1. Assim diz Javé:
2. deixe meu povo partir para que celebrem uma festa para mim no deserto.
3. Quem é esse tal de Javé para que eu tenha de obedecer a ele e deixar o povo partir? Não conheço nenhum Javé, não deixo... não deixo....não deiiixoooo!
[Aqui o texto ortodoxo tem outra de suas contradições, pois diz:]
“Eles disseram: (ora bolas, Moiado discutiu um tempão com Deus para não ter de falar nada, pois não levava jeito para orador e agora fala junto com o irmão?”
[Enfim, o texto diz:]
Eles disseram juntos:
1. O Deus dos hebreus veio ao [meu] nosso encontro...
2. Oh, Moiado, deixa que eu falo, pó! Você não disse pro Javé que era pra eu falar?
3. É, mas você ta dizendo que ele veio ao “nosso” encontro, eu falei “meu” encontro, pois ele apareceu foi pra mim.
Faraó: — ????
4. Vou poder falar ou não?
5. Ta, vai lá, fala logo!
6. Javé disse—‘deixe meu povo fazer uma viagem de três dias pelo deserto para oferecer sacrifícios a ele (nosso Deus), caso contrário, ele, Javé, ferirá com peste ou espada.
7. Que? Mas este seu Deus só quer que vocês saiam para fazer festa pra ele, rezar, fazer sacrifícios, não dá folga, ta pior do que ser escravo aqui. Mas se eu não deixar seremos feridos com peste ou espada?
8. O que te importa?
9. Ora, importa muito, se for espada a gente se defende já peste é mais problemático.
10. Ele não especificou. Disse ‘peste ou espada’. :
11. Caarão, me deixa fazer o truque da cobra com o cajado?
12. Espera Moiado, ainda não, vamos ver se conseguimos negociar aqui na base da diplomacia.
13. Olha, o que eu acho é que não tem deus nenhum nessa parada aí, que vocês estão blefando, são uns arruaceiros que ficam subvertendo o povo que trabalha. Quer saber? Voltem vocês também ao trabalho.
14. Mas nós dois não trabalhamos aqui não, nos moramos no deserto.
15. Ah, é? Pois agora vão trabalhar também. Como é que eu vou dispensar esta mão de obra? Seu povo já é mais numeroso que os egípcios. Procriam igual coelho. Eta povo tarado! Não se como ainda têm ânimo de trabalhar o dia inteiro. E querem saber de mais uma coisa? Vocês dois vêem aqui encher meu saco, agora quem vai levar ferro é o seu povo. De agora em diante não darei mais palha para eles fabricarem os tijolos. Vão ter que conseguir a palha onde puderem e vou querer a mesma produção, nem um tijolo a menos. Devem estar desocupados pra ter tempo de ficar pensando nessas bobagens de sacrificar ao seu deus, rezando ao invés de trabalhar. Vou cuidar pessoalmente para que quanto mais rezarem mais assombração apareça.
Então os capatazes e inspetores saíram e falaram ao povo:
1. Não tem mais Palha!
2. vocês que se virem pra arranjar a palha e aí daquele que fabricar um tijolo a menos, vai entrar na chibata!
A coisa ficou muito mais preta, e os encarregados dos escravos reclamaram para o Faraó:
1. Porque estão nos tratando assim?
2. É porque vocês são uns preguiçosos e por isso andam por aí dizendo-‘Vamos oferecer sacrifícios a Javé’— Tão parecendo testemunha de Jeová amolando donas de casa na hora que estas estão fazendo o almoço, lavando roupa...se trabalharem mais não vão ter tempo pra esta besteirada.
Os capatazes foram até Caarão e Moiado e disseram:
1. Que que vocês foram arrumar hem?O que que tinham que ir torrar o saco do Faraó?Agora nós é que levamos no lombo!
NOVO DIÁLOGO ENTRE MOIA[DO]SÉS E JAVÉ
1. Senhor, porque maltratas este povo?
2. Por que me enviou? Desde que me apresentei ao Faraó para falar...
3. Mas não foi seu irmão que falou?
4. bem , ele falou, mas ta escrito que eu falei, já não sei mais nada. O fato é que o povo agora ta trabalhando mais, e o Faraó não deixou ninguém fazar não.
5. Ih, Ih, eu já sabia, foi eu que endureci o coração do faraó pra ele não deixar o povo ir. Isso mesmo que eu queria, agora vocês vão ver o que que eu vou aprondar pra cima do Egito, ka, ka, ka,ka! É pela força que ele os deixará partir, até os expulsará do seu país!
6. Mas o senhor não disse que o senhor mesmo endureceu o coração do faraó para que ele não deixasse o povo ir?
7. Então, foi o que eu fiz, agora eu o obrigo pela força.
8. Mas quer dizer que se o senhor não tivesse endurecido o coração dele, ele já tinha deixado o povo partir?
9. Isso mesmo!
10. Mas isso não é crueldade? Além de fazer o seu povo sofrer no couro, ainda vai castigar os egípcios por não fazerem algo que eles fariam de bom grato, só com o nosso pedido, se o senhor mesmo não tivesse impedido. O senhor é foda, hem?
11. Então? Sou ou não sou o Eu sou?
12. Credo, eu hem?
13. Ah que isso Moi[a]do, que mal que faz criar um draminha pra história ficar mais interessante? Que graça teria se vocês fossem lá, falassem pro faraó pra deixar o povo ir embora e lê dissesse, falou beleza, podem ir!
14. Não tem mal nenhum para o senhor que não ta levando chicotada no lombo, igual ao povo lá! Pimenta no dos outros...
15. Aqui, não questiona muito não, faça o que eu mando e pronto. Como eu dizia, agora vou mostrar minhas garrinhas.
OS ILUSIONISTAS
Moi[a]do:
1. Javé tinha dito:
2. ‘Se o faraó pedir que vocês façam algum prodígio, você, Moiado, dirá a Caarão que pegue a sua vara...
Caarão:
1. Opa, opa, opa. Péra lá!
2. Que negócio é esse de pegar a tua vara?
3. É o cajado seu idiota.
4. Ah bom.
5. Então, como eu dizia você deve pegar o cajado e jogar ele aí na frente do faraó (apesar de que isso eu é que ia fazer, pois Deus tinha dito que você falaria e eu faria os truques, eu treinei tanto!).
6. Mas você mesmo não está dizendo que Javé falou que eu, Caarão, é que ia pegar a sua vara... digo, o seu cajado e fazer a mágica?
7. Pois é ele não fala coisa com coisa. Primeiro diz que é pra você vir junto pra falar, pois eu não sei fazer discurso, e que eu faria os truques, depois diz que pra você pegar a minha vara...
8. Cajado.
9. É que seja, e fazer as mágicas.
10. Bem, então chega de conversa e vamos ao que interessa. Ali está o faraó e sua comitiva, me passa a vara aí, aôa,... quero dizer, o cajado.
Caarão joga a vara, digo o cajado, diante do Faraó e seus ministros e o cajado se transforma em cobra.
1. Fiu, fiu!
2. Barbaridade — diz o faraó.
3. que barato, meu! Mas isso não é nada, veio! Hei encantador de cobras e magos do Egito, mostrem a eles!
E os magos jogaram também seus cajados e estes se transformaram em cobras também.
1. Hehe. viram só? Esse é mais velho do que a Primeira Dinastia!
Então a cobra que era o cajado de Moiado devorou as cobras que eram os cajados dos Magos.
1. Ah, assim não vale, seu trapaceiro — diz o faraó.
2. Então? — disse Moiado — vai deixar o meu povo partir?
3. Por causa deste truquezinho de cajado virar cobra? Não vou não. Até que eu, agorinha mesmo, estava pensando comigo: ‘ah o que tem deixar estes coitados irem embora?’ Tava sentindo vontade fazer isso, mas senti um treco estranho aqui no peito, como se por um passe de mágica meu coração ficasse endurecido e aí, pensei melhor, e agora eu não vou deixar não.
MOI[A]DO E CAARÃO PEDEM UM TEMPO PARA INSTRUÇÕES COM O TÉCNICO
Javé:
1. O coração do Faraó está endurecido,
2. e ele se recusa a deixar o povo partir.
3. Mas o que o senhor queria? O senhor mesmo que vem por areia! Por que diabos endureceu o coração do homem? Ele mesmo disse que tava quase deixando a galera ir embora!
4. Calma, temos que fazer mais uns prodígios, senão como é que vão acreditar que foi por minha causa que deixaram o povo partir? Se o faraó deixa de livre e espontânea vontade o mérito é dele, não meu. E além do mais, pense no futuro, num futuro tão distante que é difícil até imaginar. Como é que Hollywood vai ter matéria para um roteiro legal quando for fazer o filme “Os Dez Mandamentos”, hem?
5. Dez Mandamentos? Que história é essa?
6. Sossegue Moiado, que ainda não é agora que tem de saber disso. Mais tarde, quando o povo sair. Agora vai lá de novo, leva a vara que transformou em cobra, que já é vara de novo, e aproveita que o Faraó ta velejando no Nilo, e aí pega o cajado e diz pra ele deixar o povo ir senão você vai aprontar uma boa agora!
Assim Moi[a]do fez. Tendo advertido o faraó, já se preparava para fazer o truque da água transformar em sangue, mas Javé chega e diz:
1. Diga a Caarão que tome a vara,
2. E estenda a mão sobre as águas do Egito,
3. sobre os rios, canais, lagoas e sobre todos os reservatórios, para que se convertam em sangue.
4. Pó, Javé! De novo?Grita Moi[a]do (jogando a vara no chão de raiva, a qual imediatamente se transforma em cobra e se esgueira para um mato próximo)- eu que ia fazer este truque!
5. Olha o que você fez idiota! — grita Javé — Pega a cobra aí agora pra ela voltar a ser vara e entrega para o Caarão!
6. Que mania de proteger uns em detrimento de outros que o senhor tem, hem? Bem feito que Caindo matou Abelhudo, foi tudo culpa do senhor, por não dar valor ao trabalho e prezar mais a ociosidade de quem quer viver “ao Deus-dará”!
7. Não to te perguntando nada, cala a boca senão agora mesmo eu é que te transformo em cobra!
8. Ah, igual o senhor fez uma vez com aquele seu ajudante na criação do mundo e das criaturas? As notícias correm Javezito, não pensa que isso é segredo não, ta?
9. Não sei do que está falando.
10. Como não sabe? Devia saber, já que é onisciente.
11. Quero dizer que é besteira que você ta falando... ah quer saber? Vai ver se eu to lá atrás daquelas pirâmides, vai.
12. Me dá o arreio aí que se o senhor estiver lá (e deve estar, já que é onipresente) que eu já venho amuntado!
13. Merda! Cala tua boca! Caarão faz o que eu mandei e pega a vara aí, quero dizer a cobra, e estende sobre as águas. Como não dá pra você ir a todos os lagos e reservatórios, assim que transformar a água do Nilo em sangue, automaticamente toda a água do Egito será convertida em sangue. Então vai, pega a cobra.
14. Javé.
15. Que foi? Vai começar você também?
16. É que a cobra sumiu. Deve ter fugido enquanto o senhor discutia com o Moiado.
17. Droga, droga, mil vezes droga! Vê se acha ela aí, procura direito!
18. Bem então estende a mão sem vara mesmo!
19. E então Caarão estendeu suas mãos e as águas se tornaram em sangue.
20. Credo! – gritou o Faraó, que merda é essa, meu? Ta vendo, disse Moiadosés, nós avisamos agora nós transformamos toda a sua água em sangue. Mas os magos do faraó, não perderam tempo e também fizeram o mesmo.
21. Ei, seu idiotas, disse o Faraó, pra que isso? Agora vocês também vão querer me prejudicar, se querer fazer algo que presta, transforma em água de novo.
22. Ah isso ai a gente não treinou não meu Senhor Faraó. Bando de idiotas. Quer saber vou pra casa que estes peixes mortos já tão começando a feder.
Depois disse o Senhor a Moiadosés:
1. Vai a Faraó e dize-lhe: Assim diz o Senhor:Vai a Faraó e dize-lhe:Deixa ir o meu povo, para que me sirva. E se recusares deixá-lo ir, eis que ferirei com rãs todos os teus termos. E o rio criará rãs, que subirão e virão à tua casa, e ao teu dormitório, e sobre a tua cama, e as casas dos teus servos, e sobre o teu povo, e aos teus fornos, e às tuas amassadeiras. E as rãs subirão sobre ti, e sobre o teu povo, e sobre todos os teus servos.
2. Disse mais o Senhor a Moido:
3. Dize a Caarão:
4. Estende a tua mão com tua vara sobre as correntes, e sobre os rios, e sobre os tanques, e faze subir rãs sobre a terra do Egito. E Caarão estendeu a sua mão sobre as águas do Egito, e subiram rãs, e cobriram a terra do Egito.
5. Mas o Senhor não disse pra eu ir lá falar de novo com o Faraó, pra ver se ele deixava o povo ir, antes de fazer o truque das Rãs?
6. Não quero saber, eu sou onisciente e já sei mesmo que aquela praga de faraó não vai deixar mesmo, porque eu mesmo endiurci o coração dele pra ele não deixar, então já ta feito!
7. Vai entender esse Javé.
8. Moiadosés, por acaso questionas o seu Deus?
9. Não, não Senhor, tava só ...só...a deixa quieto as Rãs já tão aí mesmo. Quando as rãs se alastraram por todo o lado vieram
10. novamente os magos do faraó e também fizeram aparecer rãs.
11. Então o Faraó irado gritou:
12. Mas que que isso? Que que isso, Magos, vocês não aprendem, mas são muito idiotas. Vocês estão a meu favor ou contra mim? Que merda de escola de magia que vocês estudaram, vocês têm é que desfazer estas porcaria de feitiços destes dois aí!
13. Sim Senhor seu Faraó,nós vamos dar uma olhada nos nosso manuais.
14. Ah não, assim não dá...que dinastia pode sobreviver com tanta gente atrapalhando?
E Faraó chamou a Moiadosés e a Caarão, e disse: Rogai ao Senhor que tire as rãs de mim e do meu povo; depois deixarei ir o povo, para que sacrifiquem ao Senhor. E disse Moisés a Faraó: Digna-te dizer-me quando é que hei de rogar por ti, e pelos teus servos, e por teu povo, para tirar as rãs de ti, e das tuas casas, e fiquem somente no rio? E ele disse: Amanhã. E Moisés disse: Seja conforme à tua palavra, para que saibas que ninguém há como o Senhor nosso Deus. E as rãs apartar-se-ão de ti, das tuas casas, dos teus servos, e do teu povo; somente ficarão no rio. Vendo, pois, Faraó que havia descanso, endureceu o seu coração, e não os ouviu, como o Senhor tinha dito. Aí Deus apareceu de novo e disse:
1. Agora vocês vão fazer aparecer piolhos...
2. Oh Senhor, pêra lá vai – disse Moiadosés
3. Isso aí ta ficando muito cansativo, o Senhor ta querendo o que brincar de siga o mestre ou coisa assim? Já sabe que não vai dar em nada, pois o senhor mesmo novamente “vai endurecer o coração do Faraó pra ele não deixar o povo partir”. Porque não faz o seguinte...
4. O que?
5. Manda logo uma desgraça feia mesmo que não tem jeito, isso ai de ficar fazendo aparecer estes bichos impertinentes não adianta muito não.
6. Pensando bem acho que você ta certo.
7. Não é? Então.
8. Então já sei - disse Javé esfregando as mãos e com olhar sádico
9. vamos matar todos os primogênitos,todos os primogênitos na terra do Egito morrerá, desde o primogênito de Faraó, que haveria de assentar-se sobre o seu trono, até ao primogênito da serva que está detrás da mó, e todo o primogênito dos animais.
10. Ta loco, meu, isso não é demais não? Afinal muitos são crianças, e o que os pobres animais tem com isso? Pega mais leve Javé.
11. Aqui foi você mesmo que disse pra dar logo um jeito nisso, agora vem reclamar? Vai ser isso mesmo e acabou, afinal que é que é o Eu Sou aqui, Sou eu ou é você?
12. Ora é o Senhor, né?
13. Então Vou fazer é isso mesmo.
14. Mas pelo menos vê se desta vez não endurece o coração do homem, pra ele poder deixar o povo ir, lembre-se que ele já queria deixar desde o começo, e o senhor foi fazer isso de endurecer o coração e aí...
15. Não venha me dar ordens, Moi[a]dosés!
16. Ta bem, ta bem, o Senhor que sabe.
17. E olha vocês todos se recolham em casa e façam uma festinha lá que vai chamar Páscoa, aí vocês matam um cordeiro e passa um pouco de sangue dele na verga da porta pois vou mandar um anjo exterminador, e só quem tiver esta marca na porta é que vai se safar.
18. Pra que isso, o Senhor não sabe onde mora os egípcios e onde mora os judeus?
19. Ah é que não é de hoje que tenho um problema de memória desde o tempo do Éden.
20. Bem se é assim o seguro morreu de velho. Vamos pintar as portas, taca morrer mais carneiro.
E aconteceu, à meia noite, que o Senhor feriu a todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que se sentava em seu trono, até ao primogênito do cativo que estava no cárcere, e todos os primogênitos dos animais. E Faraó levantou-se de noite, ele e todos os seus servos, e todos os egípcios; e havia grande clamor no Egito, porque não havia casa em que não houvesse um morto. Então chamou a Moiadosés e a Caarão de noite, e disse: Levantai-vos, saí do meio do meu povo, tanto vós como os filhos de Israel; e ide, servi ao Senhor, como tendes dito. Levai também convosco vossas ovelhas e vossas vacas, como tendes dito; e ide, e abençoai-me também a mim. Pois agora foi demais uma crueldade destas eu nunca vi, desapareçam daqui do egito podem ir, quanto antes melhor.
[continua]